Os sepultadores Demodio Luiz da Silva Wagner e Glauber Salvaro vivem um ofício pouco lembrado, mas essencial. Responsáveis pelos cemitérios Santo Antão, São Roque e Central (Municipal), em Bento Gonçalves, sendo figuras que mantêm a ordem, a limpeza e o respeito em espaços que guardam a memória de tantas vidas. “Meu dia começa orientando os funcionários sobre o que deve ser feito: limpeza, manutenção, sepultamentos e, às vezes, exumações”, explica Wagner.
O ritmo de trabalho muda conforme o período do ano. “Às vésperas do Dia de Finados, o movimento aumenta muito. O cemitério parece uma cidade, pois tem muita gente trabalhando e visitando”, descreve. “Também realizamos tarefas de zeladoria, como pintura, cortes de grama, limpeza das calçadas, banheiros, entre outros. Nós temos que ter a determinação e consciência de que ali finaliza uma etapa de uma pessoa e inicia outra para a família que amou e respeitou durante a sua vida. O cemitério é grande e temos que estar sempre muito prestativos a todos que necessitam desse serviço, não importa quem seja, o trabalho e atendimento deve ser igual”, complementa Salvaro.

Apesar de ser o guardião de espaços de descanso, Wagner garante que o trabalho vai muito além da imagem sombria que muitos imaginam. “Nós não fazemos a manutenção dos túmulos, apenas limpamos as áreas ao redor. Em outubro de 2024, tivemos um problema elétrico no cemitério municipal, e todas as lâmpadas começaram a piscar. O pessoal me ligou dizendo que eram as almas revoltadas. Até postaram no YouTube!”, conta. Já Salvaro, acredita que seja algo psicológico. “Quando a mente não está tranquila, a pessoa mesmo cria espíritos e assombração”, diz.
Entre o cansaço físico e o peso emocional, Wagner fala sobre o equilíbrio que o trabalho exige. “É um serviço que requer preparo físico, porque os cemitérios são grandes, e mental também, porque convivemos com a tristeza das famílias. Em sepultamentos de amigos, preciso me concentrar para a emoção não me dominar”, confessa.
Já Salvaro comenta que casos de crianças o deixam mais sensível, pois tem dois filhos e o amor é incondicional. “Esse ano também tive que ajudar a fazer os documentos para encaminhar o sepultamento da minha avó por parte de mãe. Quando é um familiar lembramos muito de sua passagem e bons exemplos que essa pessoa nos deixou”, evidencia.

Quando questionado sobre possíveis melhorias, ele é direto: “Eu mudaria o tipo de material usado e investiria em máquinas que facilitassem o trabalho. Muita coisa ainda é manual”, destaca.
O contato com as famílias, segundo ele, é sempre respeitoso e discreto. “Durante o sepultamento, eu não costumo falar. Só respondo se alguém me pergunta algo. Cada um vive o luto de um jeito. É um momento que muitos não querem conversar, mas a maioria agradece pelo nosso trabalho”, relata. Salvaro acredita que o contato tem que ser o mais breve possível. “Para a família não ficar ali esperando e sofrendo por mais tempo. É preciso manter o respeito e lealdade com quem já viveu na nossa cidade, que teve mãe, sonhos e objetivos na sua vida”, frisa.
Há também o lado silencioso da memória. “Tem visitantes que vêm quase todos os dias, outros uma vez por mês. Muitos túmulos têm flores novas toda semana”, comenta.
Sobre a escolha pela profissão, Wagner é sincero: “Aceitei o trabalho como um desafio, e acho que estou cumprindo bem. É um ofício que me ensinou muito”, revela. Já Salvaro destaca que há pessoas fantásticas que respeitam, porém outras tratam com indiferença.
Wagner aprendeu convivendo diariamente com a morte que a vida é curta. “Temos que aproveitar essa nossa passagem aqui. Na exumação de uma pessoa, vejo que somos todos iguais, pobre ou rico, feio ou lindo, branco ou negro, só sobra os ossos, nunca vi nenhum caixão com gaveta, nunca encontrei jóias, só ossos e baratas, o espírito já está em outro lugar. Viva e deixe viver, não queira ser melhor que ninguém”, aconselha.
Para Wagner, a morte não é o fim, mas uma certeza que ensina. “No luto só ficam as lembranças do ente querido. O bonito do nosso trabalho é poder ajudar as pessoas nesses momentos difíceis”, revela.
Salvaro reitera que é preciso desfrutar cada segundo, lembrar dos momentos bons com os entes mais próximos e fazer o bem, não importa a quem. “O cara lá de cima te retorna tudo muito maior e melhor”, finaliza.