Município tem se destacado pelo seu patrimônio histórico, tanto material quanto imaterial. Entre casarões centenários, festas tradicionais e iniciativas de valorização da memória, a cidade busca manter viva a identidade construída por seus imigrantes e transmiti-la às novas gerações.
A secretária de Turismo e Cultura, Bruna Lemos Tres, destaca que o trabalho é guiado pela legislação municipal e por parcerias com universidades e órgãos de preservação. “O que a gente tem aqui no nosso município é a nossa lei orgânica e o plano de diretrizes gerais, incluindo a conservação de prédios e pavimentos. Além disso, contamos com o suporte da Universidade de Caxias do Sul (UCS), que em 2016 realizou um levantamento completo do nosso patrimônio, e também da instância de governança da Associação de Turismo da Serra Nordeste (Atuaserra), que nos auxilia com arquitetos e engenheiros especializados, seja da parte de empreendedores como outras demandas. Eles fazem um estudo mais a fundo. Realizam o levantamento e depois uma devolutiva, trazendo as diretrizes de como pode ser feito. Na lei orgânica, os prédios podem ter até quatro pavimentos”, explica.

Projetos em andamento
Atualmente, duas obras de destaque movimentam a cidade: a revitalização das praças centrais e a preservação da Igreja Matriz, símbolos da fé e da história local. “Arborização também é uma preocupação. A gente procura sempre fazer com que tudo fique dentro daquilo que foi construído por quem chegou antes de nós. Tudo tem uma história e um porquê”, afirma Bruna.
Ela destaca que foram feitas reuniões com a população. “Teve questionário para as pessoas responderem virtualmente, o que elas gostariam, de que forma, se tinha alguma história, ou peculiaridade que eles queriam estar expondo, desde os ipês da nossa avenida principal. Como alguém que disse que foi o seu familiar que plantou, e que gostaria que isso fosse preservado”, afirma, destacando que tudo é feito para ter um compilado de dados e informações para se construir o trabalho que está sendo feito.
A Casa da Cultura também é um espaço fundamental nesse processo. Preservada em sua estrutura original, o prédio abriga museu, biblioteca e anfiteatro. Sua exposição permanente é organizada por “tempos” da história, como o da fé, da casa em si, do trabalho e da comunicação, além de contar com um espaço itinerante que recebe mostras temáticas. Atualmente, está em cartaz a exposição sobre o feminismo e o papel da mulher na sociedade. “Queremos retratar mais para o final do ano a evolução da comunicação”, revela.

Segundo ela, há várias casas no entorno da Igreja e vários pavimentos, que são solicitados para o município, por protocolo, para o aporte de se fazer a reforma. “A gente faz um estudo junto com o pessoal da engenharia e da arquitetura para ver se pode ser restaurado ou se tem que ser feita a substituição. Sempre procuramos fazer isso também com levantamento fotográfico e justificativa, sempre para ter esse respaldo legal”, enfatiza.
Memória preservada em acervos
O município mantém ainda um cuidado especial com seu acervo de objetos, fotografias e documentos. Para isso, servidores passaram por cursos de capacitação em preservação. “Aprendemos desde como limpar e tratar peças de madeira até como manusear vidros e fotografias antigas. Hoje temos uma reserva técnica que permite o rodízio de peças no museu, garantindo sua conservação. Temos como receber doações da população, mas precisamos saber o que fazer com ela. No início tínhamos dificuldade com qual produto usar para manutenção, mas depois do curso aprendemos”, relata a secretária.
Patrimônio imaterial: festas e saberes
Se por um lado Cotiporã zela pela materialidade de sua história, por outro mantém viva a memória coletiva através de festas e tradições. A mais emblemática é a Festa em Vêneto, que celebra a herança italiana, e recentemente ganhou o reforço do Festival do Rocambole, criado após a comunidade eleger o doce como símbolo gastronômico do município. “Trabalhamos bastante com o pessoal aqui da nossa paróquia, onde o padre disse que tinha um desejo muito grande de que o rocambole fosse visto como uma identidade na nossa cidade. Fizemos uma pesquisa com a nossa comunidade, e teve quase que 100% da população sendo favorável. O destaque do 1º Festival foram os empreendedores locais, não havia ninguém que fosse de fora”, salienta Bruna.
Outros eventos também movimentam a agenda cultural, como o Rock in Vêneto, o Cultive Arte, o Natal in Vêneto, os rodeios, a Semana Farroupilha, a Feira do Livro e a Festa do Colono, Agricultor e Motorista, além deste ano estarem promovendo a primeira edição de festa de Ano-novo. Thomas Franco Tres, Coordenador de Turismo, também destaca a co-oficialização do talian como língua do município, que reforça a identidade dos descendentes de imigrantes italianos. Em 2026, Cotiporã sediará um grande encontro para celebrar a língua, que passará a integrar a grade curricular das escolas.
Desafios e perspectivas
Segundo Bruna, o maior desafio está na conscientização da população sobre a importância de preservar. “Muitas vezes é mais fácil derrubar e construir do zero. Mas quando mostramos que é possível manter as características originais, as pessoas entendem o valor da preservação”, ressalta, lembrando como é difícil a mão de obra também.
Leis de incentivo, como a Paulo Gustavo e a Aldir Blanc, também têm ajudado a financiar projetos. Parte dos recursos foi utilizada para a manutenção do anfiteatro municipal, cujo assoalho original foi restaurado e alguns artistas locais também foram beneficiados.
Para a secretária, o trabalho é contínuo e exige envolvimento da comunidade. “Temos o nosso Conselho da Cultura, que é bem atuante e o Conselho Municipal de Turismo (COMTUR) consegue auxiliar os empreendedores em reformas, com materiais e máquinas.
No entanto, a preservação é um trabalho de formiguinha, que só se sustenta com a participação popular. Temos orgulho de ver que Cotiporã é referência para outros municípios”, finaliza a secretária.