O consumo em brechós tem crescido na cidade, impulsionado por uma nova geração que busca unir economia, estilo e sustentabilidade. De acordo com empreendedoras do setor, o preconceito com o “usado” tem diminuído e o ato de garimpar se tornou um hábito consciente e ‘fashion’.
Segundo o Conselho Federal de Administração (CFA), no Brasil há cerca de 118 mil brechós ativos. De acordo com o Sebrae-SP, a projeção é que este setor movimente R$24 bilhões em 2025.

Rio Grande do Sul
Um levantamento realizado pela Descarbonize Soluções, empresa focada em pesquisas sobre sustentabilidade e meio ambiente, revelou que o Rio Grande do Sul é o quinto estado do país com mais buscas por brechós, evidenciando o crescimento do consumo consciente entre os gaúchos.
No ranking nacional, o Rio Grande do Sul ocupa a quinta colocação, ficando atrás de Santa Catarina, Paraná, São Paulo e Distrito Federal. Em seguida, aparecem Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e Espírito Santo. Ao todo, as buscas online por brechós ultrapassaram dois milhões em todo o país, demonstrando o interesse crescente dos brasileiros por esse tipo de consumo.
A pesquisa levou em conta as buscas mensais realizadas entre julho de 2024 e julho de 2025. Somente em julho deste ano, o termo “brechó” registrou mais de 14 mil pesquisas no Google, considerando apenas a localização do Rio Grande do Sul, conforme o levantamento da Descarbonize Soluções.

Bento Gonçalves
De acordo com Luciane Almeida, proprietária do Elegante Brechó, a mudança de mentalidade de quem busca por roupas de segunda mão é evidente. “Cada vez mais pessoas buscam compras com propósito, optam por peças únicas, consumo consciente e reaproveitamento, o que favorece nosso segmento”, destaca.
Ela explica também que, mesmo que não haja dados específicos de Bento Gonçalves, o crescimento é nítido. “Com turismo, eventos e uma comunidade que valoriza estilo e exclusividade, isso favorece que espaços como o nosso ganhem visibilidade e clientela”, afirma.
Para Nataliê Tomaz Mietch, proprietária do Peça Rara Boutique e Brechó, as pessoas na cidade estão mais abertas à ideia de consumir de forma inteligente e sustentável. “Bento tem um público exigente, que valoriza a qualidade”, destaca.
Larissa Brum, dona do The Brechó Club, observa que nos últimos três anos o crescimento é evidente na cidade. “Surgiram muitos espaços, cada um com sua proposta, estilo e faixa de preço. Acho lindo ver esse movimento ganhando força, porque mostra que as pessoas estão repensando a forma de consumir e valorizando o conceito de moda circular. Além de ser uma tendência sustentável, esse crescimento traz diversidade e autenticidade para a cena da moda local”, observa.
Elida Duranti Dias, sócia proprietária do Brechó Cara de Nova, conta que é pioneira no setor de brechós no município. “Estamos no mercado há 12 anos, no início houve uma certa resistência, mas atualmente a aceitação é ótima”, ressalta.
A proprietária do Brechó Vira e Mexe Kids, Claudete Fachini, destaca que o setor tem crescido de forma expressiva nos últimos anos. “Comecei em 2016, por ideia da minha irmã”, relembra.
Para Luciane, o crescimento no setor trouxe também novos desafios e maior competitividade. Ela ressalta a importância de uma curadoria bem-feita, foco na experiência do cliente e diferenciação. “Percebo que, junto com a expansão, surge a necessidade de mais organização, atendimento personalizado e estratégias de divulgação”, comenta.
Apaixonada pelo universo da moda, Elida conta que encontrou no brechó uma forma de unir propósito e trabalho. “Acredito na sustentabilidade, no amor à moda e no reuso do que já está pronto no universo. Há cada dia mais pessoas interessadas, mais consciência e sustentabilidade”, destaca.
Nataliê observa que suas clientes valorizam cada peça pelo que ela representa. “O estilo, a qualidade e a exclusividade são os principais atrativos. Por isso, a curadoria tem se tornado um ponto-chave do trabalho”, destaca a empresária.
Ela conta também que, na sua visão, o interesse cresceu principalmente entre as mulheres. “Elas buscam estilo e autenticidade sem abrir mão de preço justo e responsabilidade ambiental”, ressalta.
Claudete vê que, com o passar do tempo, as pessoas ganharam mais consciência sobre a essência do brechó. “A aceitação é muito boa, principalmente para os bebês. As peças ficam novas e os bebês usam pouco, pois crescem rápido”, afirma.

Paixão
Para Larissa, o brechó vai muito além de um trabalho: é um amor que carrega consigo. “Desde que me entendo por gente, faço manualidades, e isso sempre me motivou muito. Gosto de olhar para uma peça antiga e imaginar o porquê de cada detalhe: o bolso, o bordado, o tecido escolhido. É incrível como a qualidade desses materiais faz com que durem mais de 30 anos”, revela.
Para ela, o brechó é um espaço de ressignificação e propósito. “Ele surgiu em um momento turbulento da minha vida, como uma forma de desacelerar e resgatar o sonho de infância de trabalhar com roupas, algo que sempre amei. Hoje, vejo como muito mais do que um lugar de roupas usadas: são peças de qualidade, com história e a preços acessíveis”, relata.

Público
As empresárias citadas trabalham exclusivamente com o público feminino, exceto Claudete, que atende o público infantil. “O que tem mais saída é tip-top, pijamas, um pouco de tudo”, esclarece.
Nataliê comenta as escolhas do seu público. “As mulheres que buscam peças diferenciadas, gostam de moda e de peças exclusivas. A cliente vem pelo conjunto, pois o preço é mais atrativo, mas o estilo e as peças únicas são o que acaba fidelizando”, complementa.
Elida conta que, em seu espaço, o público principal é o feminino também. “Trabalhamos também com peças masculinas, mas a maioria do nosso público é de mulheres. Roupas e calçados para serem usados no dia a dia”, salienta.
Ás principais clientes de Luciane são formadas por várias faixas etárias, entre 25 e 55 anos. “Em sua maioria, mães e profissionais que gostam de se vestir bem, com estilo e preço justo. Elas buscam peças de qualidade, exclusivas e que valorizem o visual sem precisar gastar muito”, observa.
Larissa, com seu diferencial em roupas vintage, conta que quem procura seu espaço são pessoas mais jovens, “principalmente mulheres de 18 a 30 anos, que procuram peças dos anos 2000, e também opções básicas e atuais para o dia a dia”, menciona.

Projeção para o futuro
Ao serem questionadas sobre como será o futuro dos brechós na região, ambas as respostas foram otimistas. “Atualmente, cada dia nasce um novo. Claro que nem todos conseguem continuar, é preciso ser inovador com boa curadoria e seriedade para permanecer atuando nesse ramo de negócio”, destaca Elida.
Para Nataliê, o brechó deixou de ser uma alternativa e passou a ser uma escolha. “Ainda existe um público mais tradicional, mas vemos cada vez mais pessoas abertas a experimentar e entender que o consumo sustentável não é tendência, e sim necessidade ambiental”, observa.
Larissa destaca que o crescimento destes espaços na cidade é uma realidade. “Este modelo de consumo, que existe há décadas, se transforma conforme a economia evolui. Após períodos de crise, ele ressurge sempre mais robusto, foi assim no pós-guerra, quando a reutilização se tornou uma necessidade, e estudantes franceses passaram a se vestir com estilo garimpando roupas de qualidade a preços acessíveis. Hoje, vivenciamos um cenário semelhante: o poder de compra diminuiu, mas o desejo de se vestir bem persiste. O brechó oferece essa possibilidade, unindo estilo, história e propósito”, afirma.
Luciane menciona que o crescimento do setor acompanha uma tendência nacional e global de consumo consciente e moda sustentável. “O segmento tem apresentado um aumento consistente, com cerca de 31% de expansão nos últimos cinco anos, movimentando bilhões de reais e conquistando consumidores que buscam peças únicas, com estilo e menor impacto ambiental”, detalha.

Desafios

Larissa observa que ainda há bastante preconceito em relação aos brechós em Bento Gonçalves. “Muitas pessoas ainda dizem: ‘ah, por esse valor, eu compro novo’, sem perceber o trabalho que há por trás de cada peça: desde o garimpo, a higienização, a curadoria, até a entrega final. Também existe o preconceito com roupa usada, como se fosse algo negativo. A mentalidade local ainda está mudando, mas acredito que aos poucos isso vai se transformar, especialmente entre as gerações mais jovens”, cita.

Para Luciane, a realidade é outra. “A expansão do setor traz consigo uma série de desafios que exigem diferenciação: com o aumento da concorrência, é imperativo se destacar por meio de curadoria apurada, estilo próprio e atendimento de excelência; a visibilidade e o engajamento de clientes exigem forte presença digital, estratégias de marketing eficazes e promoções bem planejadas; a gestão da loja demanda atenção e cuidado diários para manter as peças bem-selecionadas, limpas e em perfeito estado de apresentação; e, finalmente, como ainda há resistência de parte do público em relação a produtos usados, é crucial reforçar constantemente o valor da qualidade, da história de cada peça e dos benefícios da sustentabilidade”, analisa.

Claudete conta que o ramo empreendedor não é fácil, é uma luta diária. “Eu acredito que todo mundo passa por dificuldades, não está fácil para ninguém”, diz.

Nataliê destaca que o seu principal desafio como proprietária é manter um padrão de qualidade e um estoque variado. “Acredito que hoje em dia a mídia tem sido um grande diferencial na divulgação e conscientização da moda sustentável”, cita.

Para a sócia proprietária do Cara de Nova, seus desafios estão em acompanhar a tecnologia. “Ela muda muito rápido com o tempo”, menciona.

Link da pesquisa divulgada pela Descarbonize Soluções: https://descarbonizesolucoes.com.br/blog/moda-sustentavel