Inaugurada em 30 de junho de 2017, a Casa do Artesão e do Artista Plástico de Bento Gonçalves tornou-se um espaço de resistência, acolhimento e valorização cultural. Localizada no coração de uma cidade marcada pela imigração italiana, pela produção vitivinícola e pela efervescência criativa, a Casa abriga hoje quase 50 associados, entre artesãos e artistas plásticos, que encontram ali não apenas um local de exposição e venda, mas um ambiente de convivência e fortalecimento da identidade cultural. “O papel da instituição é recuperar desagrados passados em que conceitos de arte e artesanato eram vagabundagem. Mostrar para o próprio artesão e artista seu valor e sustentabilidade possível”, afirma Ivete Todeschini Menegotto, atual presidente da instituição, que funciona todos os dias, inclusive em feriados, das 9h às 18h, na Rua Duque de Caxias, nº 115.

Entre desafios e conquistas
A Casa nasceu de uma articulação entre a Associação de Artistas Plásticos de Bento Gonçalves (AAPLASG), a Prefeitura e a Secretaria de Cultura. Desde então, passou a ocupar uma casa histórica, com dois pisos: no térreo, um espaço dedicado ao artesanato; no segundo andar, o ateliê de artes visuais.
Manter a estrutura, porém, não é simples. Além de mensalidades e taxas sobre as vendas, a entidade busca parcerias privadas e o apoio do poder público. “Temos colaborações de empresas e trabalhamos constantemente em rede com agências de turismo e guias. Existe uma mensalidade e os plantões para assegurar a Casa. Uma porcentagem das vendas é para isso”, explica Ivete. Mesmo assim, a burocracia ainda é um obstáculo para a aprovação de projetos culturais, dificultando a realização de oficinas e eventos de maior porte.

Apesar das dificuldades, a Casa resiste com programação diversificada: feiras, exposições, oficinas e participação em eventos regionais. “Muitas vezes tivemos que focar primeiro na harmonia interna, no lado humano. Hoje, o visitante que entra sente o acolhimento; isso é fundamental”, ressalta.
A Casa também está passando por reformas. “Está sendo feita toda uma reestruturação interna, rebocos, pintura e infiltrações”, informa Ivete. O prédio histórico possui uma área de 307m² e seu projeto arquitetônico é inspirado nas antigas residências dos funcionários da Estação Ferroviária, edificadas na década de 1930.

feitos com diferentes técnicas
Segundo ela, os visitantes buscam principalmente peças que carreguem a essência da cultura local, como a trança de palha de milho trabalhada em artesanato (dressa), a madeira trabalhada e até criações feitas a partir dos galhos de videira, em um olhar sustentável e inovador. A diversidade é regulada por uma curadoria que limita a quantidade de produtos semelhantes, garantindo autenticidade e valorização do trabalho de cada artesão. Atualmente, a Casa reúne 29 artesãos associados e 19 artistas, mas enfrenta o desafio de manter a adesão devido às mensalidades e à exigência de plantões presenciais, que nem sempre se refletem em vendas suficientes. “Tenho uma visão de ternura com o artesão e artista, pois é classe de muita solidão. Quando assumi a presidência eu vi muitos doentes e adoecidos. Percebi que essa comunhão deu vida e saúde às pessoas que fazem parte”, salienta.

Ivete destaca ainda que, apesar das dificuldades, a Casa se mantém ativa em feiras, oficinas e eventos, além de apostar na divulgação turística para ampliar sua visibilidade. Para ela, o artesanato não é apenas uma alternativa de renda, mas uma forma de preservar a identidade cultural da região e aproximar arte e artesanato, dois universos distintos, mas que caminham lado a lado na valorização da criatividade local.
Artesãos e artistas dão vida ao espaço
A força da Casa está justamente na pluralidade de estilos e técnicas reunidas. O crochê de Silvana De Freitas, com amigurumis, bolsas e tapetes, é exemplo da união entre tradição e tendência. “Comecei no crochê ainda criança e, com o tempo, fui acompanhando as novidades. É gratificante poder expor nosso trabalho e ver o público valorizar”, conta. Para expor precisa ter carteirinha de artesão ou para mostra na parte de cima da Casa precisa estar vinculado à AAPLASG.
Já a artista plástica Denize Catarina Misael de Andrade Tosi encontra na aquarela sua maior paixão. Com mais de 12 anos de envolvimento na AAPLASG e sete na Casa, ela vê no espaço um canal de aproximação com turistas e divulgação de sua produção. “A aquarela tem alma própria. Gosto de trabalhar flores, fisionomias femininas e também peças menores, como cartões, marcadores de livros e convites de casamento. Isso aproxima a arte do cotidiano das pessoas. No entanto, gosto também de trabalhos monocromáticos”, diz.

Quanto à sua vida junto com a arte, ela destaca que sempre gostou de desenhar, pintar, inventar artes, e nessa trajetória experimentou todas as técnicas de desenho e da pintura: acrílico, óleo, aquarela, sanguínea, grafite, lápis de cor, nanquim, pastel seco e oleoso. “Participei de muitos cursos e oficinas de história da arte, de desenho artístico, pinturas diversas, colagens, técnicas mistas. Dentro do desenho, tive o prazer de ser aluna do professor Anastácio Dietrich Orlikowiski, já falecido, mas que deixou uma linda história na arte de Bento Gonçalves. E o professor Micael Biasin, que me trouxe uma base muito importante para o desenvolvimento dos meus trabalhos artísticos. Vim estabelecendo uma relação cada vez mais forte com a arte e nessa trajetória, também participei de várias mostras artísticas coletivas, tanto em Maringá quanto em Bento Gonçalves. Ainda estou fazendo esses planejamentos e participando de outros momentos, como eventos, exposições, estamos sempre presentes”, conta a artista, que também faz parte da Comissão de Incentivo à Cultura (CMIC) do município.




Ela esmiúça seu amor pela técnica da aquarela e como é uma arte livre. “A aquarela abre um leque de possibilidades, ela torna-se dona da situação, ela faz o seu trajeto independente, como dizia o professor Orlikowiski, nós não mandamos na aquarela, ela faz aquilo que quer, tem a alma própria. Eu faço trabalhos grandes, e nestes utilizo bastante a técnica, mas uso também o nanquim, lápis de cor, crayon, etc”, pontua.
Segundo Denize, a inspiração vem de dentro, da alma, do coração e de suas vivências. “Todos os artistas fazem um percalço desta maneira, mudam de inspiração conforme o momento. A inspiração vem do momento, de uma situação que você está vivenciando, do seu estado espiritual”, evidencia.

Denize destaca, contudo, a necessidade de maior apoio local. “Os turistas são os principais visitantes. A comunidade de Bento ainda participa pouco. Precisamos de mais divulgação e envolvimento dos munícipes para que a arte seja reconhecida como algo essencial, e não apenas como entretenimento supérfluo”, comenta.
Para quem está começando agora na arte, Denize aconselha investir em cursos, muito estudo e dedicação. “A escola de arte ensina como pensar e não o que pensar. Hoje o artista tem um lugar especial, mas que exige um conhecimento e uma base teórica, metodológica, de criatividade, de participação, de envolvimento, de sentimentos, muito grande, para que ele possa se envolver mais e compreender também”, conclui.
Preservação cultural e futuro
Os trabalhos expostos na Casa refletem tanto a herança cultural da região quanto a experimentação de novas técnicas e linguagens. Essa combinação faz do espaço um ponto de encontro entre tradição e inovação. “Artesanato e arte caminham juntos, mas de forma distinta. Cada um tem sua linguagem própria, e é esse respeito que queremos preservar”, enfatiza Ivete.

Entre os planos para o futuro, estão a conquista de um espaço fixo na Fenavinho, o fortalecimento das oficinas e a ampliação das parcerias com entidades culturais e turísticas. “Temos muitos sonhos.
Queremos que a Casa seja reconhecida não apenas como um espaço de venda, mas como um polo de valorização cultural e geração de renda para artesãos e artistas. Temos apoios diversos, porém falta-nos equipes e pessoas comprometidas na luta. Ideias são sempre bem-vindas também”, completa a presidente.
Gestão 2024-2026: “União, transparência e participação”
Presidente: Ivete Todeschini Menegotto
Vice presidente: Elaine Biasin
1º secretário: Ana Alice Dalcin Zorzi
2º secretário: Marilene Rigom Beltran
1° tesoureiro: Silvana Mens de Freitas
2º tesoureiro: Lorena Maria Pizzatto
Conselho fiscal
1° membro: Gladis Helena Lobo Pierdoná
2º membro: Jorge Aresi
3º membro: Angela Maria Felden Sulzbacher
1º suplente: Geni Ferrari Brandalise
2º suplente: Ademir Gugel
3º suplente: Maria Ferronatto
Conselho curador
1° membro: Taiana Vanessa Rossi
2° membro: Genice Teresinha Godinho
3º membro: Inês Erthal Benatti
1º suplente: Vildete Dall Bello Pessutto
2º suplente: Zélia Paludo
3º suplente: Romi Inês Gabbardo
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