É um momento de reconhecimento profundo àqueles que, com a força de suas mãos e a determinação em seus caminhos, consolidam a prosperidade local e nacional
Bento Gonçalves celebra, em 25 de julho, o Dia do Colono e Motorista, uma data que transcende a mera formalidade e se estabelece como um tributo fundamental a duas categorias profissionais que, historicamente, moldaram e continuam a impulsionar o desenvolvimento socioeconômico da região.

O Sindicato como alicerce
Cedenir Postal, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bento Gonçalves, enfatiza o papel vital da entidade em auxiliar os agricultores, especialmente na gestão burocrática de suas propriedades. “Hoje está cada vez mais difícil, cada vez mais exigência. Então, precisamos auxiliá-los para que eles façam a coisa correta”, pontua Postal.
Para ele, a mensagem principal aos agricultores é de valorização e orgulho. “Deem valor para o seu trabalho, que se sintam valorizados pelo que fazem, que vocês são muito importantes para toda a sociedade”, reforça. Ele descreve a agricultura como uma “profissão digna, essencial, onde todos dependem da agricultura para sua sobrevivência”. A percepção social sobre o agricultor, que no passado podia ter um preconceito, mudou bastante, algo que o presidente celebra. A valorização e o reconhecimento dos colonos e motoristas são pontos cruciais nesta data.
Cedenir enfatiza também a força e a resiliência dos agricultores da Serra Gaúcha, uma história que começou há 150 anos. “Nesses 150 anos, as dificuldades no início, na chegada, de não ter nenhuma infraestrutura, não ter estradas, ser tudo puro mato… Depois vieram os vilarejos, os primeiros plantios, mas também toda a dificuldade. Tivemos crise do setor vitivinícola em determinadas épocas, como no ano passado, todas as catástrofes que atingiram a nossa região, nas mais diversas épocas, passamos por dificuldades. Tudo começou com o trabalho dos agricultores lá no passado, e que desenvolveram essa região que hoje é exemplo para todo o país e o mundo”, afirma com orgulho.
Elson Schneider, presidente do Sindicato Rural da Serra Gaúcha, avalia o cenário atual da agricultura como um grande desafio. “A atividade, vista como uma empresa a céu aberto, enfrenta todas as intempéries, todas as questões climáticas, além das oscilações econômicas e da lei da oferta e procura, que muitas vezes derruba o preço dos produtos”, afirma.

Sucessão familiar
A questão da sucessão familiar no campo é um grande desafio, segundo Schneider. “As famílias rurais, assim como as urbanas, têm menos filhos, e muitos jovens, após estudarem, não retornam à propriedade. O que segura muito o jovem no campo é resultado financeiro, é dinheiro no bolso”, analisa Schneider. Ele observa que o jovem do campo enfrenta mais riscos e, portanto, busca profissões ou áreas que ofereçam mais segurança financeira. Muitos jovens que se formam em agronomia, por exemplo, estão retornando para garantir o futuro da propriedade, explica Schneider.
A mensagem de Schneider para a comunidade de Bento Gonçalves e da Serra Gaúcha é clara: valorizar as profissões de colono e motorista é fundamental. “É uma mensagem que sempre trazemos, que chama muito a atenção, que nós precisamos valorizar cada vez mais ambas profissões por serem fundamentais no desenvolvimento de uma região e sustentação de uma sociedade, o ser humano, que se trata de alimento”, ressalta.

O legado da terra e do vinho

Alana Foresti e sua mãe Lenir Fátima Mucelin Foresti

Em Bento Gonçalves, a tradição da vitivinicultura não é apenas uma atividade econômica; é um elo ancestral que se manifesta na paixão de famílias como as de Alana Foresti e Lenir Fátima Mucelin Foresti e de Valdecir Bellé. No Dia do Colono e Motorista, a história dessas famílias se entrelaça com o solo fértil da região, revelando a dedicação e o respeito pela terra que transformam a uva em vinho e em legado.
Para Alana, a tradição é a essência de tudo o que fazem. “Desde pequenas, aprendemos que a terra exige respeito e dedicação”, afirma, que, ao lado de sua mãe, Lenir Fátima, assumiu a vinícola após o falecimento de seu pai. A história familiar remonta ao bisavô, passando pelo avô e pai, configurando um legado de quatro gerações. “Um ensinamento que carregamos é que a natureza tem seu tempo, e que cada safra é única, por isso, é preciso trabalhar com paciência e humildade”, complementa Alana.
Bellé compartilha dessa forte conexão. “Eu sou descendente de família italiana, meu bisavô veio da Itália, da família Belé, meu avô e meu pai nasceram aqui e eu também”, relata Bellé. Essa história, que se inicia com os primeiros anos da imigração italiana, é marcada pelo cultivo da terra. O aprendizado transmitido por essas gerações é o da “história de trabalho, amor à terra, dedicação, para poder superar os obstáculos”, afirma Bellé, que ressalta também a importância de ultrapassar as dificuldades, seguindo os exemplos dos primeiros imigrantes.

A magia da vindima
A etapa mais encantadora do ciclo da uva, para Alana, é a vindima. “Ver os cachos maduros prontos para serem colhidos é emocionante”, descreve. Apesar da correria, é um momento de celebração, com o aroma das uvas no ar e a sensação de dever cumprido, tornando-o mágico. O segredo para garantir a qualidade das uvas, segundo Alana, é o cuidado diário. Acompanhar cada etapa de perto, da poda à colheita, respeitando o tempo da planta e colhendo no ponto ideal de maturação, é fundamental. “O toque humano, com olhar atento e carinho, faz toda a diferença”, revela Alana.

Valdecir Bellé


Bellé corrobora a importância dos tratos culturais, apesar da dependência do clima. “Desde adubação, poda seca no inverno, depois os tratamentos fitossanitários, poda verde, permitir que o vinhedo receba uma boa insolação, a luminosidade, que isso tudo vai interferir na qualidade do produto”, detalha.
A sensação de ver o vinho, fruto do trabalho árduo no campo, sendo apreciado por outras pessoas é indescritível para Alana. “É como se cada gole carregasse um pouco da nossa história. Ver o vinho emocionando alguém, sendo escolhido para um brinde ou um momento especial, nos dá a certeza de que vale a pena todo o esforço”, explica.
Para Bellé, este é também o momento mais gratificante. “A gente trabalha, produz, para isso, além de tirar o nosso sustento, é para produzir uma uva de qualidade que chegue como um vinho, um suco, que as pessoas bebam e voltem a beber”, comenta Bellé.

Orgulho e reconhecimento
Para quem trabalha na agricultura, o Dia do Colono e Motorista, celebrado em 25 de julho, é um dia de “reconhecimento e orgulho”. Alana afirma que a data representa “a luta diária de quem planta, colhe e transporta os frutos da terra. É um lembrete de que, por trás de cada alimento e garrafa, existe muito trabalho, dedicação e amor pela terra”, afirma.
Bellé complementa, descrevendo a data como o “reconhecimento da luta diária, da dedicação à terra, da fé nas estações, resiliência diante dos desafios do campo, como o clima, preço, incertezas do mercado”. Ele lembra ainda das catástrofes recentes na região, que mostraram a resiliência dos produtores. “É convite para se pensar. A comida que chega na mesa, os produtos que chegam nos mercados, tudo passa pelas mãos calejadas do agricultor e pelas estradas percorridas pelos motoristas”, enfatiza.
Alana percebe que, embora exista reconhecimento, ele pode aumentar. “Às vezes, o trabalho do colono é romantizado, mas poucos sabem das dificuldades reais do dia a dia”, observa. Em uma região como Bento Gonçalves, o colono é a base da cultura e da economia e merece ser valorizado com políticas públicas, incentivos e respeito”.
Bellé também vê um futuro promissor para quem gosta da terra e da agricultura. “A agricultura precisa de sucessão familiar, precisa de novos jovens, que sigam trabalhando, levando para frente o legado deixado pelos nossos antepassados”, conclui Bellé.
Paralelamente, os motoristas representam o elo vital que conecta a produção ao consumo, as cidades ao campo, e as regiões entre si. Seja no transporte de cargas pesadas, na condução de passageiros ou na distribuição de mercadorias, a figura do motorista é indispensável para a circulação da riqueza e para a dinâmica social.

A essência do transporte

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Bento Gonçalves (Sinditrans), Fernando Parisotto, afirma que é nas estradas que cortam o país e nos trajetos que serpenteiam a Serra Gaúcha, que esses profissionais enfrentam jornadas desafiadoras, riscos inerentes à profissão e a responsabilidade de manter a engrenagem do transporte em constante movimento. Sua coragem e habilidade são a garantia de que produtos chegam aos mercados, que serviços são prestados e que a economia não se estagna.
O Sinditrans tem se posicionado como um defensor incansável dos direitos e da valorização dos motoristas. Conforme expressa Parisotto. “É um momento de celebração e também de reafirmação dessa categoria tão importante ao nosso País”, afirma. É fundamental que se compreenda que a ausência desses profissionais impactaria diretamente a cadeia produtiva e o cotidiano de todos. “O reconhecimento começa por entender que sem o motorista, o país para”, destaca Parisotto. Esse entendimento deve se traduzir em políticas públicas que garantam infraestrutura adequada, segurança nas estradas e condições dignas de trabalho, bem como em um respeito diário nas vias e no reconhecimento do esforço empregado.

A coleta urbana
A empresa RN Freitas, responsável pela coleta de lixo em Bento Gonçalves, gerencia suas operações com foco na otimização e no bem-estar dos colaboradores. Everton Luis Lopes de Fraga, diretor da empresa, explica que a estratégia envolve a criação de rotas mais curtas e a manutenção de reuniões diárias e semanais com as equipes. “Nesses encontros, a gente tenta entender o motivo dos problemas diários que eles encontram para poderem ser resolvidos”, afirma Fraga, que destaca também a importância da valorização dos motoristas e coletores, que precisam ter salários compatíveis com o mercado e o suporte contínuo do técnico de segurança.
Para Fraga, os maiores desafios na coleta urbana não residem nas estradas, mas na interação com a comunidade. “Os grandes problemas às vezes são as pessoas com pressa”, comenta, referindo-se à impaciência de alguns motoristas que, cientes da presença do caminhão de lixo, acabam por ofender os motoristas.

Estradas e desafios
Argeu José Moraes, motorista de transporte de cargas, encontrou na profissão uma vocação, influenciado por seu irmão mais velho, que era caminhoneiro.
Os imprevistos são uma constante na vida do caminhoneiro. “Em viagens assim, pode acontecer alguma coisa de imprevisto”, comenta Moraes. Ele aponta a situação precária de muitas rodovias brasileiras como um grande desafio, especialmente no Maranhão, onde as estradas são muito debilitadas e cheias de buracos. Mesmo em estados com estradas pedagiadas, como São Paulo e Goiás, a qualidade nem sempre corresponde ao valor cobrado.
O trânsito também é um ponto crítico. Moraes atribui os problemas não ao trânsito em si, mas aos motoristas que são impacientes e irresponsáveis, colocando, muitas vezes, a vida dos demais em risco.
Apesar dos obstáculos, a sensação de dever cumprido é a maior recompensa para Moraes. “Chegar lá com a mercadoria é algo. Eu, assim, tenho a sensação de dever cumprido. Ver a mercadoria necessária chegar ao seu destino final me deixa contente”, diz.
Sobre as condições de trabalho e o tempo longe da família, Moraes afirma ter uma jornada flexivél. “A empresa nunca coloca pressão com o horário ou pressão para que os motoristas excedam a legislação. Nós somos proibidos de andar acima do horário. Em relação ao tempo longe de casa, fico fora por períodos de até 15 ou 16 dias de viagem, mas fico 3 a 5 dias em casa, o que me permite sair com a família”, finaliza.


O reconhecimento da sociedade
Para Fraga, tanto colonos quanto motoristas são fundamentais para o desempenho do Brasil. “Se não tivesse o colono, hoje a gente não teria os alimentos, não teria a nossa agricultura Da mesma forma, sem os motoristas o Brasil para”, afirma.
Em sua mensagem final, Fraga enfatiza a gratidão: “Colono e motorista, são muito importantes para o Brasil e para o mundo. A gente depende deles, da produção e para o transporte”. Fraga estende o agradecimento aos motoristas da RN Freitas, muitos dos quais também têm suas próprias propriedades, celebrando sua dupla contribuição.
Moraes, por sua vez, aborda a questão da valorização da profissão sob uma perspectiva crítica: “O problema é dos motoristas. Não são unidos. Se os motoristas fossem mais unidos, seria diferente”. Ele acredita que a união da classe seria essencial para buscar por uma valorização melhor, tanto da empresa quanto da sociedade. Embora se preocupe com a segurança da carga, Moraes sente-se mais tranquilo devido aos postos homologados exigidos pelas seguradoras, que fornecem maior segurança nas paradas.