O Ministério da Saúde do Brasil passou a recomendar a realização de mamografias a partir dos 40 anos de idade
A medida, oficializada em 23 de setembro de 2025, altera a política pública de rastreamento do câncer de mama e incorpora ao Sistema Único de Saúde (SUS) uma prática defendida há anos pela Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM), com o objetivo de ampliar o diagnóstico precoce e reduzir a mortalidade entre mulheres.
O mastologista Gustavo Zambrano Torre, responsável pelo Ambulatório de Oncomastologia da Unidade de Alta Complexidade em Oncologia do Hospital Geral de Caxias do Sul, avalia que a mudança representa um avanço técnico nas estratégias de rastreamento populacional. Segundo ele, a medida corrige uma lacuna histórica nas políticas de detecção precoce. “A SBM luta desde 2008 para que esta recomendação fosse adotada pelo Ministério da Saúde. Com a alteração, amplia-se o cuidado e busca-se diagnosticar de forma mais precoce o câncer de mama no país, o que impacta diretamente na redução da mortalidade e na adoção de tratamentos menos agressivos”, afirma.
Segundo o especialista, a oficialização da nova faixa etária de início da mamografia para mulheres de risco habitual formaliza uma prática que já vinha sendo preconizada pela comunidade médica para estes pacientes.
Entre mulheres com histórico familiar da doença (como parentes de 1º e 2º grau) ou portadoras de mutações genéticas confirmadas, as recomendações seguem protocolos diferenciados. “De modo geral, recomenda-se exame físico anual com especialista a partir dos 20 anos de idade, ressonância magnética das mamas a partir dos 25 anos anualmente”, detalha Torre.

O mastologista destaca que a identificação precoce de lesões permite atingir taxas de cura que variam de 90% a 95%, preservando assim a vida da paciente. A detecção em fases iniciais também tem efeito direto sobre o tipo de abordagem terapêutica indicada. “O diagnóstico precoce possibilita mais cirurgias conservadoras da mama, ou seja, cirurgias menores, menos agressivas no tratamento da axila, e também muitas vezes possibilitando a omissão da temida quimioterapia sistêmica. Além da preservação da mama, a menor cirurgia axilar evita transtornos em membros superiores”, acrescenta o médico.
O cuidado vai além dos exames
Os hábitos de vida, segundo Torre, continuam sendo um fator relevante na prevenção. “Sabemos que a dieta saudável, evitando consumo excessivo de alimentos ultraprocessados, açúcar em excesso e ingestão de gordura impactam em redução de risco para câncer de mama. Da mesma forma, o combate ao excesso de consumo de álcool e evitar o tabagismo reduzem não só o risco, mas a recidiva de câncer, bem como influência prevenindo outros cânceres, doenças pulmonares e cardiovasculares”, afirma.
Estudos apresentados em congressos internacionais de oncologia reforçam o papel da atividade física na prevenção e no controle do câncer. “Uma meta-análise divulgada em 2024 demonstrou que a atividade física reduz em 20% a mortalidade por câncer de mama e de 20% a 30% o risco de recorrência em pacientes tratadas e fisicamente ativas”, destaca o especialista.
As recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam a prática de 150 minutos semanais de atividade física aeróbica moderada ou 75 minutos de atividade vigorosa, além de exercícios de força, como a musculação, duas vezes por semana.
Cuidados em cada faixa etária
A orientação preventiva, segundo Torre, deve ser incorporada desde a adolescência. “Evitar sedentarismo, obesidade, tabagismo e consumo de álcool constitui uma base sólida de prevenção. O conhecimento do próprio corpo e a realização do autoexame são medidas de autopercepção importantes, ainda que não substituam a avaliação médica”, afirma.

Entre os 30 e 40 anos, a realização de consultas periódicas com ginecologistas e mastologistas é recomendada mesmo na ausência de sintomas. “Essas consultas têm caráter preventivo e permitem a detecção de alterações em estágios iniciais, além de possibilitar orientações sobre outras doenças do sistema reprodutor feminino”, explica o médico.
A partir dos 40 anos, a mamografia torna-se o principal exame de rastreamento, podendo ser associada à ultrassonografia mamária em casos de mamas densas, limitando a sensibilidade da mamografia. “A Ressonância Magnética ficará reservada para pacientes de alto risco e situações especiais como avaliação de implantes mamários em suspeita de ruptura, por exemplo”, orienta.
Nas faixas etárias mais avançadas, o rastreamento segue sendo considerado necessário. “Cerca de 60% dos casos de câncer de mama ocorrem após os 50 anos, conforme o estudo Amazona III, que avaliou a população brasileira após a menopausa e principalmente entre os 55 e 69 anos de idade. Então, sim, a mamografia de rastreio segue importante após aos 60 anos. Recentemente, o Ministério da saúde ampliou o rastreamento de 69 anos para 74 anos. Existe, segundo a SBM, a necessidade de individualizar após os 74 anos. Quando há uma até uma expectativa de vida de mais cinco a sete anos, o exame pode ser recomendado”, informa Torre.
Recomendações finais

Durante a menopausa, as mudanças hormonais e estruturais nas mamas exigem acompanhamento contínuo. “A evolução natural das mamas gera uma lipossubstituição natural do tecido glandular para tecido adiposo. Os ligamentos de sustentação das mamas se afrouxam. Então é natural que a flacidez em graus diferentes e a ptose (a queda das mamas) possa ocorrer, de formas diversas a cada mulher. Alimentação adequada, atividade física, e a reposição hormonal com orientação de seu ginecologista de confiança quando indicada, podem minimizar os efeitos da menopausa sobre as mamas. Quanto ao risco de câncer, a menopausa continua sendo um período de cuidar das mamas regularmente, já que a maior incidência de câncer de mama ocorre entre os 50 e 69 anos de idade”, finaliza o mastologista.