A carência de preparo na rede de saúde para lidar com as chamadas Desordens Relacionadas ao Glúten (DRG) impulsiona a criação de um curso pioneiro na UCS
O glúten, proteína presente no trigo, cevada, centeio e seus derivados, é fundamental para a elasticidade de massas, mas pode ser um vilão para indivíduos geneticamente predispostos. As principais proteínas do glúten, a gliadina e a glutenina, são de difícil digestão, o que pode desencadear diferentes respostas imunológicas. São três as condições primárias ligadas ao consumo dessa proteína: a doença celíaca, a sensibilidade ao glúten não celíaca (SGNC) e a alergia ao trigo.
Principais diferenças

A distinção entre elas é crucial. A doença celíaca (DC) é uma doença autoimune crônica que resulta em atrofia das vilosidades do intestino delgado após a ingestão de glúten, comprometendo a absorção de nutrientes. Seu único tratamento eficaz é a retirada total e permanente do glúten da dieta. Já a SGNC apresenta sintomas digestivos e extra intestinais, como dor de cabeça e fadiga, após a ingestão, mas sem o dano intestinal ou os marcadores autoimunes da DC. Por fim, a alergia ao trigo é uma reação imunológica adversa às proteínas do trigo, mediada por anticorpos e que pode desencadear desde urticária e asma até anafilaxia.
A manifestação clínica similar e a variedade de sintomas tornam o diagnóstico um desafio, resultando em um alto índice de casos não diagnosticados. Sintomas como anemia, fadiga, osteoporose, constipação e até infertilidade podem ser sinais da DC, mas são frequentemente confundidos com outras condições, como a Síndrome do Intestino Irritável. A coordenadora do Grupo Celíacos Bento Gonçalves RS, Verônica Emanueli, aponta a desinformação como um grande obstáculo. “Muitos casos de doença celíaca e outras desordens passam despercebidos por causa da sutileza e da variedade dos sintomas, que podem se confundir com outras condições,” afirma.
O diagnóstico é ainda mais complexo pela falta de conhecimento de alguns profissionais e pela conduta dos próprios pacientes. A nutricionista Fabiana Magnabosco de Vargas, presidente da Acelbra RS e vice-presidente da Fenacelbra, ressalta um erro comum: “Muitos pacientes iniciam dietas sem glúten antes dos exames, o que prejudica o diagnóstico. No caso da sensibilidade não celíaca, ainda não há testes específicos, tornando o processo mais complexo,” explica.
Como diagnosticar
Os exames específicos existem, mas variam. Para a doença celíaca, o diagnóstico se baseia em testes sorológicos (anti-transglutaminase, anti-endomísio) e, principalmente, na biópsia do intestino delgado, sendo vital que o paciente esteja consumindo glúten. A alergia ao trigo é identificada por testes imunológicos, como a dosagem de IgE específica. A SGNC, por sua vez, é diagnosticada por exclusão, ou seja, pela melhora dos sintomas após a retirada do glúten e o retorno com a reintrodução, após o descarte das outras duas condições.
A nutricionista Larissa Arnold Azevedo alerta para as complicações da ausência de identificação. “A falta de diagnóstico ou tratamento adequado das desordens relacionadas ao glúten pode gerar complicações significativas, tanto nutricionais quanto sistêmicas, com impactos duradouros na qualidade de vida,” comenta. Entre os riscos estão deficiências nutricionais graves, o desenvolvimento de doenças autoimunes associadas e danos intestinais irreversíveis no caso da celíaca. Para a alergia ao trigo, o risco de reações alérgicas potencialmente fatais é constante.
O contato pode acontecer de várias formas

A falta de preparo se estende também ao ambiente hospitalar, agravando o quadro dos pacientes. A contaminação cruzada é um risco sério, seja por utensílios, superfícies ou até mesmo medicamentos com traços de glúten. “Muitos hospitais não têm controle sobre o glúten nas refeições, e até pequenas quantidades podem causar dor, diarreia, inflamação ou até reações graves,” destaca Verônica.
Diante deste cenário, o curso “Desordens Relacionadas ao Glúten: O que Você Sabe?” tem como objetivo primordial capacitar médicos, nutricionistas, farmacêuticos e outros profissionais da área de saúde para reconhecer, diagnosticar e manejar as DRG com segurança e sensibilidade. O curso, que tem vagas limitadas e é aberto também a estudantes, oferece uma abordagem interdisciplinar. “A proposta do curso nasceu a partir da constatação, por meio de diversos relatos, da escassez de profissionais capacitados para lidar com desordens relacionadas ao glúten. Essa carência foi o principal impulso para tornar o curso realidade,” afirma Verônica, detalhando a origem da iniciativa.
Os participantes do curso, segundo a organização, aprenderão a identificar e diferenciar os tipos de desordens, solicitar e interpretar exames com segurança, além de orientar pacientes de forma eficaz e implementar protocolos de segurança em ambientes de saúde. “Capacitar é garantir que os profissionais saibam diferenciar os tipos de DRG, conduzir investigações corretas e oferecer um cuidado seguro, empático e baseado em evidências. É uma resposta ética e necessária à demanda crescente por atendimento qualificado,” pontua Fabiana. A expectativa dos organizadores é que a iniciativa em Bento Gonçalves possa ser expandida e sirva de impulso para que a UCS e outras instituições desenvolvam formações mais aprofundadas no tema.
As inscrições estão abertas até o dia 7 de novembro de 2025 e podem ser realizadas presencialmente na UCS Bento, pelo fone (54)3449.5209, pelo e-mail: mbombassaro@ucs.br, site sou.ucs.br/extensão.