Em um mundo cada vez mais conectado e repleto de estímulos digitais, um desafio silencioso, porém significativo, vem ganhando destaque nas salas de aula: a crescente dificuldade de concentração das crianças. Educadores e pais têm observado com preocupação a inquietude, a dispersão e a dificuldade de manter o foco em tarefas que exigem atenção prolongada, impactando diretamente o processo de aprendizagem e o desenvolvimento acadêmico. Fenômeno multifacetado, essa “epidemia de desatenção” levanta questões importantes sobre o estilo de vida contemporâneo, o impacto das telas e a necessidade de repensar abordagens pedagógicas para resgatar a capacidade inata das crianças de explorar, aprender e absorver conhecimento em um ambiente de sala de aula.
De acordo com Lauren Copat Poletto, Pedagoga e psicopedagoga, a falta de concentração é caracterizada pela diminuição do tempo de foco em atividades. “Nas propostas, observa-se dificuldades em acompanhar as aulas com atrasos constantes, problemas para seguir orientações, procrastinação das tarefas, entre outros comportamentos e sinais que afetam seu desempenho escolar, social e emocional. Quando esses sinais forem frequentes, persistentes e afetarem o desempenho escolar ou a vida social da criança, é indicado buscar avaliação com um profissional adequado”, pontua.

Lauren Copat Poletto, Pedagoga e psicopedagoga

O que contribui para a desconcentração
O consumo de telas é um dos principais fatores contribuintes da desconcentração. “O uso de telas no período de desenvolvimento das crianças impacta todo o processo de aquisição de suas aprendizagens”, esclarece. Diante disso, ela pontua três tipos:

  • Primeiro: o pensamento rápido exigido pelas telas engessa os processos cognitivos da criança, diminuindo sua capacidade de atenção. Isso reduz a tolerância à frustração e à espera, dificultando o envolvimento em tarefas que pedem esforço prolongado;
  • Segundo: a inclusão desses estímulos na rotina infantil reduz o tempo de leitura, comunicação e desenvolvimento da linguagem. Como diz Daniel J. Siegel e Tina Payne Bryson em “O Cérebro da Criança”: “O que molda o nosso cérebro? A experiência.” Assim, as telas não devem substituir as experiências essenciais para as crianças;
  • Terceiro: há também uma sobrecarga sensorial, um excesso de estímulos digitais em pouco tempo que hiperestimula o cérebro e pode prejudicar a concentração na escola.
    Além desses fatores, a especialista alerta que cada criança é única e, com isso, tem seus desenvolvimentos, podendo ter vários fatores presentes na desconcentração. “Fatores de cunho emocional, tudo aquilo que a criança carrega consigo (mudanças drásticas, conflitos, ansiedades, excesso de cobrança ou ausência de apoio), e uma rotina desregulada, são alguns exemplos”, diz. “Isso porque as crianças precisam de rotina, vivenciar experiências para desenvolver as habilidades para cada etapa e tempo de descanso de qualidade para o aprendizado se consolidar diariamente”, comenta Lauren.
    A criança, assim como um adulto, tem sentimentos e emoções, o que pode influenciar no seu desenvolvimento. “Para as crianças, conflitos emocionais podem gerar redução da atenção e do processo de memorização, fadiga mental e pensamentos intrusivos. Essas preocupações ocupam a cabeça da criança, não permitindo sua aprendizagem. Nesses casos, é importante observar as mudanças comportamentais, possíveis quedas no desempenho escolar e até mesmo, sintomas psicossomáticos”, alerta.

Papel das escolas
Em um cenário educacional que exige cada vez mais foco e engajamento, a escola desempenha um papel crucial no combate à desatenção das crianças. Longe de ser apenas um espaço de transmissão de conteúdo, a instituição de ensino tem a capacidade de atuar ativamente na identificação, no apoio e na criação de estratégias que ajudem os alunos a desenvolverem sua capacidade de concentração.
Para Lauren, as instituições de ensino estão cada vez mais preocupadas e buscando a melhor forma de atender às mudanças. “Dentro da sala de aula, boas estratégias para atender às questões de foco e atenção podem ser a previsibilidade, ou seja, explanar para a turma a rotina da aula, metodologias que tenham a participação ativa dos alunos e uso de recursos variados, o que desperta maior interesse e atenção”, menciona.

Papel da família
Se a escola é um pilar no desenvolvimento da concentração das crianças, a família é a base fundamental. É no ambiente doméstico que os primeiros hábitos são formados, as rotinas são estabelecidas e o suporte emocional é construído, elementos cruciais para a capacidade de atenção e o desempenho escolar. O lar, portanto, não é apenas um refúgio, mas um verdadeiro laboratório onde a criança desenvolve as ferramentas necessárias para focar e aprender.
É no lar que se constroem os alicerces para o aprendizado e a concentração. Como ressalta a especialista, “o ambiente familiar é o primeiro espaço onde a criança aprende hábitos, valores, autorregulação e estratégias de convivência, por exemplo, e todas elas vão reverberar no ambiente escolar”, diz. Por isso, a adoção de práticas simples, mas eficazes, pode ser fundamental. “Manter uma rotina diária estruturada, com pequenas responsabilidades e tarefas, bem como o estímulo da autonomia nas suas realizações, impacta positivamente no processo de desenvolvimento da criança”, conclui. Um lar organizado e que incentiva a participação ativa da criança é um poderoso aliado para o sucesso educacional e para o desenvolvimento de habilidades essenciais para a vida.