A VIDA VIVIDA

Viemos embora do Barracão, meu pai vendeu a casa que havia construído e comprou uma loja de artigos masculinos de grife e nos fundos dela instalou a alfaiataria. O prédio em que a loja estava instalada era alugado da família Zortéa. A casa em que fomos morar, na verdade um apartamento, era da família Calefi. Era pequena, sala, cozinha, quarto de casal, um quarto de solteiro, um banheiro coletivo e externo. Com a mobília trazida, tudo ficou muito apertadinho. Na sala, a mesa com seis cadeiras e a cristaleira de minha mãe ocupavam todo o espaço. A cozinha era pequena e precária, tinha o básico mínimo. A cama de casal e o guarda roupa ocupavam o quarto todo, era pequeno como o “biquini da Ana Maria”. No meu quarto, só cabia a cama de tamanho P, no colchão, eu e irmão meu nos revezávamos, um dia sim, outro não, um de nós dormia no chão, guarda roupa não tinha, mas pra que, se minhas roupas cabiam dentro de uma sacola. Uma calça comprida, uma curta, um chinelo de dedo, que “espuçava” e cuja alça vivia fora do buraco, eu tinha uma bicicleta, acho que ficou guardada no porão da casa dos Zortéa. Ambientado, logo, logo eu me senti como um passarinho fora da gaiola, livre para voar.

O QUE FAZER NA CITY?

Logo nos primeiros dias eu estava exultante, minhas dores de ouvido desapareceram, acho que a umidade – muito verde e morar na beira do rio – era determinante para meu sofrimento com o problema. Os meus pensamentos de um piá de 12 anos, tomaram corpo: o que fazer por aqui? Como vou ter o dinheirinho que eu acumulava no Natal lá no Barracão? O que vou fazer sem meus amigos de lá? O que vão dizer dos meus pés, que se eu fosse índio meu codinome seria PÉ GRANDE, eram grandes, número 41 e inchados porque as formigas gostavam deles. Bem, vou contar a vocês o que eu lembro de ter feito no período dos 12 aos 18 anos, sem precisar datas com ordem cronológica, pois faz muito tempo, difícil precisar. Divido então os acontecimentos por Capítulos.

A ESCOLA MARISTA

A logística melhorou, o Colégio ficava a duas quadras de casa. Mas a minha cabeça não simpatizava muito com o estudo, eu tinha dificuldade de “ENTENDER O QUE SE PASSAVA PELA CABEÇA DOS PROFESSORES”. Como se isso não bastasse, ninguém em casa me ensinava, ou cobrava, fazer os temas. Somem a isso o fato de eu ser tímido, sim eu era uma rara espécie de sagitariano tímido, certinho, educadinho, muito propenso a bullyings, punições e castigos. Como eu usava uniformes de segunda mão, as mangas eram curtas então eu mantinha os braços embaixo dos bancos, quando os colegas jogavam bolinhas de papel uns nos outros. Quem o Marista entendia ser um dos atiradores? O que estava escondendo as mãos. Por não fazer os temas, eu ia de castigo atrás do quadro negro; por não jogar papeizinhos eu levava reguadas nas mãos, mais doloridas que as varas de marmelo. E, de vez em quando, quase sempre, me colocavam depois da aula, fim de tarde contra a parede e obrigado a decorar estrofes de poesias. As preferidas dos Maristas era o NAVIO NEGREIRO de Castro Alves e MEUS 8 ANOS, de Machado de Assis. “Oh Deus onde estás há dois mil anos te mandei meu grito que embalde então corre o infinito; oh que saudade eu tenho da Aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais”. Seguidamente eu não conseguia decorar as poesias, como conseguir se me colocavam contra a parede na hora da reza dos Maristas e, se eu não conseguia fazer os temas, como iria decorar poesias? Mas o sofrimento não era só esse. Os Maristas rezavam, fechavam os portões, iam jantar e dormir e eu ali dormindo contra a parede. Ai então o que eu fazia? Descobri onde dormia o Ir. Ernesto, “um Marista humano, batia na janela e dizia “Irmão esqueceram de mim, tem que abrir o portão”, e ele vinha abrir. Lembro que a partir da terceira vez ele começou a dar esporro “mas, de novo guri”? Esbrontolava, era um querido o Ir. Ernesto. Devo confessar o seguinte: um dia o Ir. Avelino Madalosso, Diretor, mandou me chamar. A notícia correu pelo Colégio, para os meus colegas eu havia recebido a honra de ser chamado pelo Diretor. Fui. Na salinha dele, enquanto eu esperava fui espichando as mangas curtas. Chegou o Diretor e ele foi dizendo: “Henrique tu não está passando de ano, eu estou com pena do teu pai que está se sacrificando, pagando teu estudo. Então quero te comunicar, que eu estou te passando de ano, devo lembrar que o que tu não aprendeu vai te fazer falta lá adiante”. Eu fui passado de ano, porém tinha razão o Diretor, empaquei na 1ª série. Fazer o que “cada um dá o que tem”, a minha aula chegou ao clímax quando o Marista de codinome “Irmão Sebinho” foi as vias de fato com o colega Jairo Poli, que o chamou de F.D.P. Foi expulso, uma expulsão traumática, a primeira do Colégio Marista de Bento. No futebol o SEBINHO jogava de batina e o Itacyr Giacomello com quem ele fazia dupla no ataque, jogava com as mãos. Quem tirava a bola debaixo da batina do Marista ou das mãos do Itacyr? Desisti, fui jogar na arquibancada e foi de lá que um dia vi o Antonio Enriconi quebrar a perna num jogo disputado, com fratura exposta, um sentimento de pesar inimaginável tomou conta de todo o Colégio. Consolo eu tive, consegui entrar na banda do Colégio, a maior atração nos desfiles do 07 de setembro, com o “PINICILINA” (Flavio Victorio Fritoli) nos pratos fazendo estrepolias que levavam o público a loucura. E, mais adiante, ganhei, representando o Colégio, Concurso Municipal de Oratória. Defendi Brasília, por dez minutos levei vaia das 800 pessoas presentes, mas “a taça tá no armário”.

O CIRCUITO

Iniciei a “descoberta” da cidade, na Saldanha Marinho. Caminhava da loja que ficava onde hoje é a HOT POINT até a Farmácia Providência que ficava na esquina com a Ramiro Barcelos, papos com o proprietário Antonio João Baldi, pai do Danilo, médico que de vez em quando aparecia por lá, com o Claudio, Gerente, eram bons momentos. No Bar do Provensi, pela manhã, dadivosos pastéis; pela tarde mil folhas e bombas com creme abundante. Ao lado da Loja, o Barbeiro Pedrali e seu parceiro Ambrosi, grandes papos sentado na cadeira enquanto vazia, barbeiros sempre sabem tudo que acontece na cidade. No fim da tarde circulada pelo Centro no Bar do Quito, uma torradinha básica, uma olhadinha no café do Clube Aliança, no qual meu pai se associou. Com essas circuladas criei dois núcleos de amigos, no entorno de casa, com José Zortéa e Agenor Pértile, com eles promovia torneios de FUTEBOL DE CABEÇA, ao invés de chutar a bola com os pés chutávamos com a cabeça, se o adversário rebatia, valia fazer gol com os pés. Início do torneio Henrique X Zeca (Zortéa) era relativamente fácil ganhar dele; peleia mesmo era com o Agenor, a competição virava uma batalha. O Agenor tinha a fama de caçar raposas, ele tinha uma técnica especial, não as afugentava, as atraia, porque se assustadas e fizessem xixi não ia prestar. Um dia ele me convidou para um jantar lá na casa do pai dele, lá no Botafogo. Tinha umas 20 pessoas numa mesa comprida, própria dos italianos. Na mesa um ensopado, parecido com strogonoff, arroz e salada. No término do jantar o Agenor ocupou a palavra e lascou a pergunta: “vocês sabem o que comeram”? Olhamos um para o outro. Galinha? Perdiz? Peru? Ninguém acertou e ele falou: “vocês comeram raposa”! Bem, metade saiu correndo porão afora para chamar o “TIO HUGO”. Eu fiquei firme, sabia muito sobre as raposas, elas se alimentam de frutas, segundo o Agenor, a comida estava boa, mas sussurrei “ele não me pega mais”! O Agenor era músico, tinha até uma banda genérica, de músicos alternativos, cobrava barato, tinha muito trabalho. No carnaval do Aliança rolava o lança perfume, hoje proibido, eu adorava, usava um monte, em certo carnaval surgiu a notícia de que estava rolando, nos bailes do Ipiranga, o “SANGUE DO DIABO”, um líquido cor de sangue jogado nas pessoas com bisnaga, pele e roupas ficavam cor de sangue, a sensação era terrível, mas minutos depois aquilo desaparecia. Quem estava por trás da produção e comercialização? O Agenor. No Clube Aliança o produto não conseguiu entrar, o Clube vivia sob o império do lança perfume. Outra do Agenor: era tempo dos JOGOS DA PRIMAVERA, competições entre Colégios, o ano inteiro se esperava por eles. O Agenor chegou prá mim e disse: “estou formando uma equipe para disputar a modalidade de pingue-pongue, tu quer participar”? “Eu nunca joguei pingue-pongue Agenor, quem é a equipe”? “Eu mais tu, vamos lá”, ele respondeu. Levei uns dias para responder, pois preconizara que o fiasco seria total. Fiquei refletindo o pingue tem os princípios do tênis, como eu jogo tênis no Aliança e eu sou canhoto posso confundir o adversário. Fui para o desafio, a competição era no salão de baile do Clube Corinthians, tinha muita gente boa competindo, vinha foguete de tudo quanto é lado, eu provocava, dava balãozinho e os “cobras” erravam o foguete. Quando eu ia para o ataque, jogava a bola na esquerda junto a rede, fiz muitos pontos, o Agenor fez mais, ele era muito bom, derrubamos uns 15 adversários, eram 2 cada Colégio e nós vestimos a camisa MARISTA. Como terminou? A TAÇA TÁ NO ARMÁRIO! A dupla Agenor, CHICO FOGUETEIRO, e Henrique, CHICO RETRANQUEIRO, foi campeã, até hoje não acredito. Na próxima coluna, novos capítulos. Bom FINDI!