De acordo com a psicóloga Marli Mazzola, cada pessoa possui horários e folgas diferentes, por isso é importante aproveitar o descanso no momento em que ele acontece.“Nem todos têm a folga concentrada no final de semana ou dispõem de dois dias seguidos para descansar. Tem pessoas que fazem jornadas de trabalho diferentes, e o descanso é, quando está todo mundo trabalhando”, observa.
Marli explica que, para enfrentar uma nova semana de trabalho de forma saudável, mais do que “recarregar as energias”, é essencial permitir-se uma pausa genuína. “Talvez não seja recarregar, mas sim pausar. Essa pausa não pode ser algo imposto ou determinado por outra pessoa, pois cada indivíduo tem suas próprias necessidades e seu próprio ritmo de descanso”, observa.
A psicóloga ressalta que a maioria das pessoas já vive com uma rotina extremamente regrada, o que torna ainda mais difícil encontrar momentos verdadeiramente livres. “Temos o horário do despertador, o horário de início do trabalho, o horário para entregar uma tarefa, finalizar uma matéria… Tudo é muito cronometrado. Até o intervalo para o lanche, em jornadas fixas, é determinado”, ressalta.
Por isso, esse momento de pausa precisa ser desconectado das obrigações e livre de cobranças. Pode significar dormir um pouco mais, aproveitar um hobby, caminhar ao ar livre ou simplesmente ficar sem fazer nada, o que, segundo Marli, também é saudável. “O corpo e a mente precisam de espaço para desacelerar, e esse tempo não deve ser preenchido por compromissos ou atividades que mantenham o mesmo ritmo acelerado do dia a dia”, sugere.

Rotina automatizada e sensação de vazio
Encontrar tempo para descansar de forma consciente é um desafio, mesmo em folgas ou finais de semana. A rotina automatizada pode trazer vantagens, como criar hábitos e dar segurança ao dia a dia, mas também tem um lado negativo. “Ela nos retira da pausa, da individualidade, da subjetividade de cada um. Muitas pessoas têm dificuldade de lidar com a liberdade e a possibilidade de escolha, porque estão no automático. Quando param, surge uma sensação de equívoco”, observa.
Muitas pessoas relatam sentir um vazio ou uma sensação de solidão quando estão fora do trabalho, como se precisassem preencher algo em suas vidas. “Alguns tentam suprir essa falta com excesso de sono, refeições prazerosas, atividades físicas intensas ou uma agenda cheia de compromissos nos finais de semana”, aponta a psicóloga.
Um fenômeno atual é a tentativa de preencher o vazio emocional por meio das redes sociais. “Muitas pessoas recorrem ao Facebook, Instagram, TikTok ou outras plataformas como se fossem uma máscara, uma falsa interação. O acesso constante estimula o que a psicanálise chama de pulsão escópica, o impulso de olhar. O risco é se perder na comparação, medindo a própria vida com a de outros que exibem viagens, festas e aparências perfeitas”, acrescenta.
Para Marli, as redes sociais funcionam como uma “prateleira de venda de felicidade”. “Psicanaliticamente, é como se a modernidade tivesse criado uma vitrine de soluções para o vazio emocional. Muitas pessoas transformam a própria dor e sensação de falta em forma de ganhar a vida. A mensagem é clara: combinar bem os looks ou investir na maquiagem certa promete atrair olhares, melhorar a apresentação em uma entrevista de emprego ou aumentar a autoestima”, exemplifica.
Mesmo quando se conquista aquilo que parecia faltar, a sensação de vazio não desaparece. “Na minha linha da psicanálise, sabemos que, ao atingir algo que idealizadamente nos faltava, surge outra falta. A resposta não está ali. A busca por preenchimento externo dificilmente traz satisfação duradoura”, explica a especialista.
Presente e contato humano
Marli alerta para os efeitos do uso constante das redes sociais na percepção do próprio tempo e do momento presente. “Muitas vezes passamos uma hora inteira no Instagram sem perceber. Em vez de ficar em silêncio, observando as cores do céu ou do ambiente ao redor, nos forçamos a nos ‘carregar’, a buscar estímulos externos, sem permitir uma verdadeira pausa”, alerta a psicóloga.
Ela aponta que, após horas de interações online, muitas pessoas não se conectam com nada real. “Não abraçaram alguém, não tocaram na pele, não conversaram de verdade. Essas experiências virtuais não substituem o contato humano e a presença no momento”, aponta.
Ao refletir sobre as relações superficiais do dia a dia, Marli chama atenção para como, em certos encontros, deixamos de nos conectar verdadeiramente com o outro. “Não carregou nada do singular de cada um, apenas serviu de depósito, como sujeito ali dessas projeções. Não se foi acessado em nada, na falta que é singular de cada um”, alega.
Como as pessoas preenchem o vazio
A psicóloga observa que cada pessoa lida com os vazios internos de maneiras distintas. “Algumas pessoas preenchem com religião e encontram nisso um papel importante. Há quem se dedique de forma intensa ao trabalho, tornando-se extremamente comprometido com os requisitos de reconhecimento social, chegando a serem consideradas bem-sucedidas… ou, por outro lado, a enlouquecer. Outras ainda escolhem a atividade física como forma de preenchimento, muitas vezes de maneira intensa”, menciona.
Ela ressalta que não existe uma fórmula única de equilíbrio e autocuidado. “É importante usar o bom senso para saber quanto dormir, evitando aquela sensação parecida com um jet lag (distúrbio temporário do sono causado por viagens rápidas através de diferentes fusos horários). Também é preciso atenção à alimentação, para não sofrer consequências físicas. O mesmo vale para qualquer excesso, de sono, comida, atividade física ou redes sociais. Qualquer coisa em excesso faz mal”, salienta.
A pressão social pela felicidade
Muitas pessoas sentem-se pressionadas a estar felizes o tempo todo. “Existe uma premissa social de que precisamos estar bem, felizes, bem vestidos, bem conosco. Há uma obrigação implícita de sentir felicidade o tempo todo, inclusive nos momentos de descanso. Mas talvez, nesses momentos, o que realmente precisamos seja o contrário: descarregar e não sentir a obrigação de carregar”, esclarece Marli.
Dicas para aproveitar o tempo livre
Marli observa movimentos interessantes em atividades físicas que promovem interação e bem-estar: “Beach Tênis, Pádel… estão gerando possibilidades de revezamento e de movimentar o corpo, fazendo a circulação dos fluidos acontecer, oxigenando e se conectando verdadeiramente com as duplas que jogam juntas”, orienta.
Ela também reforça o valor de atividades simples e gratuitas, em contato com a natureza: “Cafés, passeios ao ar livre e outras atividades na natureza são ótimas oportunidades. Caminhar em um parque, levar o pet a uma praça, permitir que ele interaja com outros animais e que os donos também se conectem, tudo isso são formas de interação mais vivas e que não têm custo”, conclui.
