O Rio Grande do Sul está sob um novo alerta climático: o fenômeno La Niña está oficialmente em formação no Oceano Pacífico Equatorial, com previsão de atuar durante a próxima estação. Após um período de chuvas e enchentes extremas, o estado caminha para um cenário de inversão que, historicamente, se traduz em chuvas abaixo da média e risco de estiagem para grande parte do território gaúcho durante o verão 2025/2026.
Com o monitoramento da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) e do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) indicando o fortalecimento do resfriamento das águas, a atenção se volta para os impactos na agricultura (que entra na fase crítica de plantio) e para o manejo da água. Embora as projeções atuais sugiram uma intensidade de La Niña mais fraca do que a vista em anos recentes, a sua presença exige um planejamento estratégico imediato para evitar prejuízos na safra e problemas de abastecimento.
Colheita da uva
Além de grandes culturas como soja e milho, o fenômeno La Niña acende um sinal de alerta específico para a tradicional colheita da uva. Embora o período de menor precipitação possa, em alguns casos, beneficiar a concentração de açúcar e a qualidade da fruta para a produção de vinhos finos, a ameaça da estiagem prolongada e a irregularidade térmica podem ser prejudiciais se não houver um manejo hídrico adequado.
De acordo com Cedenir Postal, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul, Pinto Bandeira e Santa Tereza, a cultura da uva, ao contrário de outras, pode, inicialmente, beneficiar-se das condições trazidas pelo fenômeno.“Claro que se os períodos se estenderem por muito tempo, acaba prejudicando, mas as chuvas regulares ou com menos intensidade acabam favorecendo”, menciona.
Ele destaca que as estimativas de chuvas na região, de setembro até agora, têm se mantido dentro da normalidade. Essa observação é um alívio temporário para os agricultores, incluindo os vitivinicultores. “E esperamos que continue da mesma forma”, afirma.
Segundo o presidente do Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS), Luciano Rebellatto, a estimativa do fenômeno neste ano será de intensidade média a fraca, mas não de escassez hídrica. “Isso é muito bom quando a gente fala de viticultura, porque a redução de água na videira, significa uma intensidade maior na concentração de sabores, aromas, enfim, toda essa complexidade que a uva tem, que depois é transferida para os vinhos e não ao ponto de causar prejuízos na questão de qualidade, peso”, enfatiza.
Rebellatto conta que, graças ao fato das chuvas estarem dentro da média até agora, a brotação está vindo de forma uniforme nos vinhedos. “Uma grande quantidade de cachos, de brotos, automaticamente a floração também, seria com volumes maiores, e não tivemos prejuízos causados durante esse ciclo até então”, observa.
Ele conta que o que atrapalhou um pouco foi o frio registrado nas últimas semanas. “Prejudicaram algumas variedades, mas foi muito pontual”, observa Rebellatto. Ele menciona também que as variedades de uvas têm impactos diferentes nesses casos. “Tem uma diferença entre as uvas para suco, as uvas de meia e as uvas de vinho. Quando a gente fala aqui de uvas destinadas para vinho, como as vitis viníferas, cabernet, essas cabernets do vinhão, a merluza é um pouquinho mais precoce, mas essas variedades precisam de maior tempo de sol para que tenha uma maturação plena, ou seja, elas demoram mais tempo. Então, automaticamente a falta de chuva, ou sua redução vai fazer com que essa maturação aconteça de forma mais plena, que venha a concentrar maiores sabores, mais cor, mais corpo depois transferido para os vinhos”, destaca.
O suco, diferentemente do vinho, não há essa necessidade. “As uvas de suco têm um ciclo mais curto de maturação. Elas podem ser colhidas um pouco antes, ou a sua maturação acontece de uma forma mais rápida”, explica.
Já as uvas de espumante, elas têm que preservar a acidez, com isso, elas têm um período de maturação e uma colheita um pouco antes. “Então sim, há uma diferença entre as uvas de suco, as uvas de vinho e as uvas de mesa. E o clima influencia diretamente na sua maturação”, destaca.
Safra 2025/2026
O otimismo na vitivinicultura não se restringe apenas aos efeitos do La Niña, mas também às projeções de volume para a próxima colheita. Rebellatto antecipa que a safra de 2026 será superior à anterior, indicando uma recuperação produtiva para o setor. “A de 2025 não tem dados ainda oficiais, mas temos os preliminares de 750 milhões de quilos e a 2026 um pouco maior, talvez chegando aos 800 milhões”, conta.
Recomendações e crise
Postal afirma que quando há previsão de La Niña é importante o produtor estar preparado para possíveis situações de emergência. “Quanto a orientações que a gente dá, já tem o que é conhecido, usar cobertura verde, quem tem possibilidade de fazer investimentos em irrigação, mas não é quando a estiagem está batendo na porta, que se vai utilizar, tem que ter todo um planejamento, tem que armazenar água, e não é uma coisa simples, mas principalmente fazer cobertura de solo, isso acaba ajudando para conservar a umidade”, menciona.
Ele destaca que, quando há um período muito longo de estiagem, já é normal recorrer-se a recursos públicos. “Iremos junto aos governos municipal, estadual e federal, em conjunto com as outras entidades, buscar, que é o primeiro passo, se necessário forem, os decretos de emergência, para conseguir acessar todas as políticas de auxílio para minimizar os impactos”, determina.
Apesar das incertezas impostas pelo clima, Postal esclarece que a maior angústia que paira sobre os produtores rurais gaúchos, incluindo os vitivinicultores, não é o La Niña em si, mas sim a falta de subvenção do seguro agrícola por parte do governo. “Os agricultores contrataram o seguro, como de costume, todos os anos, pagaram o seu percentual, que até então era de 60%, e a parte do governo foi um verdadeiro calote nos agricultores, não honrou com o seu compromisso, como vinha ao longo dos anos, e não está pagando essa parte”, determina.
Essa falha no repasse deixa os produtores em situação de vulnerabilidade, principalmente perante o granizo, um dos eventos climáticos que mais afeta a vitivinicultura. “O agricultor, para continuar segurando a sua produção, principalmente do principal evento que nós temos aqui, que prejudica muito, que é o granizo, acaba não tendo essa cobertura se ele não complementar com os 40%”, cobra o presidente.
Outras culturas
Embora a vitivinicultura demonstre resiliência inicial ao La Niña, Postal reitera a preocupação com o restante da cadeia produtiva, especialmente as culturas mais sensíveis à falta de chuva. “Apesar de não ser tão significativo, temos a cultura do pêssego, que é bastante sensível à falta de chuva, a ameixa, os citros acabam prejudicando se for um período tão prolongado, as culturas anuais de milho, feijão, as hortaliças, se não tiver irrigação, acaba sendo um problema que é ocasionado pelo fenômeno La Niña”, finaliza.