Nos últimos anos, o mercado de alimentos tem enfrentado uma tendência preocupante: o empobrecimento nutricional de produtos largamente consumidos. Com a justificativa de baratear custos e manter preços acessíveis ao consumidor, diversas empresas têm substituído ingredientes por alternativas mais econômicas, mas que comprometem a qualidade nutricional e, consequentemente, a saúde de quem consome esses produtos.

A nutricionista Michele Reginatto alerta para os riscos desse processo: “A substituição de ingredientes naturais por mais baratos empobrece a alimentação. A indústria pode alegar que mantém o ‘sabor’ e o ‘preço acessível’, mas isso acontece às custas da qualidade nutricional e da saúde do consumidor”, indica. Essa mudança nos padrões de fabricação resulta em uma composição que apresenta menor teor de vitaminas e minerais e maior quantidade de aditivos artificiais, carboidratos simples e gorduras prejudiciais, como as hidrogenadas.

Laticínios são os principais produtos com redução de qualidade

Entre os exemplos citados por Michele, destaca-se a substituição do leite por compostos lácteos, que frequentemente contém maltodextrina e óleos vegetais. Embora mais baratos, esses compostos favorecem o aumento de peso e apresentam teores reduzidos de cálcio e proteínas de qualidade. A nutricionista também menciona o caso das misturas de creme de leite: “Apesar de serem mais econômicas, possuem menos cálcio e proteínas, além de incluírem gordura trans e aditivos que afetam a digestão e a flora intestinal”, revela.

Outro exemplo preocupante é o queijo ralado, que agora é amplamente substituído por “misturas alimentícias com queijo ralado”. Esses produtos, além de apresentarem menor quantidade de queijo real, possuem aditivos que interferem tanto no sabor quanto no valor nutritivo.

Impactos na saúde e no consumo

Os reflexos dessas substituições vão além da simples mudança de composição. Os alimentos, agora com mais substâncias artificiais e com menor densidade nutricional, contribuem para o aumento de problemas de saúde como obesidade, descontrole glicêmico e doenças cardiovasculares. Além disso, a alteração de textura e sabor pode interferir na qualidade das receitas culinárias, como observa Michele.

Apesar das alegações da indústria de que essas mudanças tornam os alimentos mais acessíveis, especialistas apontam que o custo real recai sobre o bem-estar dos consumidores, especialmente daqueles que dependem de produtos industrializados como base de sua alimentação.

Consumidor atento

Para mitigar os impactos do empobrecimento dos alimentos, Michele sugere que os consumidores busquem se informar sobre os rótulos dos produtos e priorizem itens com menor quantidade de aditivos e ingredientes artificiais. “A conscientização é o primeiro passo para exigir mudanças no mercado”, conclui.

A venda dessas opções está regulamentada nos órgãos competentes, como o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) ou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e, a princípio, não fere nenhuma lei.

Para garantir que o produto “alternativo” fique mais parecido com o original, as empresas acrescentam em leites condensados, requeijões e bebidas lácteas no geral alguns ingredientes complementares, que dão consistência e sabor, como o amido, a gordura vegetal e o açúcar.

Em alguns casos, a adição desses compostos não é suficiente e as empresas precisam acrescentar outros compostos químicos, como emulsificantes, adoçantes e aromatizantes.

Segundo a Embrapa, cada brasileiro consome uma média de 166 litros de leite por ano, taxa que aumenta exponencialmente desde os anos 1990. Além da menor qualidade nutricional de alguns desses lácteos “alternativos”, é preciso prestar atenção na adição dos compostos que terminam com “ante” neles, como os corantes, emulsificantes e adoçantes.

De acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado pelo Ministério da Saúde em 2014, o consumo de alimentos ultraprocessados, que trazem muitos desses ingredientes de nome complicado e não são encontrados facilmente na despensa ou na geladeira de nossas casas, deve ser evitado sempre que possível.