Ter um animal de estimação em casa é, para muitas famílias, quase um sonho realizado. Para crianças pequenas, a presença de um cachorro, gato ou até mesmo animais menores, como coelhos e peixes, pode representar não apenas companhia, mas também lições importantes sobre cuidado, afeto e responsabilidade. No entanto, especialistas alertam que essa convivência exige atenção: nem sempre a relação é tão simples quanto parece, e há cuidados fundamentais para garantir a segurança e o bem-estar de todos dentro de casa.

Desenvolvimento e aprendizado
De acordo com a médica pediatra Graciele Schermack de Oliveira, o contato das crianças com os animais desde cedo proporciona inúmeros benefícios para o desenvolvimento. “Sou totalmente a favor de que elas tenham essa vivência, seja com cães, gatos ou até mesmo com animais de fazenda. Essa interação é maravilhosa e traz aprendizados valiosos”, destaca.
A médica explica que o convívio contribui tanto para o aspecto cognitivo quanto para o prático. “A criança consegue ter diversas experiências com o animal: perceber que precisa dar comidinha, limpar o local das necessidades do cachorro ou levá-lo para passear. Tudo isso contribui para o aprendizado”, diz.

Graciele Schermack de Oliveira, médica pediatra

Vínculo afetivo e percepção do outro
Além dos cuidados práticos, o vínculo afetivo também se fortalece. “A criança começa a perceber, por exemplo, que o cachorro ou o gatinho, às vezes, não querem carinho naquele momento. Essa percepção de como o outro está se sentindo é muito importante”, ressalta Graciele.

Responsabilidades da família
A pediatra reforça que, junto com os benefícios, há responsabilidades. “Não posso ter um cachorro em um apartamento e deixá-lo sozinho o dia inteiro, porque ele tem uma necessidade maior de convívio. Esse é um detalhe fundamental”, alerta.
O cuidado também inclui saúde preventiva. “O pet deve ser vacinado e ter visitas regulares ao veterinário, assim como a criança vai ao pediatra, não apenas quando está doente”, acrescenta.

Higiene e equilíbrio
Outro ponto essencial é a higiene do ambiente. “Se o gato tem caixinha de areia dentro do apartamento, é preciso limpá-la adequadamente e evitar que a criança tenha acesso, principalmente os bebês. Também é importante retirar o excesso de pelos com aspirador ou pano úmido”, orienta a pediatra.
No entanto, Graciele ressalta que o equilíbrio deve ser mantido. “O convívio com os animais ajuda o sistema imunológico da criança a trabalhar. É importante limpar adequadamente, mas sem exageros, porque o excesso de produtos também pode causar doenças. A vida é feita de equilíbrio”, reforça.

Idade e condições de saúde
A médica alerta que a idade da criança deve ser levada em consideração. “Não adianta dar um pet para uma criança de um ano, porque ela não terá noção das responsabilidades. Nesses casos, os pais são totalmente responsáveis pelo animal”, afirma.
Sobre alergias, a especialista orienta que cada caso seja avaliado. “Algumas crianças podem ter contatos eventuais, como com o bichinho da avó ou de um amigo. Já aquelas com alergias graves, sim, precisam de afastamento, definido com o alergista”, explica.
Atenção redobrada e segurança
Apesar dos benefícios, a pediatra lembra que acidentes podem acontecer. “Sempre é importante lembrar que o animal é um animal. O que acontece com frequência são acidentes porque a criança não estava sendo vigiada. Quando é muito pequena, pode chorar de repente ou puxar o rabo do bichinho sem perceber, e o animal pode reagir instintivamente”, alerta.
Por isso, a supervisão é indispensável. “Não é prudente deixar crianças menores de quatro ou cinco anos sem vigilância constante, mesmo com animais bastante domesticados”, completa.

Uma rotina mais ativa e saudável
Além da segurança, há ganhos para o estilo de vida das crianças. “É muito legal ver o desenvolvimento delas, porque se tornam mais ativas. O pet ajuda a diminuir o tempo de tela, incentiva a sair para passear, brincar fora de casa e correr atrás do cachorro. Há benefícios cognitivos, físicos e emocionais. É um vínculo muito especial, mas que deve vir sempre acompanhado de responsabilidade”, explica.

Limites e respeito
Ensinar a respeitar os limites do animal também é essencial. Segundo a pediatra, os animais podem ensinar noções de comunidade e respeito. “Muitas vezes, esses bichinhos ensinam a criança a perceber o outro. Ela aprende com os pais, avós e irmãos, mas também com os animais. Por exemplo, quando o cachorrinho está cansado e quer dormir, a criança entende que não é hora de carinho. Essa percepção contribui muito para o desenvolvimento”, explica.

Produtos e riscos em casa
Outro ponto de atenção envolve os produtos de limpeza e higiene. “O que mais preocupa o pediatra é o uso excessivo, que pode causar alergias respiratórias, mas principalmente o armazenamento inadequado. Isso vale não só para produtos de pets, mas para os de limpeza em geral”, alerta.
A especialista lembra que muitas embalagens chamam a atenção das crianças. “É fundamental guardar shampoos, perfumes para animais e desinfetantes fora do alcance dos pequenos. Muitas vezes, a embalagem é colorida e a criança confunde com algo atrativo e pode ingerir”, explica.
Além disso, é preciso redobrar a atenção com remédios, comida de pets e objetos espalhados. “Noventa por cento dos acidentes na infância, principalmente abaixo dos 4 anos, acontecem dentro de casa. O bebê pode pegar no chão a comida do animal ou brincar com o objeto que ele lambeu. Por isso, a higienização deve ser mantida, sem exageros”, destaca.

A chegada do bebê e a adaptação dos animais
Quando um bebê nasce, a rotina da casa muda e o pet também sente. “O animal estranha porque muda o cheiro e a rotina do ambiente. É importante apresentar o bebê com cuidado. Não precisa colocar no chão para o animal cheirar ou lamber, mas é necessário mostrar e permitir a aproximação gradual”, orienta a pediatra.
As reações podem variar. “Alguns pets acabam ‘adotando’ o bebê, criando uma relação de afeto imediato. Outros, no entanto, podem reagir com aversão, se afastar ou até apresentar comportamentos agressivos. Por isso, é fundamental que a família observe constantemente o comportamento do animal e vá moldando a dinâmica da casa de acordo com as necessidades”, conclui Graciele.