A agenda em Belém destaca o papel das cooperativas na viabilização de metas climáticas globais. As apresentações convergem para a tese de que o modelo cooperativista oferece a abrangência necessária para transformar acordos diplomáticos em ações concretas de inclusão financeira e responsabilidade agrícola
A participação do cooperativismo de crédito na COP30, realizada em Belém, marca um movimento estratégico para posicionar o setor como um viabilizador prático das metas climáticas globais. O Sicredi, instituição financeira cooperativa com presença nacional, utiliza o evento para demonstrar que os grandes acordos internacionais dependem, invariavelmente, de ações locais concretas para se tornarem realidade
Alexandre Barbosa, diretor executivo de Estratégia, Sustentabilidade, Administração e Finanças do Sicredi, aponta que o objetivo central da participação é evidenciar o cooperativismo de crédito como uma solução estratégica no enfrentamento dos desafios climáticos. Segundo o executivo, a instituição busca provar que a inclusão financeira e a responsabilidade ambiental caminham juntas. “No Sicredi, somos a única instituição financeira presente em mais de 200 municípios, realizando a inclusão às essas populações, ofertando uma robusta carteira de economia verde, aliando crédito e impacto positivo”, explica.
Para Barbosa, as cooperativas atuam fortalecendo comunidades locais ao mesmo tempo em que preservam o meio ambiente. O modelo de negócio apresentado em Belém é descrito como inclusivo e capaz de gerar impacto coletivo, acelerando a transição para uma economia de baixo carbono.

Presença na AgriZone
Um dos pontos centrais da agenda do Sicredi na conferência ocorre na AgriZone, espaço que reúne centenas de iniciativas sustentáveis. A instituição participa de painéis ao lado do BNDES e de outros sistemas de crédito, com foco no apoio à agricultura familiar e na agricultura regenerativa. “Também discutimos a importância de viabilizar soluções para a transição energética, com incentivos para aquisição de sistemas e equipamentos que permitam aos nossos associados conduzirem negócios ambientalmente responsáveis e socialmente justos”, afirma.
Barbosa destaca as parcerias com a OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), Natura e Ministério do Meio Ambiente, além da apresentação do Programa de Captações Sustentáveis e o case “Café Carbono Neutro”, da Cooperativa Sementes do Sul.
Inclusão e equidade
A intersecção entre clima e questões sociais também compõe a pauta do Sicredi, com ênfase no empreendedorismo feminino. Estudos utilizados pela instituição indicam que as mulheres estão entre os grupos com maior vulnerabilidade socioeconômica e menor capacidade de adaptação aos impactos das mudanças climáticas. “Nesse contexto, desde 2019, o Sicredi captou mais de R$10 bilhões junto a bancos multilaterais, agências de desenvolvimento da Europa e da Ásia, fundos de impacto e bancos comerciais nacionais e internacionais, com foco em crédito sustentável, 62% foram destinados à energia renovável (solar) e 19% ao apoio a mulheres empreendedoras”, ressalta.
Resposta às enchentes no RS
Um tema de relevância direta para o Rio Grande do Sul abordado no evento é a apresentação da ferramenta de Quantificação de Riscos Climáticos. O case baseia-se nas ações emergenciais realizadas durante as enchentes no estado e na estruturação de uma frente de Resiliência Climática.
Barbosa detalha que a governança específica para resiliência climática integra áreas de Riscos, Sustentabilidade, Seguros, Crédito e Finanças. A atuação se divide em três pilares: gestão de riscos com projeção de cenários; evolução em produtos de proteção aos associados; e quantificação das emissões de gases de efeito estufa financiadas. Em 2025, a instituição opera com cinco ferramentas de predição estratégica. Mais de 16 milhões de ativos são monitorados e 9,5 milhões de associados estão geolocalizados, permitindo uma inteligência de dados que viabiliza seguros e incentivos à produção com manejo adequado.
Perspectivas futuras
Ainda no âmbito técnico, o Sicredi participa, a convite do Pacto Global da ONU, da elaboração do Guia de Agricultura Regenerativa.
Para o período pós-COP30, a expectativa da instituição recai sobre a influência em políticas públicas e na expansão de financiamentos. Barbosa observa que o Sicredi está engajado na construção de diretrizes que ampliem o acesso ao crédito verde e incentivem práticas regenerativas. No contexto da “Década da Ação” (2020-2030), a instituição busca estabelecer conexões com governos e organismos multilaterais para consolidar sua atuação como referência internacional em finanças sustentáveis, projetando um período intenso de desdobramentos para transformar as conversas de Belém em operações de crédito efetivas na ponta. “Esse movimento não termina na COP30. Nosso objetivo é claro: ser um agente protagonista na viabilização e destinação de crédito para soluções sustentáveis, fortalecendo a transição para uma economia de baixo carbono”, finaliza.

Viticultura assume protagonismo no debate climático
A presença da Cooperativa Vinícola Aurora na COP30 consolida a posição da Serra Gaúcha como um polo de referência em agricultura sustentável. Em um cenário onde os debates globais se voltam para a mitigação dos impactos ambientais, a experiência local de manejo vitícola demonstra como práticas tradicionais aliadas à tecnologia podem oferecer respostas concretas aos desafios do aquecimento global. O gerente Agrícola da cooperativa, Mauricio Bonafé, detalha que a viticultura, atividade intrinsecamente dependente do equilíbrio entre solo, clima e recursos hídricos, encontra-se na linha de frente das discussões ambientais.
Para Bonafé, as ações desenvolvidas na região dialogam diretamente com as pautas levantadas na conferência internacional. Os eventos climáticos extremos registrados em maio de 2025, que afetaram severamente o Rio Grande do Sul, servem como um catalisador para essa transformação. “ Eles evidenciaram a urgência de acelerar a transição para uma viticultura ainda mais resiliente. A viticultura sustentável não é apenas uma escolha técnica, mas uma necessidade para garantir a continuidade da produção e a segurança das famílias que vivem dela”, avalia Bonafé. O gestor reforça que, no caso da Aurora, esse compromisso ganha escala significativa, abrangendo cerca de 1.100 famílias cooperadas distribuídas em 11 municípios, operando majoritariamente em pequenas e médias propriedades. A transição para uma viticultura resiliente deixa de ser apenas uma meta corporativa para se tornar uma estratégia de sobrevivência e manutenção econômica do setor.

Modelo cooperativista
Durante a passagem pela Green Zone da COP30, a apresentação da cooperativa gerou repercussão entre pesquisadores, autoridades e observadores internacionais. O foco da exposição reside na demonstração de que o modelo cooperativista, que integra ciência, gestão compartilhada e suporte técnico contínuo, representa uma resposta madura aos desafios climáticos contemporâneos. A estratégia apresentada alinha-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), reforçando o papel da agricultura familiar como protagonista em soluções ambientais. “A participação da Aurora contribui para consolidar o Brasil como um país capaz de unir produtividade, pesquisa e responsabilidade ambiental”, pontua Bonafé.
Segundo ele, o público presente percebe a consistência da atuação da vinícola ao constatar que os programas apresentados são conduzidos há mais de uma década, fugindo de soluções imediatistas ou superficiais. “A apresentação da cooperativa gerou um impacto significativo entre pesquisadores, autoridades e participantes internacionais. O foco foi demonstrar que é possível conciliar produtividade, qualidade enológica e preservação ambiental. Apresentamos programas que conduzimos há mais de uma década, e isso fez com que o público percebesse a consistência e a seriedade da nossa atuação. O destaque ficou para a abordagem prática: manejo do solo, redução do uso de insumos e tecnologias aplicadas diretamente no vinhedo, elementos que mostraram um modelo replicável em outras regiões vitícolas”, complementa.
Avanços técnicos
Um dos pontos centrais da participação da Aurora no evento diz respeito aos resultados científicos obtidos no campo. A cooperativa apresenta dados que comprovam a viabilidade de conciliar produtividade, qualidade enológica e preservação ambiental. Entre os indicadores mais relevantes expostos na conferência está a redução expressiva no uso de agroquímicos. Graças ao monitoramento climático, ao manejo integrado e à utilização de equipamentos de maior precisão, registra-se uma diminuição de até cinco vezes no número de aplicações de defensivos nos vinhedos monitorados.
Além da redução química, Bonafé elenca outras tecnologias e práticas de manejo que despertaram o interesse da comunidade internacional. O uso de drones para pulverização, que aumenta a eficiência e diminui desperdícios, e a implementação de sistemas de irrigação localizada, fundamentais para enfrentar períodos de estiagem prolongada, são exemplos da tecnificação do campo. O gerente destaca ainda a importância do manejo do solo, com a manutenção de cobertura vegetal para reduzir a erosão e preservar a umidade, bem como o cultivo em patamares, técnica que reduz a velocidade de escoamento da água e amplia a infiltração no solo. “Esses resultados reforçam que é possível produzir uvas de qualidade, respeitando o ritmo da natureza e reduzindo impactos ambientais”, afirma.
Cooperação internacional e próximos passos
A COP30 serviu também como plataforma para o estabelecimento de conexões estratégicas. A cooperativa busca ampliar o intercâmbio com instituições de diversos países para desenvolver projetos conjuntos e compartilhar tecnologias de manejo sustentável. A expectativa de Bonafé é que essas parcerias fortaleçam as redes internacionais de pesquisa, focadas especialmente na adaptação climática em pequenas propriedades.
Encerrada a participação no evento, a Aurora volta suas atenções para a aplicação prática das experiências adquiridas. O planejamento prevê um diagnóstico aprofundado para a redução das emissões de gases de efeito estufa e a adoção de equipamentos de menor impacto ambiental, como a substituição gradual por maquinário elétrico.
O gerente Agrícola adianta que haverá uma ampliação das práticas sustentáveis, com atenção especial às áreas próximas a encostas, locais mais vulneráveis a deslizamentos e erosão. “A cooperativa reforça que a sustentabilidade é um movimento contínuo, apoiado em ciência, gestão eficiente e no compromisso de manter as famílias no campo”, finaliza Bonafé.