Setores da saúde observam com atenção o avanço do câncer colorretal em faixas etárias mais novas, um fenômeno que altera o perfil epidemiológico da doença e exige novas estratégias de prevenção e diagnóstico
Antes associado majoritariamente a indivíduos mais velhos, o câncer de intestino agora impacta uma população distinta, conforme apontam dados e especialistas.
O câncer colorretal (intestino grosso e reto) é o segundo tumor maligno, excluindo o câncer de pele não melanoma, mais comum em homens e mulheres, atrás apenas, respectivamente, de câncer de próstata e mama. São esperados para cada ano do triênio 2023-2025 um total de 45.630 novos casos anuais de câncer colorretal no Brasil, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (INCA). São 23.660 em mulheres e 21.970 em homens. No mundo, o câncer colorretal representa 10% de todos os tipos de câncer, com 1,9 milhão de novos casos anuais e 935 mil mortes, segundo o levantamento Globocan, da Organização Mundial da Saúde.

Junior Gil Vicente, cirurgião geral e oncologista do Hospital Tacchini, em Bento Gonçalves, explica que a mudança no estilo de vida nas últimas décadas é um fator determinante para essa alteração. “Comemos mais alimentos ultraprocessados e carnes vermelhas, consumimos menos frutas, verduras e fibras. Passamos horas sentados, sem nos exercitar. Isso tudo facilita o acúmulo de gordura, altera o equilíbrio das bactérias do intestino e gera inflamação crônica, aumentando o risco para o surgimento de tumores”, descreve.
Um ponto que Vicente busca esclarecer é a percepção equivocada de que tumores em jovens seriam inerentemente mais agressivos. Ele afirma que a severidade está, em muitos casos, no diagnóstico tardio. “Não há como provar que o tumor seja mais agressivo apenas por surgir cedo. A questão é que, por não ser esperado nessa idade, o diagnóstico tende a ocorrer em estágios avançados. Isso torna o tratamento mais complexo e o impacto na vida do paciente, significativamente maior”, observa o oncologista.
Principais características
Os sintomas do câncer colorretal, como dor abdominal, presença de sangue nas fezes e alterações no hábito intestinal, permanecem os mesmos em todas as idades. No entanto, a interpretação desses sinais em pacientes mais jovens apresenta um desafio. “Em indivíduos de 25 ou 30 anos, esses sinais são quase sempre atribuídos a condições como gastrite, ansiedade ou constipação. A demora na investigação permite que o tumor progrida sem suspeitas”, salienta o médico.
Além da idade, que por si só é um fator de risco nessa nova conjuntura, outros elementos contribuem para o desenvolvimento da doença. Vicente lista a dieta com poucas fibras e excesso de ultraprocessados, o sedentarismo, o sobrepeso ou a obesidade, e o uso frequente de antibióticos. Histórico familiar de câncer colorretal, doenças inflamatórias intestinais, como Doença de Crohn e Retocolite, e o consumo excessivo de álcool e tabaco também elevam o risco de forma considerável.
A obesidade merece destaque pela sua influência. O oncologista detalha que “o excesso de gordura provoca inflamação crônica e altera a produção de hormônios, como o estrogêno, e de substâncias relacionadas à divisão celular. Também modifica o equilíbrio das bactérias no intestino, criando um ambiente que propicia o crescimento de células tumorais.”
Hábitos saudáveis
A prevenção e o diagnóstico precoce são cruciais no combate à doença. O especialista enfatiza a importância de uma alimentação e rotinas adequadas e da adesão aos exames de rastreamento conforme as diretrizes. “É fundamental priorizar hábitos saudáveis e estar atento aos exames de rastreamento no momento certo”, orienta. Isso inclui uma dieta rica em frutas, verduras, grãos integrais e água, com redução do consumo de embutidos e refrigerantes. A prática de, no mínimo, 150 minutos de atividade física semanal, além da abstenção de cigarro e da moderação no consumo de álcool, são medidas essenciais. Vicente também recomenda a realização de colonoscopia e/ou exame de sangue oculto nas fezes a partir dos 45 anos, ou antes, caso haja sintomas ou histórico de parente de primeiro grau diagnosticado com câncer colorretal.
Os sinais de alerta que demandam atenção médica imediata incluem sangue vivo ou escuro nas fezes, alteração persistente no ritmo intestinal (prisão de ventre ou diarreia sem causa aparente), dor abdominal contínua ou cólicas frequentes, perda de peso inexplicada, fadiga ou anemia sem outra justificativa.
Embora pacientes jovens geralmente apresentem melhor condicionamento físico para suportar tratamentos como cirurgias e quimioterapia, o impacto da doença nessa faixa etária é multifacetado. “Os jovens sofrem mais com os impactos na autoestima, fertilidade, vida social e planos de trabalho ou estudo. Embora não existam protocolos completamente específicos para essa faixa etária, é fundamental oferecer suporte psicológico, cuidados de preservação da fertilidade e orientações específicas para ajudá-los a retomar o cotidiano o mais rápido possível”, aponta o oncologista.