Especialistas exploram o cenário da Itália unificada, a difícil travessia transatlântica e as significativas contribuições dos imigrantes italianos para o desenvolvimento regional
Em entrevista ao Jornal Semanário a historiadora Vania Beatriz Merlotti Herédia e a doutora em Educação Terciane Luchese, ambas com vasta trajetória acadêmica, oferecem uma perspectiva multifacetada sobre este período crucial para a formação da identidade local.
Ao traçar um panorama da Itália pré-imigratória, as especialistas detalham o cenário turbulento que impulsionou a diáspora. “A Itália é um país de unificação tardia”, explica Terciane. “É importante ter isso em conta, pensando que, assim como a Alemanha, a Itália vive um período entre 1810, 1820, de vários reinos separados. E esses reinos separados só serão unificados a partir de lutas internas iniciadas pela região do Piemonte e por uma série de movimentos que vão, aos poucos, constituindo o território atual da Itália, que se configura especificamente, como nós conhecemos hoje, no pós Primeira Guerra Mundial”, afirma.
Segundo Vania Beatriz Herédia, a unificação em 1861, longe de solucionar as mazelas existentes, intensificou a crise agrária, principal motor da evasão populacional. “A agricultura não havia se modernizado, e não propiciava condições necessárias à população agrária para enfrentar a crise instalada. A influência da unificação sobre a economia italiana não resolveu questões, que a população acreditava que fossem solucionadas pela via política, como diminuição do custo de vida, salários mais altos e redução das taxas alfandegárias. A crise agrária que o Reino da Itália recém-unificada enfrentou foi um dos principais fatores da saída de um contingente tão elevado de população. As condições de vida eram muitas precárias”, pontua.
Terciane complementa que a escolha do dialeto do Piemonte como língua oficial e o processo de industrialização crescente, principalmente no norte (Vêneto, Piemonte e Lombardia), transformaram os processos produtivos, levando a condições de vida bastante difíceis para boa parte da população. “A industrialização crescente e os processos de transformação da produção agrícola fazem com que boa parte da população italiana viva condições bastante difíceis, e essa tensão social crescente é diminuída pelos movimentos migratórios. Há um processo de grande massa migratória que sai da Europa de um modo geral, mas da Itália de modo especial, entre a segunda metade do século XIX e a primeira década do século XX, faz com que essas tensões sociais internamente na Península Itálica diminuam. Ou seja, a Itália é um país de grande migração, e essa grande migração produz uma mudança demográfica importante para a América de um modo geral”, afirma Terciane, referindo-se à grande massa migratória que saiu da Europa, especialmente da Itália, entre a segunda metade do século XIX e a primeira década do século XX.
Em contrapartida, o Brasil, ávido por mão de obra e buscando reconfigurar sua estrutura social e econômica, implementava políticas de imigração com objetivos bem definidos. “A política brasileira de colonização começou com a vinda da família real portuguesa para o Brasil, onde o processo de colonização assumiu um caráter de inovação. A proposta de colonização tinha como meta enfrentar problemas já instalados no país como o do latifúndio, o da monocultura e o da escravidão”, elucida Vania Beatriz.
Terciane reforça que, nesse período, o Brasil vivia uma transição importante, marcada pela Lei de Terras de 1850. “A Lei de Terras é o que institui oficialmente um processo de separação entre terras com propriedade privada e terras públicas”, explica.
Diferente da experiência migratória alemã de 1824, onde as terras eram doadas, a partir de 1850, as terras públicas passaram a ser vendidas aos imigrantes, em lotes que variavam entre 24 e 48 hectares. Esse movimento estava associado à mudança da mão de obra escravizada para a mão de obra livre, incentivada pela expansão capitalista e, em alguns casos, por políticas de “branqueamento” da população, como mencionado por diversos autores e lembrado por Terciane. “A partir de 1850, as terras públicas serão vendidas para os imigrantes. Boa parte da história, portanto, das migrações e da distribuição de terras é prática de comercialização. É certo que esses imigrantes vão receber o benefício de pagamento durante 10, 15, 20, 25 anos. Alguns deles vão demorar para poderem pagar, mas pagarão ao Estado essa propriedade da terra. Além da distribuição em áreas de terras devolutas de pequenas propriedades para o desenvolvimento agrícola, principalmente policultor e com mão de obra familiar, que é o que rege o Regimento de 1867. A vinda de imigrantes para o Brasil é um processo que se associa a essa mudança de transformação da mão de obra escravizada e o processo de ampliação de mão de obra livre, e aí parte dessa mão de obra livre por imigrantes. Há uma série de autores que falam, inclusive, das políticas, vamos dizer assim, racistas, com as questões do branqueamento da população e, por isso, o incentivo à imigração.”, afirma.
Para o Rio Grande do Sul, a ocupação de terras consideradas devolutas pelo Estado e sua comercialização foram cruciais, como no caso da Serra Gaúcha e das colônias Conde D’Eu, Dona Isabel e Caxias.
“A imigração transoceânica foi muito forte para a América do Sul. Povoados quase inteiros emigraram com ajuda de agentes de colonização, párocos e alguns prefeitos de comunidades que passavam muitos problemas. Apenas em 1901, o governo italiano faz uma legislação que restringe a emigração italiana. A propaganda em prol da emigração foi muito forte e os emigrantes acreditaram que sair da Itália naquele momento era a única solução de sobrevivência familiar. A imprensa foi um elemento de divulgação do sucesso das colônias europeias no sul do Brasil e colaboraram para estimular o mito do empreendedorismo, sustentado no estereótipo de que era possível vencer mesmo sem ter uma sustentação econômica. Expectativa de tirar da terra seu sustento. Os lotes coloniais mediam 25 hectares, diferente do tamanho de lotes da colonização alemã, mas mesmo assim fizeram render muitos frutos e tornaram-se donos de seu próprio destino,” ressalta Vania Beatriz.
A jornada transatlântica, longe de ser uma aventura romântica, representava um desafio monumental para aqueles que buscavam uma nova vida. Terciane detalha a longa e difícil viagem. “Boa parte, uma parte considerável, consistente de imigrantes saem das regiões do Vêneto, saem das regiões do norte da Itália”, explica, descrevendo o deslocamento interno até os portos, principalmente Gênova, e a travessia de um a três meses em embarcações a vapor, geralmente em terceira classe. “As condições são bastante diferentes daquilo que nós, hoje, consideramos minimamente dignas”, pontua, destacando a superlotação, a alimentação precária e a propagação de doenças que, por vezes, causavam perdas de vidas, especialmente entre crianças e idosos.
A chegada ao novo continente, contudo, não significava o fim das provações. Os imigrantes italianos enfrentaram inúmeras dificuldades na adaptação a um ambiente desconhecido. “Além de uma longa travessia marítima, precisaram enfrentar adversidades numa terra desconhecida, onde não falavam a língua e não tinham conhecimento do local que seriam instalados”, explica Vania Beatriz. Terciane reforça: “constante confronto com a diferença, não só a língua, mas os costumes, os hábitos alimentares e até a mudança de estação climática representavam um mundo novo que se abre para a experiência desses imigrantes e nem sempre todos eles estarão preparados suficientemente para enfrentá-las”, pontua.
A precariedade da infraestrutura e a distância dos centros urbanos também representavam obstáculos significativos, com percursos fluviais em pequenos vapores até São Sebastião do Caí ou São João de Montenegro, e dali para a serra gaúcha. A superação dessas barreiras, segundo Vania Beatriz, residiu em fatores como a conquista de propriedade da terra, um sonho inatingível em sua terra natal, e a forte coesão proporcionada pela fé católica.
As contribuições dos imigrantes italianos para o desenvolvimento da região da Serra Gaúcha foram profundas e multifacetadas, deixando um legado que perdura até os dias atuais. Vania destaca dois pilares fundamentais dessa influência: “a cultura do trabalho no sentido de que os italianos eram chamados de ‘amantes do trabalho’ porque o trabalho era um dos principais valores da cultura que trouxeram e da capacidade de adaptação às demandas que eram necessárias para a transformação social esperada pelos governos que os receberam”, concluí. Essas características, somadas à resiliência e ao sonho de uma vida melhor, moldaram a identidade e a prosperidade de Bento Gonçalves e de toda a região.