Entre os dias 24 e 26 de setembro, Bento Gonçalves foi palco do CONSAÚDE 2025, congresso promovido pela Federação RS que reuniu médicos e gestores hospitalares para debater o tema “Governança como caminho para um hospital sustentável, seguro e inovador”.
O evento, que se estendeu por três dias, foi palco de diversas palestras e momentos importantes para o futuro da medicina. De acordo com a presidente da Confederação RS, Vanderli de Barros, o CONSAÚDE tem papel essencial na integração das instituições. “Trazendo, então, os nossos congressistas para que eles possam estar presentes nas discussões, primeiro, de ordem técnica, organizando também uma agenda de compartilhamento, de conhecimento e de trocas, e que a gente possa também afirmar o valor e a importância dos serviços filantrópicos no Rio Grande do Sul”, comenta.
Segundo ela, o evento congrega as instituições hospitalares filantrópicas do Estado. “Representamos 248 instituições, e somos responsáveis por mais de 73% da assistência ao Sistema Único de Saúde. E nesse trabalho, as nossas instituições, elas estão presentes em praticamente todos os municípios do Estado, e que aqui cumprem uma função muito especial”, conta.
Para a presidente, o CONSAÚDE representa um encontro de uma grande rede de congressistas, unidos pelo olhar voltado ao cuidado com a população gaúcha. “Estamos trabalhando temas ligados à governança e outras pautas fundamentais, além de trazer palestrantes que compartilham experiências, conhecimentos e informações relevantes para fortalecer nossa rede. Este é um momento de troca e de renovação de energia, reforçando que nossa missão maior é salvar vidas. O que nos une é esse propósito comum: garantir que a população seja bem assistida pelas nossas santas casas”, destaca.

Objetivo do tema deste ano
Vanderli fala sobre o tema deste ano. “Olhamos esse cenário da sustentabilidade, na questão da inovação, das tecnologias, mas lembrando sempre que esse cuidado é feito por pessoas e que esse olhar, ele precisa ser construído a partir dessa governança que une gestão, conhecimento técnico e também inclui a comunidade, para que a gente possa fazer a melhor entrega no cuidado centrado na pessoa, para que realmente a gente possa atender as necessidades que a população tem”, esclarece.

Escolha dos palestrantes
Os temas abordados durante o evento surgiram a partir de um olhar técnico dos principais desafios. “Com isso se consegue trabalhar uma programação junto com uma equipe técnica, com um comitê científico, olhando as tendências, as necessidades e as expectativas que nos unem enquanto rede, para que a gente possa estar desafiado a fazer o melhor serviço, especialmente trazendo aqui a organização de palestras que estão vinculadas às nossas áreas de atuação, para que a gente possa entregar o nosso melhor serviço para a população, a partir do dia a dia das nossas instituições”, salienta a presidente.

Impacto
O CONSAÚDE reforça a importância de qualificar a gestão hospitalar e aprimorar a assistência em saúde oferecida à população gaúcha. O encontro busca alinhar práticas, recursos e estratégias para que as instituições possam cumprir, com eficiência e segurança, sua missão essencial de salvar vidas. “Primeiro, gerar o impacto de que realmente a nossa prática diária possa ser otimizada, olhando na perspectiva de todos os recursos que estão disponíveis, para que a população possa, sim, receber o que há de melhor na assistência em saúde, com qualidade e segurança, levando em conta que a vida é o nosso propósito”, destaca a presidente.
Para o médico emergencista e integrante da Rede de Saúde da Divina Providência (RSDP)do Hospital Estrela, Gabriel Klecius, o evento representa uma oportunidade valiosa para aprimorar tanto a gestão quanto a assistência em saúde. “Hoje, os processos de gestão são fundamentais para qualificar o atendimento aos pacientes. Quanto mais avançarmos na gestão, maior será o impacto positivo na assistência prestada”, destaca.

Avanços tecnológicos
Para Klecius a tecnologia é um grande aliado do serviço de saúde. “Se utilizarmos melhor os procedimentos tecnológicos, como por exemplo a inteligência artificial, para depender cada vez menos das pessoas, independente da quantidade de indivíduos que vai fazer os processos, de como o sistema vai funcionar vai ser sempre melhor. E, claro, isso dá mais segurança a todos os processos, porque fica um sistema padronizado”, salienta.
Ele ressalta ainda, que é necessário informar que as pessoas nunca vão deixar de participar dos processos de saúde. “Hoje a gente tem um cuidado centrado no paciente, mas também, sobretudo, nas pessoas. Então, treinar elas, educá-las e, sobretudo, destacá-las para fazer um atendimento humanizado sempre será um sucesso na medicina”, garante.
Em relação a utilização de robôs nos procedimentos cirúrgicos, o médico acredita que é uma condição distante ainda do interior. “É uma realidade, mas ainda muito restrita a alguns hospitais de alta complexidade e, sobretudo, hospitais privados de grande porte”, pressupõe.
De acordo com Gilberto Barrichello, Presidente do Grupo Hospitalar Conceição, estamos em uma era onde em que ele chama de “Hospitais Inteligentes”, fazendo com que seja necessário fazer mudanças de paradigmas na forma de cuidar além do tradicional. “Isso exige de nós novos arranjos tecnológicos e de cuidado. A área de educação e saúde pode vir qualquer tecnologia que ela não substitui os profissionais. Porque saúde é afetividade, é acolhimento”, comenta.
O presidente destaca que a inteligência artificial nunca substituirá o ser humano. “Então nós temos que começar a organizar as nossas instituições para esse mundo que vem com uma velocidade extraordinária. É uma tendência e é uma realidade que começa a existir rápido”, explana.

Medicina preventiva
Ela é uma das áreas mais estratégicas da saúde, voltada para antecipar riscos e evitar o surgimento de doenças antes mesmo que elas se manifestem. Mais do que tratar sintomas, ela busca promover qualidade de vida, reduzir complicações e ampliar a longevidade da população. Com foco em hábitos saudáveis, diagnósticos precoces e acompanhamento contínuo, a medicina preventiva se consolida como um pilar essencial para um sistema de saúde mais eficiente e sustentável. “É o movimento do futuro. Prevenir sempre será melhor em todos os sentidos do que tratar. A prevenção, além de reduzir a morte e mortalidade, ela também diminui os custos em saúde. Então, sem sombra de dúvida, o principal foco do futuro é precaver ao invés de tratar”, afirma o médico.

Principais desafios da medicina
De acordo com Klecius, o principal desafio é operacionalizar o financiamento em saúde, sobretudo do ponto de vista hospitalar. “O Sistema Único de Saúde (SUS), apesar de abranger todos os entes da saúde, ainda é bastante deficitário. Segundo, conseguir levar o tratamento que todos precisam, no momento em que eles precisam. E, principalmente, prevenir para poder reduzir os custos em saúde e, consequentemente, conseguir levar o tratamento para todos aqueles que precisam”, determina.

Relação médico e paciente
Essa é um dos pilares fundamentais da prática em saúde. Mais do que um simples encontro clínico, ela se baseia em confiança, empatia e comunicação clara, fatores que influenciam diretamente a qualidade do diagnóstico e o sucesso do tratamento. Esse vínculo, construído no diálogo e no respeito mútuo, fortalece a adesão às orientações médicas e promove um cuidado mais humanizado, em que o paciente é visto em sua integralidade, e não apenas pela doença. “Estamos vivendo um momento de resgatar e repactuar o conceito de humanização em saúde. Particularmente, atuo como médico na Rede de Saúde da Divina Providência, atualmente no Hospital Estrela, e acredito que o objetivo maior da nossa rede é cuidar da vida com amor. Por algum tempo, esse processo de humanização se perdeu, mas, sem dúvida, as instituições e serviços que colocarem esse enfoque em prática estarão sempre à frente”, destaca Klecius.

Áreas do futuro
Klecius destaca que a medicina de emergência, devido à carência de ações preventivas, tende a se desenvolver ainda mais nos próximos anos. “Hoje, a medicina de emergência consegue reduzir significativamente a mortalidade nos prontos-socorros e, principalmente, diminuir custos ao implantar protocolos e aprimorar a gestão dos departamentos. Sem dúvida, esse é um dos principais fatores para melhorar a qualidade do serviço de saúde. A medicina de emergência, aliada a uma gestão hospitalar eficiente, representa, sem dúvida, uma das áreas do futuro”, observa.

Novos profissionais
O médico ressalta a importância dos estudantes acompanharem de perto todas as mudanças na área da saúde. “É fundamental que se preparem cada vez mais, estudem bastante e, principalmente, conciliem a humanização do cuidado com a competência técnica adquirida por meio do estudo e do conhecimento. Quanto mais os estudantes e médicos recém-formados se prepararem, melhor poderão atender os pacientes em todos os aspectos, como social, assistencial e psicológico”, aconselha.

Avanços na estrutura hospitalar
Klecius explica que a estrutura hospitalar ainda representa um custo elevado. “Devido aos requisitos que a vigilância e os serviços de saúde exigem, ainda enfrentamos um grande déficit estrutural, especialmente na área hospitalar. Há uma carência significativa de leitos, principalmente de alta complexidade, como os de UTI, além da necessidade de renovação e melhoria da qualidade dos leitos antigos. Reformar e modernizar essas unidades é essencial”, finaliza.

Seminário SUS
Durante o evento, aconteceu o Seminário SUS que teve como objetivo debater estratégias para a manutenção e fortalecimento dos hospitais filantrópicos, onde foram abordados diversos tópicos, como:

  • Financiamento;
  • Acesso a novas tecnologia;
  • Recursos para investimento.
    Durante o seminário, Barrichello destaca o papel fundamental que o Brasil vem desempenhando para quebrar a dependência externa que ainda temos. “Vemos isso tanto em produção de equipamentos clínicos, de insumos, o que foi a pandemia, o que foi a vacinação”, comenta.
    Segundo ele, a pandemia deixou grandes aprendizados. “Ela mostrou que a dependência externa custou vidas. É hora de pensarmos em um complexo produtivo da saúde que torne o Brasil soberano em tecnologia, com acesso imediato às principais inovações. Esse movimento já começou pela produção de vacinas”, lembra.
    Ainda durante o seminário, foram discutidas as tendências relacionadas ao envelhecimento da população, especialmente no Rio Grande do Sul. “Esse cenário exige um novo olhar e a criação de novos arranjos, inclusive na arquitetura hospitalar, para que possamos atender bem os nossos idosos. No entanto, ainda não estamos preparados, nem no Rio Grande do Sul nem no Brasil, para oferecer o cuidado que esse público demanda”, prevê.
    Tanto no Brasil, quanto no estado, a taxa de natalidade vem diminuindo, ou seja, precisa haver políticas públicas e pensar em novos “arranjos”, mas não só para idosos. “Quando a gente cria um hospital materno, infantil, pediátrico, a gente sabe que a criança não quer ficar no leito quando está internada”, completa.
    Ele destaca a importância de pensar em alternativas que humanizem o cuidado infantil dentro dos hospitais. “Mesmo doente, a criança precisa de espaços que tragam alegria e conforto, como uma sala de brinquedos, videogames ou até um pequeno cinema dentro do hospital. É muito difícil manter uma criança 24 horas em um leito. Por isso, precisamos repensar a saúde fora da nossa normalidade e dos esquemas tradicionais. A mesmice deve ficar no passado”, ressalta o presidente.
    Ele cita ainda, que o funcionamento do SUS continua sendo subfinanciado. “Não se trata de incompetência dos hospitais, mas sim de um problema real de sustentabilidade financeira que precisa ser resolvido. Além disso, o financiamento da saúde é um dilema constante: muitas vezes, o recurso existe, mas o perfil de gasto não é o mais adequado”, pontua.
    Ele aponta que, muitas vezes, os recursos até existem, mas são mal distribuídos. “Lembro de uma emenda de um deputado que destinou um aparelho de raio-X para Tucunduva, município com cerca de seis mil habitantes. Lá, em média, quatro pessoas por ano sofrem fraturas. Eles nem sabiam como utilizar o equipamento e acabaram tendo que devolver para outro hospital, o que não faz sentido”, relata Barrichello.
    Por fim, ele destacou a necessidade do estado distribuir melhor os profissionais da área da saúde. “Não é possível o interior do Rio Grande do Sul pagar 100 mil reais à um anestesista por mês. A regulamentação das profissões, tem que ser alterada. Não é fácil construir esse acordo”, expõem.
    Durante o debate, foi ressaltada a necessidade urgente de descentralizar os investimentos em saúde e garantir que os recursos cheguem também às regiões do interior, que ainda enfrentam grandes desigualdades no acesso a serviços especializados. “Chega de centralizar tecnologia, conhecimento e recursos apenas nas regiões metropolitanas enquanto o interior permanece desassistido. Para se ter uma ideia, no norte do Estado, 35% do orçamento da Secretaria Municipal de Saúde é gasto apenas com transporte sanitário, levando pacientes a percorrer até 800 quilômetros para uma consulta especializada. Isso é insustentável”, finaliza Barrichello.