A viticultura gaúcha enfrenta um desafio crucial, evidenciado pela recente batalha judicial que resultou na proibição de herbicidas hormonais na região da Campanha
A ação, liderada pela Associação Vinhos da Campanha em parceria com o Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis) e com o apoio da Federação das Cooperativas Vinícolas do Rio Grande do Sul (Fecovinho), busca proteger não apenas as parreiras, mas a diversidade agrícola do estado. O diretor-executivo da Fecovinho, Hélio Marchioro, em entrevista, enfatiza que o problema vai muito além do setor vinícola e representa um risco à pluralidade econômica e ambiental do Rio Grande do Sul.
A decisão judicial, descrita por Marchioro como “corajosa”, reconhece os prejuízos causados por agrotóxicos hormonais com alta capacidade de deriva, como o 2,4D, que se espalham pelo ar e atingem cultivos sensíveis, como uvas, oliveiras, noz-pecã e frutas em geral. O executivo explica que diversas cooperativas filiadas à Fecovinho, com associados em regiões como Livramento, Jaguari, São Jorge e noroeste colonial, estão tendo sérios problemas com a contaminação. Marchioro reforça que a preocupação é compartilhada por outras cadeias produtivas, como a pomicultura. “Estamos tratando da produção vitivinícola, e não apenas dela. Essa é a nossa intenção desde 2014, quando passamos a liderar um grupo de trabalho, inicialmente no Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), e que depois continuou também no Consevitis. Seguimos esse trabalho de forma independente, sem nenhum vínculo institucional, justamente porque acreditamos na causa. Na Serra Gaúcha, o impacto não é tão direto, mas já há muitas vinícolas que possuem áreas de produção em outras regiões, como a Campanha e a Serra do Sudeste. Nesses locais, assim como em Vacaria, as vinícolas estão sendo significativamente afetadas”, afirma Marchioro
Para o diretor é importante que todo o agricultor tenha o direito de coexistir, apontando a necessidade de respeito mutuo à todas as produções agrícolas e também a existência de outros produtos que podem ser utilizados sem que haja tanto impacto para as culturas frutíferas. “O Rio Grande do Sul tem uma identidade de diversificação produtiva e econômica muito rica. Só que tudo isso hoje está em xeque, e precisamos manter e fortalecer essa atividade produtiva, porque o Estado sempre teve essa identidade pluriativa. Caso contrário, corremos o risco de, em breve, ficarmos muito dependentes de uma monocultura”, alerta.

Marchioro enfatiza ainda a importância da produção vinícola e frutífera para a geração de empregos do estado. “A monocultura, se a gente faz uma análise comparativa, mostra que ela gera menos empregos, menos oportunidades de trabalho, distribui menos a renda e ainda concentra a produção em um único produto. E o pior: 60% dessa produção é exportada, sem gerar arrecadação interna, porque pela Lei Kandir os produtos exportados são isentos de tributação. Então, não podemos cair na ideia de que a monocultura ‘salva’ e ‘alimenta o mundo’. Isso não é verdade. Mais do que isso, é uma visão equivocada, se pensarmos num futuro no qual o Rio Grande do Sul poderia estar em outro patamar’, esclarece.
Aprovação atual
Apesar da vitória na Campanha, Marchioro pontua que a Fecovinho e os parceiros defendem a extensão da proibição para todo o estado, já que o problema não se restringe a uma única área. Ele menciona que a contaminação por deriva já foi detectada em outras regiões, como Campos de Cima da Serra, onde a produção de uva também é severamente afetada e também na região de Veranópolis, pois a produção de soja expandiu-se em direção à cidade. A luta contra o uso desses herbicidas, que teve início em 2014, é uma resposta à ineficácia das normativas anteriores, que não eram eficazes. “Não havia condições objetivas de identificar quem havia feito a aplicação. Mesmo quando a pessoa seguia as orientações de rótulo do produto, ainda assim não era possível garantir o controle. Isso porque o processo de deriva não acontece apenas pela gota líquida, digamos assim. Se o solo estiver muito quente, o produto evapora; se o vento passar de 10 km por hora, forma-se uma nuvem de evaporação. E tudo isso é praticamente impossível de controlar”, alerta.
Para além do produto
O diretor destaca a questão da responsabilidade técnica. Para ele, é um desafio para os profissionais garantir que um produto com alta deriva será utilizado em condições que não causem resultados negativos. “Além disso, há fatores que fogem do controle: o aplicador, o dia da aplicação, a fiscalização, que não consegue estar presente em cada momento. Por isso, reforço: não estamos aqui para condenar ninguém, mas é importante reconhecer que o técnico que assina assume, sim, uma corresponsabilidade. Sempre foi assim. O problema é que, muitas vezes, o técnico, querendo ajudar o agricultor, acaba assinando de boa-fé, acreditando que tudo será feito da melhor maneira possível, mas, infelizmente, isso nem sempre acontece”, afirma.
A discussão, segundo Marchioro, tem um alcance ainda maior. A Fecovinho planeja levar a pauta nacionalmente, solicitando posicionamentos do Ministério da Agricultura e da Anvisa. O objetivo é criar uma legislação que assegure a viabilidade da agricultura diversificada no Brasil. Marchioro alerta que a monocultura, apesar de ser defendida como geradora de alimento e riqueza, na prática, concentra renda, emprega menos pessoas e cria um círculo vicioso de endividamento para o produtor. “A gente já vive hoje uma situação de endividamento do produtor da monocultura. Isso acontece tanto pela necessidade de capitalização quanto pelas negociações recorrentes com o governo federal, ano após ano. Não é um único fator, são vários. O que muitas vezes ocorre é o produtor pegar um empréstimo para quitar a dívida anterior e, ao mesmo tempo, abrir uma nova dívida. Claro, existe o impacto do clima, mas não é só isso. O nível de investimento necessário para o produtor conseguir manter sua atividade é altíssimo. Seja em tecnologia, em novas máquinas, no pagamento de insumos ou nos investimentos feitos diretamente na lavoura, tudo exige um comprometimento financeiro enorme. O problema é que, no fim, a rentabilidade do produtor acaba sendo consumida por esses compromissos. E assim se cria um círculo vicioso de endividamento do qual é muito difícil escapar. No fundo, isso mostra que a atividade, do jeito que está estruturada hoje, não é sustentável”, finaliza.
Marchioro reforça que a diversificação é a verdadeira identidade do Rio Grande do Sul e o que sustenta economicamente o estado.O executivo finaliza afirmando que a Fecovinho e outras entidades continuarão vigilantes e atuantes nas denúncias, agora com o respaldo da decisão judicial.