CRAS enfrenta desafios estruturais no combate à violência doméstica, mas aposta na conscientização para proteger vítimas
Mesmo com números ainda baixos em comparação a cidades maiores, a violência doméstica é uma realidade que preocupa o município de Cotiporã, na Serra Gaúcha. De acordo com dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), foram registrados nove casos em 2024 e, até o momento, cinco em 2025. O Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) trabalha no acolhimento, encaminhamento e na promoção de ações de conscientização da população.
A coordenadora do CRAS, Vanessa Pissaia, explica que o trabalho da equipe envolve acompanhamento social dos casos e os devidos encaminhamentos para os órgãos competentes, quando necessário. “Não há um protocolo específico de atendimento às vítimas, nem uma rede de proteção estruturada no município. Os casos são atendidos conforme a demanda e inseridos no SINAN, como preconiza o Ministério da Saúde”, detalha.
Segundo ela, a ausência de uma rede de proteção específica para mulheres vítimas de violência, que envolva Judiciário, segurança pública e saúde de forma articulada, representa um dos principais desafios do município. “Utilizamos os canais tradicionais, como o Ministério Público, a Delegacia de Polícia, o Disque 100 e o próprio CRAS. Mas não há serviços de plantão ou atendimento emergencial no município”, pontua Vanessa.
Apesar das limitações, o CRAS promove ações educativas e rodas de conversa em diferentes espaços da comunidade, como escolas e grupos de Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos (SCFV). “Realizamos atividades coletivas, reuniões e conferências que abordam não só a violência doméstica contra a mulher, mas também situações de violência entre os próprios alunos e no contexto comunitário”, afirma.
O pós-denúncia também faz parte do trabalho da assistência social. As vítimas e seus familiares podem receber acompanhamento psicológico e apoio social por meio do CRAS, ainda que o município não conte com um Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS), que atenderia a esses casos com maior estrutura.
Vanessa destaca que o silêncio ainda é um dos maiores obstáculos para combater a violência em Cotiporã. “A naturalização de comportamentos abusivos e a compreensão restrita de violência apenas como algo físico dificultam que muitas mulheres procurem ajuda. Muitas vezes, não se reconhece a violência psicológica, patrimonial ou financeira como algo grave”, alerta.
Além disso, o CRAS também atua em casos de agressão no ambiente escolar ou comunitário, sempre que a demanda surge. A ausência de estrutura e a necessidade de maior capacitação e entendimento por parte de toda a rede de atendimento seguem como entraves importantes.
Na avaliação da coordenadora, o trabalho de prevenção e conscientização é uma construção de longo prazo. “É um trabalho de persistência, que precisa ser contínuo e envolver toda a comunidade”, afirma. No entanto, ela admite que, até o momento, não há projetos previstos para a ampliação da rede de proteção ou criação de novos serviços especializados no município.