Em junho, o Rio Grande do Sul registrou uma queda expressiva no preço dos ovos e do café, conforme dados da Receita Estadual, baseados nas notas fiscais eletrônicas do varejo. O preço do ovo de galinha recuou 7%, resultado de uma maior oferta interna motivada pela suspensão temporária de exportações após um surto de gripe aviária em uma granja de Montenegro. Já o café moído teve baixa média de 2,61%, com destaque para a região das Hortênsias, onde o recuo chegou a 10%.
Mesmo com essas reduções pontuais, o Preço da Cesta de Alimentos da Receita Estadual (PCA-RE) manteve-se praticamente estável, em R$ 294,96, com alta mínima de 0,05% em relação a maio. No acumulado de 12 meses, o índice avançou apenas 4,38%, abaixo do IPCA-15 de 6,94% no mesmo período.
Segundo Monica Beatriz Mattia, economista e professora de Economia na Universidade de Caxias do Sul (UCS), os dados da Embrapa Café, da Associação de Produtores de Ovos e do IBGE explicam o comportamento dos preços e da oferta.

Queda no preço do café
Presente no dia a dia de grande parte dos brasileiros, o café vinha pesando no bolso do consumidor. No entanto, no último mês, o produto registrou uma queda nos preços, impulsionada por fatores internos e externos do mercado.
De acordo com Monica, um dos principais motivos para essa redução foi o aumento da produção nacional. “Há previsão de crescimento na safra 2025/26, que deve atingir 55,67 milhões de sacas de 60 kg, um avanço de 2,7% em relação à safra de 2024. Esse aumento eleva a oferta e, consequentemente, pressiona os preços para baixo”, explica.
Além disso, a economista destaca que a redução nas exportações também teve papel decisivo. “Em junho, as exportações de café caíram 30,7% em relação ao mesmo mês do ano passado, aumentando a disponibilidade de café para os consumidores brasileiros. O consumidor compete com o consumidor do resto do mundo, ou seja, quanto maior o volume exportado, maior será o preço do produto para o cliente brasileiro”, salienta.

Queda nos preços dos ovos
Após meses de alta, o preço dos ovos apresentou recuo no mês de junho, trazendo alívio ao bolso dos consumidores gaúchos. Considerado um dos principais itens da cesta básica e uma das fontes de proteína mais acessíveis, o produto teve redução influenciada pela estabilidade na produção e pela queda na demanda com a chegada do inverno. A baixa no valor reflete uma maior oferta nos mercados e pode impactar positivamente o consumo das famílias, especialmente em tempos de orçamento apertado.
De acordo com a economista, a queda se deu por conta da gripe aviária que o país enfrentou no mês de maio, em Montenegro. “Cerca de 20 países deixaram de importar ovos devido à questão sanitária, já resolvida no RS. Alguns países retomaram normalmente e outros seguem evoluindo nesta retomada. Independentemente deste fato sanitário, ainda vigente em alguns mercados, o país exportou 6.558 toneladas de ovos em junho, um aumento de 308% em relação ao mesmo mês de 2024”, aponta Monica. Para ela, as exportações de alimentos do país fazem com que o consumidor brasileiro pague mais caro pelos alimentos.

Produtor
A economista destaca que, entre os meses de fevereiro e junho, o preço do café caiu cerca de 17% para o produtor. A redução foi impulsionada pelo aumento da oferta e pela queda nas exportações. Ainda assim, ela ressalta que a renda do setor permaneceu positiva. “A rentabilidade dos produtores se manteve estável, graças aos investimentos em produtividade e ao clima favorável ao desenvolvimento da cultura”, explica.
Já na produção dos ovos, os principais insumos, como milho, farelo, soja e embalagens, continuaram caros, pressionando a rentabilidade da indústria. “Soma-se a isso as exigências do setor de seguir com a prática de climatização das granjas para evitar doenças sanitárias e o investimento em novas poedeiras, devido ao descarte natural daquelas que reduziram a produção. Assim, a necessidade de mais investimentos, associada aos preços elevados dos insumos, tem impactado a rentabilidade dos proprietários de granjas”, completa.

Preço nos próximos meses
A recente taxação americana pode influenciar diretamente o mercado do café. Segundo a economista, embora o Brasil e outros países produtores estejam registrando aumento na safra 2025/26, a imposição de tarifas de importação pelos Estados Unidos pode reduzir as exportações, elevando a oferta interna e pressionando os preços para baixo nos supermercados. “Apesar da maior produção, o mercado pode ser impactado pela redução nas vendas ao exterior, o que mantém a oferta nacional elevada e contribui para a queda nos preços. Por outro lado, as possíveis elevações de valor estariam mais relacionadas ao clima e à cotação internacional do café”, explica. Monica destaca que o café é uma commodity e, por isso, seu preço é definido no mercado internacional. “É importante lembrar que o valor do café não é determinado apenas pelo mercado interno. Ele é negociado nas Bolsas de Valores de Nova York e Londres, com base em fatores como oferta e demanda global, clima, estoques e até questões geopolíticas. Tudo isso influencia diretamente os contratos de exportação e, consequentemente, os preços praticados aqui no Brasil”, reforça.
Em relação aos preços dos ovos, a economista ressalta que é preciso acompanhar o movimento de retomada das exportações por parte dos países que haviam reduzido ou interrompido as compras devido à gripe aviária. “Caso isso ocorra, aumentará a demanda por ovos e os preços voltarão a subir. Havendo a possibilidade de redução no preço dos insumos, especialmente o milho e o farelo de soja, os preços podem se manter mais baixos e até reduzir mais, caso demore a retomada das exportações aos níveis pré-gripe aviária”, explica.

Taxa Selic
Apesar da recente queda nos preços do café e dos ovos, a economista ressalta que esses movimentos são pontuais e não representam, necessariamente, uma tendência ampla de desaceleração da inflação. Segundo ela, o verdadeiro fator de peso na dinâmica econômica brasileira segue sendo a taxa básica de juros (Selic), que permanece em patamar elevado e tem efeitos profundos sobre o crescimento, o consumo e o mercado de trabalho. “Há um vilão gigante no Brasil que é a taxa de juros Selic, extremamente elevada para forçar uma política fiscal restritiva. Assim, uma redução na dinâmica econômica acaba tendo impacto na queda da inflação, consequente de menos investimentos empresariais e gastos do governo em obras e algumas outras despesas discricionárias, reduzindo o PIB: as empresas produzem menos, geram menos empregos e desempregam, há uma menor renda total para o país com redução no consumo e nos preços. Como consequência, pode haver queda na taxa de juros”, conclui Monica.

Aplicativo Menor Preço
Em tempos de orçamento apertado, economizar nas compras do dia a dia se tornou essencial. Uma ferramenta que pode ser uma grande aliada do consumidor é o aplicativo Menor Preço Nota Gaúcha, desenvolvido pela Receita Estadual. Gratuito e de fácil uso, o app permite pesquisar os menores preços praticados pelo varejo em diversos produtos, inclusive alimentos.
A busca pode ser feita por localização, com a opção de definir um raio entre 1 e 30 quilômetros, o que ajuda a reduzir os custos com deslocamento e ainda incentiva o consumo no comércio local. Ao selecionar o produto desejado, o consumidor tem acesso ao endereço e telefone do estabelecimento, o que permite confirmar o preço antes da compra e evitar idas desnecessárias até o local.
A ferramenta funciona com base nas informações de cupons fiscais emitidos em tempo real, garantindo maior precisão nos dados e facilitando o planejamento das compras com economia e praticidade.