Longe do consultório e da rotina urbana, o dentista Maurício Dalla Libera trocou o conforto da cidade pelos desafios do Pantanal para levar atendimento odontológico a populações que raramente têm acesso a serviços básicos de saúde. O profissional esteve presente na 14ª Expedição Alma Pantaneira, no qual foi realizado entre os meses de outubro e novembro do último ano.
Libera relata que a expedição da qual participou ocorre anualmente e percorre diferentes regiões do Pantanal. Segundo ele, o trajeto envolve longas distâncias e exige estrutura logística. “Percorrendo o Pantanal do Mato Grosso até o Mato Grosso do Sul cruzando 1.200km. Os atendimentos são realizados em fazendas parceiras do instituto nas quais oferecem local para atendimento, acampamento e comida”, conta.
Além de sua atuação como dentista, a expedição reúne profissionais de diversas áreas da saúde que atuam de forma voluntária. Segundo Libera, a presença de uma equipe multidisciplinar é fundamental para o atendimento às comunidades. “Médicos, dentistas, enfermeiros, fisioterapeutas, farmacêuticos e veterinários. A expedição conta com apoio da Marinha de Corumbá – MS também com outros voluntários de outros estados”, explica o profissional.
Segundo Libera, é um trabalho desafiador e, ao mesmo tempo, gratificante. Para ele, a convivência com outros voluntários torna a experiência ainda mais significativa. “Os momentos são bons, a parceria entre todos faz com que mesmo em situações adversas e de dificuldade associados a exaustão sejam marcantes”, destaca.

Problemas encontrados
O dentista relata que a população pantaneira possui uma alimentação rica em carne, o que pode trazer impactos à saúde bucal ao longo do tempo. Segundo ele, os hábitos alimentares e a falta de orientação contribuem para diversos problemas odontológicos. “Basicamente uma dentição muito desgastada devido a essa mastigação firme. Também um alto índice de ausência dentária devido ao alto consumo de açúcar. A maioria dos procedimentos são restaurações, extrações e tratamento de canal com um foco especial em crianças e bebês. Devido a baixa instrução da população, as mães são orientadas sobre dieta e higiene dos seus filhos, para prevenir doenças, melhorando a saúde e prevenindo complicações futuras”, conta.
Libera destaca que a odontologia é uma profissão que depende fortemente de equipamentos, algo que nem sempre está disponível durante a expedição. Segundo ele, as limitações de estrutura exigem adaptação constante por parte dos profissionais. “Alguns atendimentos foram feitos em sacadas de fazendas, outros embaixo de toldos com vento e poeira. Mas mesmo assim é possível atender a população mesmo com o mínimo de estrutura portátil”, relata.
Questionado sobre casos marcantes durante a expedição, Libera relata que atendeu situações de maior complexidade, especialmente relacionadas a infecções. Segundo ele, a atuação da equipe e o suporte do instituto foram fundamentais para o sucesso dos atendimentos. “Na minha área que é cirurgia atendi vários pacientes com infecções dentárias, mas o instituto fornece medicamentos para os pacientes, assim conseguimos resolver todos os procedimentos independente da severidade”, conta.

Impacto
Segundo ele, como dentista, o principal reflexo está em tirar a dor dos pacientes que vivem na região, assim como orientar sobre instruções de saúde bucal. “Mas acredito que o maior impacto está na reeducação da população, que vem se mostrando eficiente nos últimos anos. Nessa expedição foram realizados 4.810 procedimentos entre as variadas especialidades”, revela.
O profissional destaca que, apesar das dificuldades enfrentadas no dia a dia, o povo pantaneiro demonstra alegria e gratidão. Segundo ele, a convivência com as comunidades torna a experiência ainda mais significativa para os voluntários. “É muito gratificante poder trazer um pouco de ajuda para essas famílias. Inicialmente existe um medo mas todos voluntários deixam o ambiente leve, no final todo mundo fica feliz”, afirma.

Conselho para quem deseja participar
Ao deixar uma orientação para outros profissionais da saúde que desejam atuar como voluntários, Libera incentiva a participação mesmo diante das dificuldades. Segundo ele, a experiência exige adaptação e espírito solidário. “Sendo o primeiro gaúcho a participar eu incentivo mesmo sabendo que as condições são bem adversas, tanto na questão do atendimento por causa da improvisação dos equipamentos, quanto na questão das dificuldades nos deslocamentos e moradia”, aconselha.

Novos voluntariados
Questionado se pretende participar novamente da expedição ou de outras ações voluntárias, o dentista afirma que a experiência foi marcante e que pretende seguir colaborando. Segundo ele, os resultados do trabalho são visíveis ao longo do tempo. “Após toda a expedição é realizado um extenso relatório no qual ano a ano vem mostrando a melhora da saúde da população assistida pelo instituto. Fiquei muito honrado em ter participado da expedição, fazendo atendimentos e acolhendo o pantaneiro através da minha profissão”, conclui.