Reportagem e fotos: Cassiano Battisti
A construção da primeira ciclovia do Vale dos Vinhedos já movimenta a comunidade local e os empreendimentos turísticos da região. Com 3,5 quilômetros de extensão, a obra liga a ponte próxima à Cooperativa Aurora ao entroncamento da Graciema.
De acordo com a diretora do Instituto de Planejamento Urbano (IPURB), Melissa Bertoletti Gauer, o investimento total é de R$ 4,5 milhões, sendo R$ 2,2 milhões oriundos da Secretaria Estadual de Turismo e R$ 2,3 milhões de recursos do município. Em paralelo, a Prefeitura também licitou a repavimentação asfáltica da via, em contrato de R$ 3,1 milhões. A empresa responsável pela execução é a Concresul, e a previsão de entrega é fevereiro de 2026.

Obra possui licença de instalação nº 13/2024, dentro das normas técnicas da ciclovia. “A proposta possuí um divisor em concreto demarcando as devidas pistas entre os veículos automotores e ciclistas. A velocidade no local será de 60km. O projeto conta com iluminação, sinalização vertical e horizontal. É uma solicitação antiga da comunidade e que agora começa a se tornar realidade”, afirma Gauer. A obra está integrada ao Plano de Desenvolvimento Sustentável do Vale dos Vinhedos (PlanVale), que prevê futuras ampliações regionais da malha cicloviária.
Expectativa do setor turístico
Para a categoria, a ciclovia representa um marco. Rafael Roso, sócio de um restaurante da região e diretor da Associação dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedos (Aprovale), celebra o projeto. “Essa ciclovia é um sonho de 19 anos. Lutamos muito para tirar do papel. Vai agregar não só ao turista, mas também aos moradores, permitindo caminhadas e passeios de bicicleta em segurança. Não tenho preocupações com a ciclovia. Vejo só que poderia ser mais larga, porém acredito que o responsável pelo projeto fez o que dava para ser feito no espaço que tinha”, opina.
Segundo ele, até este momento da obra há poucos transtornos. “É um pequeno e passageiro problema diante do benefício da ciclovia. Acredito que irá ajudar a reforçar a imagem do Vale como patrimônio cultural e destino de “slow tourism”, que é para apreciar as belezas com mais tempo”, frisa.
Ele afirma que após as chuvas de maio do ano passado, o turismo baixou. “Acredito que sempre teremos muito a fazer. Mais ações da prefeitura e incentivo devem ser necessários. A Aprovale sempre lutou muito para incentivar o setor”, reitera.

dos Produtores de Vinhos Finos do Vale dos Vinhedo. Foto: Arquivo pessoal
Na mesma linha, Lucas Valduga, proprietário de um empório de produtos regionais, acredita que a estrutura abrirá espaço para novos perfis de visitantes. “Antes não havia nem acostamento, e já víamos aumentar o fluxo de ciclistas. Agora, a ciclovia pode atrair o público fitness, algo que ainda não tinha. Vai dar um novo acabamento à estrada e trazer mais diversidade”, pondera.
Valduga, no entanto, critica a falta de cuidado durante a execução. “Cedemos nosso estacionamento para as máquinas, mas não teve a preocupação de melhorar o estrago que fizeram, sob a justificativa da construção da ciclovia ser importante para os empreendimentos. Eu tinha um acostamento e agora não tenho mais. Eu precisaria que eles fizessem o acabamento, melhorassem o solavanco para subir para o asfalto, fizessem pelo menos um mínimo acesso para a estrada como tinha antes. É importante que seja respeitado o entorno e os negócios afetados durante o processo”, avalia.

Sobre o movimento turístico, ele considera como baixa temporada. “Deu uma queda, o calor começou e não é férias. Historicamente, setembro é mês com baixo fluxo”, comenta, afirmando que para incrementar o turismo é preciso pontos para a família. “Eu acho que é de extrema importância ter transporte público de qualidade, para não elitizar só um tipo de turista que vem para cá. Às vezes o pessoal de Bento quer vir, mas não tem ônibus. Acredito que tem que tirar um pouco das mãos dos grandes o poder do transporte e viabilizar outros segmentos que não sejam só vinícolas, ter mais parques, museus, coisa que Gramado tem, por exemplo, que eu vejo que dá certo”, destaca.
Já para o morador e empresário local, Mateus Tasca, esta é uma obra que vai agregar de modo geral à comunidade, pois é uma rota onde tem um trânsito considerável. “Minha preocupação é em relação à segurança dos usuários. Talvez eu teria feito em uma outra parte da rodovia, onde o relevo é menos íngreme, mas já estamos ganhando, independente do local de construção”, aborda.
Ele acredita que é preciso fazer um certo investimento em divulgação e manutenção. “Seria bom ter um percurso maior. Quem sabe uma parceria com municípios vizinhos, Garibaldi, Monte Belo do Sul, Santa Tereza. Temos o exemplo de outras cidades que têm rotas de cicloturismo que funcionam muito bem e pelo trajeto, vários negócios foram surgindo para dar apoio e suporte aos usuários”, diz.
Há desafios logísticos que ele antevê. “Vamos precisar de locais de parada para veículos de quem vem de fora, a sinalização também precisa ter um cuidado especial, e falando em segurança, a barreira que separa a ciclovia da rodovia, poderia ser um pouco maior. Tenho a impressão de insegurança da maneira como está hoje, principalmente se as famílias e suas crianças forem usufruir do empreendimento”, salienta.
Hotelaria
Para Elaine Michelon, do Hotel Villa Michelon, todo investimento em logística e mobilidade é um acontecimento que impacta positivamente. “Mesmo que uma parcela pequena do projeto original, irá adicionar elementos positivos ao trecho, como melhora do paisagismo, segurança para os ciclistas e turistas, embelezamento da via com melhora projetada de iluminação e sinalização, padronização de acessos, demarcações físicas adequadas”, diz. Mas há ressalvas: “São pouco menos de quatro quilômetros, extremamente sinuosos, uma altimetria significativa, uma rodovia muito movimentada, tanto com transporte de cargas tanto quanto com carros de passeio, só o tempo dirá mais sobre os problemas que poderão surgir. Neste momento só temos que torcer para que a obra seja finalizada com qualidade, que o projeto seja bem executado e consequentemente não gere manutenções muito constantes e que se surgirem necessidade de reparos sejam feitos imediatamente, pois ter uma ciclovia sem condições de uso será pior do que não ter”, avalia.
Para ela, em um primeiro momento a ciclovia não vai impactar de forma perceptível na ocupação da rede hoteleira. “Dará oportunidade de incluir serviços para que os amantes do ciclismo possam passear pelo trecho, mesmo sem ter trazido as suas magrelas”, frisa, destacando também que o acesso ao empreendimento está comprometido por conta das obras.
Segundo ela, neste período de execução da obra da ciclovia, o transito está se tornando um problema para quem deseja acessar tanto o Hotel, tanto qualquer um dos outros atrativos, restaurantes, vinícolas ou comércios deste trecho. “Seja pela presença de máquinas na pista, pela destruição da pista de rolagem devido a passagem de equipamentos pesados, pelo pare e siga sem muito critério, pela falta de iluminação à noite, seja pela falta absoluta de sinalização no momento dirigir pelo Vale dos Vinhedos, seja você um morador ou turista, é uma verdadeira aventura, principalmente à noite. O Villa Michelon é localizado ao lado da ERS-444, mas a construção principal fica à uma distância adequada da rodovia para que os ruídos do transito não atrapalhem o sono e o descanso de nossos clientes e amigos”, reitera.
Segundo ela, com a ciclovia, terá uma melhora significativa na iluminação no trecho. “A sinalização também parece que será ajustada, estes são aspectos bem positivos. Já os acessos a todos os estabelecimentos, ou mesmo propriedades do lado da ciclovia, mesmo que sejam bem sinalizados, deverão ser feitos com muito cuidado, tanto para quem circula pela ciclovia, tanto por quem está saindo ou entrando da via, pois as ‘entradas’ deverão ser feitas em uma velocidade muito baixa pelo ângulo necessário para acessar, o que pode causar reduções bruscas de fluxo na pista de rolagem da rodovia. Toda atenção deverá ser necessária para evitar acidentes”, afirma.
Impressões dos visitantes
Os turistas também demonstram entusiasmo. O casal paulista Rodrigo e Vivian Lasalvia, em sua segunda visita ao Vale, destaca a valorização da produção local. “As paisagens são lindíssimas e tudo o que se consome aqui é da própria região, o que engrandece a cultura. O produto nacional oriundo daqui é fabuloso e compete de igual para igual com as maiores vinícolas do mundo. A infraestrutura impressiona, a padronização da sinalização, é como estar em um ‘Brasil dentro de outro Brasil’, muito diferente da média nacional. Toda vez que viemos a gente quer voltar, principalmente para o período da colheita agora, que deve ser um momento especial”, frisa o turista. Vivian também reforça que gostou de praticamente tudo, apenas se decepcionou com o Caminhos de Pedra.

A gaúcha Caren Foletto, de Carazinho, visitou o Vale pela primeira vez e destaca a importância da experiência. “A paisagem é a estrela daqui. Além disso, a comida, a arquitetura e a preservação da identidade local encantam. Os empreendimentos se preocupam com a materialidade, porque a gente vem para a Serra e encontra exatamente a vivência que espera”, evidencia.

Já o carioca Alexandre Vianna enfatiza a evolução da região nas últimas duas décadas. “Quando vim há 22 anos, era muito diferente. Hoje cresceu de forma impressionante, com novas vinícolas, restaurantes e estrutura para receber turistas. Não tivemos nenhuma decepção, pelo contrário, só boas experiências. Queria poder ir em todos os locais”, ressalta Vianna.
