Nos últimos anos, tem se observado um aumento significativo no consumo de medicamentos voltados ao tratamento da ansiedade e da depressão, especialmente entre profissionais líderes de diferentes áreas.
De acordo com a pesquisa “Inteligência Emocional e Saúde Mental no Ambiente de Trabalho”, realizada pela The School of Life em parceria com a Robert Half, o número de profissionais que recorreram a medicamentos para lidar com questões emocionais cresceu de forma expressiva no último ano. Entre os líderes, o índice passou de 18% em 2024 para 52% em 2025, enquanto entre os liderados o aumento foi de 21% para 59% no mesmo período.
Os dados evidenciam um avanço preocupante no uso de remédios como forma de enfrentar o estresse e a pressão no ambiente corporativo. A rotina acelerada, a busca por desempenho, as metas cada vez mais exigentes e a falta de equilíbrio entre vida pessoal e trabalho têm contribuído para o crescimento dos casos de transtornos emocionais. Diante desse cenário, muitos trabalhadores acabam recorrendo ao uso de fármacos como forma de lidar com o estresse e manter a produtividade. Especialistas alertam para a necessidade de compreender essas doenças para além do uso de remédios, destacando a importância do acompanhamento psicológico, de hábitos saudáveis e de um ambiente laboral mais humano e acolhedor.
De acordo com o médico psiquiatra Roberto Nichetti, o número de profissionais que buscam por remédios segue em crescimento. “Há uma tendência de aumento no uso de psicotrópicos entre profissionais ativos no mercado de trabalho”, observa.

Roberto Nichetti, médico psiquiatra

Fatores do aumento
O psiquiatra destaca que, de forma geral, os transtornos mentais afetam o rendimento laboral e psicossocial. “Estamos vivendo um panorama social em que o desempenho pessoal tem sido cada vez mais exigido pela sociedade e pelas próprias pessoas consigo mesmas”, salienta.
Além disso, ele aponta que a crescente difusão de informações sobre saúde mental tem contribuído para despertar o interesse das pessoas em buscar ajuda especializada. “A procura por profissionais da área vem, aos poucos, deixando de ser um tabu”, observa.

Medicamentos mais comuns
Nichetti comenta que os tratamentos medicamentosos mais prescritos são: “Os benzodiazepínicos ou drogas Z (englobam o Zolpidem, a Zopiclona e a Eszopiclona e agem no centro do cérebro provocando o sono imediato, por isso o paciente já deve estar deitado ao fazer uso da medicação), apesar de cada vez mais serem divulgadas informações sobre seus possíveis malefícios, ainda assim seguem sendo amplamente prescritos para tratar ansiedade e insônia”, expõe.

Remédio é sempre necessário?
O médico destaca a necessidade do uso de medicamentos em casos de transtornos mentais mais graves. “Quando existe o risco de suicídio, de descontrole comportamental ou um comprometimento grande da capacidade de trabalhar e estudar, medicamentos e terapêuticas biológicas (tratamentos que utilizam substâncias produzidas por organismos vivos), estão indicados”, orienta.
Já em casos mais leves ou moderados, algumas medidas não farmacológicas especialmente as psicoterapias são a melhor indicação. “Mudanças de ambiente, de hábitos e de estilo de vida também são importantes auxiliares na terapia”, esclarece.

Uso responsável
Consumo orientado de medicamentos é fundamental para garantir a eficácia do tratamento e evitar riscos à saúde. “Em primeiro lugar, devem ser indicados por um médico. Algumas fórmulas mais naturais e de uso tradicional também podem ser utilizadas de forma responsável por farmacêuticos”, afirma.
Além disso, o uso indevido pode comprometer o tratamento e favorecer o surgimento de problemas como resistência medicamentosa ou intoxicações. Por isso, é essencial que o paciente siga corretamente as orientações médicas, evite interromper o uso por conta própria e mantenha o acompanhamento profissional durante todo o processo.
A automedicação, muitas vezes decorrente de um autodiagnóstico equivocado, é uma prática desaconselhada e que pode trazer sérios riscos à saúde. O médico alerta que o uso de medicamentos sem orientação profissional pode provocar efeitos adversos, dependência e até agravamento de sintomas quando o diagnóstico não é preciso.
Segundo o especialista, o uso de ansiolíticos do tipo benzodiazepínicos e das chamadas drogas Z exige atenção redobrada. “Esses medicamentos podem causar sonolência diurna, diminuir reflexos e lentificar o raciocínio, comprometendo o desempenho e aumentando o risco de acidentes”, explica.
O médico também chama a atenção para os antidepressivos, que devem ser sempre administrados com acompanhamento profissional. “Essas substâncias podem provocar diversos efeitos colaterais, alguns graves em doses elevadas e, se utilizadas com base em um autodiagnóstico incorreto, podem até agravar os sintomas psiquiátricos”, alerta.

Medo do julgamento
Muitas pessoas reconhecem a necessidade de buscar ajuda, mas ainda enfrentam insegurança por medo dos julgamentos que cercam as questões de saúde mental. O médico explica que a acolhida e o diálogo são fundamentais para quebrar essas barreiras. “Uma das melhores formas de favorecer a aceitação de um problema é mostrar que, em uma consulta, a pessoa está livre para expressar seu sofrimento, sabendo que será escutada e compreendida. Nem o paciente nem o médico desejam um tratamento que prejudique a qualidade de vida”, destaca. Ele acrescenta que o paciente tem o direito de procurar outro profissional sempre que sentir que não foi devidamente compreendido.

Como saber se precisa de ajuda
A psicóloga Daniele Walczak explica que há sinais claros de quando um profissional está sobrecarregado emocionalmente. “Os principais indícios são o cansaço constante, acompanhado de tristeza, irritabilidade, desmotivação ou sensação de impotência diante das demandas ou da quantidade delas”, destaca.
Segundo ela, esses sintomas podem vir acompanhados de alterações no sono e no apetite, além de dificuldade para levantar da cama e da conhecida “bad do domingo à noite”, quando a simples ideia de começar uma nova semana já causa angústia.
Segundo a psicóloga, o ponto mais importante é identificar a raiz do problema. “Se a origem estiver no ambiente profissional, é essencial evitar que esses desgastes sejam ‘descontados’ nas pessoas próximas, como parceiros, filhos, pais ou amigos. Desabafar é diferente de descarregar frustrações”, ressalta.

Daniele Walczak, psicóloga

Como reduzir o estresse no trabalho
A psicóloga destaca que manter uma rotina saudável é um dos caminhos mais eficazes para cuidar da mente e do corpo. “Ter uma alimentação equilibrada, dormir ao menos sete horas por noite e praticar atividades físicas regularmente pode fazer toda a diferença. Lembrando: é melhor fazer um pouquinho do que nada”, orienta.
Ela também reforça a importância dos vínculos afetivos como fonte de apoio e equilíbrio. “Buscar ter tempo de qualidade com as pessoas mais importantes, família, amigos, parceiro ou parceira é fundamental para recarregar as energias e fortalecer o bem-estar emocional”, acrescenta.
Outro ponto essencial, segundo a psicóloga, é cultivar hobbies e momentos de prazer. “Seja passar um tempo ao ar livre, ler, jogar videogame, fazer palavras cruzadas, brincar com o animal de estimação ou cozinhar, o que importa é ter uma vida rica em experiências”, explica.
Ela alerta sobre a necessidade de estabelecer limites no ambiente profissional, especialmente para quem atua de forma remota. “O trabalho é apenas uma parte da vida, não pode ser toda a sua vida. É importante se desconectar totalmente após o expediente: nada de checar e-mails, responder mensagens ou atender ligações fora do horário, salvo em casos de urgência”, ressalta.
Leia a matéria completa no site do Semanário.