Os ataques envolvendo cães, gatos e animais silvestres continuam entre as principais demandas da saúde pública de Bento Gonçalves. Somente em 2024, o atendimento antirrábico registrou 470 ocorrências envolvendo cães. Em 2025, mesmo com dados ainda parciais, já que o ano epidemiológico do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) encerra apenas em março, o município contabiliza 363 casos. A avaliação é da Vigilância Epidemiológica, que considera o cenário dentro do esperado, mas ainda preocupante.

A Vigilância Ambiental também acompanha atentamente os registros envolvendo outros animais. Em 2024 foram 133 ataques de gatos, e em 2025, 105. Para o coordenador do setor, Dener Salvador, há um conjunto de ações contínuas para tentar reduzir essas estatísticas. “Um dos pilares do setor do Bem-estar Animal, é a castração de cães e gatos. O departamento também realiza atendimento de denúncias de maus-tratos e de manutenção inadequada de animais, que muitas vezes resulta na agressividade que causa atendimentos de pessoas na saúde pública”, explica.

Dados da Vigilância Epidemiológica

Além dos pets domésticos, a cidade registra ocorrências envolvendo morcegos, gambás e até macacos. “A interação do ser humano com animais silvestres é cada vez maior na medida que a urbanização avança e áreas de mata são invadidas para construção de casas e abertura de ruas. Assim, animais que permanecem nessas áreas tendem a aparecer mais na cidade, causando um maior número de acidentes como mordidas e arranhões que levam ao atendimento antirrábico nas unidades de saúde”, explica Salvador.

Segundo ele, sempre que possível, os animais envolvidos em acidentes são observados, e as vítimas passam por avaliação imediata. “São encaminhados para tratamento de prevenção à raiva (vacinação). Amostras animais são encaminhadas ao laboratório de referência para identificação de possíveis casos positivos de raiva, para que posteriormente se realize o trabalho de controle de foco, se necessário”, detalha.

Os atendimentos de maior risco, envolvendo serpentes, escorpiões, abelhas e aranhas, também entram na rotina das unidades de saúde. Letícia Biasus, do setor de Vigilância Epidemiológica, explica que a gravidade é definida caso a caso no momento do atendimento. “O que temos é o número absoluto. A rede é UPAs, hospital, unidades de saúde, se necessário o CIT em Porto Alegre”, afirma.

Mapeamento e prevenção em andamento

Embora não haja um mapa oficial amplamente divulgado, a Vigilância Ambiental identifica áreas com maior incidência de acidentes. “Localidades mais densamente povoadas e com menor espaço entre residências para acomodar animais, que muitas vezes acabam ficando soltos (animais semidomiciliados), acabam tendo o maior número de casos”, pontua Salvador.

A prevenção também passa pela educação, especialmente entre crianças. “Nas palestras oferecidas nas escolas para crianças até a terceira série, o assunto é abordado para que elas tenham a posse responsável dos seus animais de estimação, evitando os maus-tratos e o manejo inadequado que leva a acidentes, não porque o animal é ruim, mas porque precisa se defender”, explica. As ações incluem cartilhas educativas que ensinam a evitar ataques e a não interagir com animais silvestres.

No caso de animais peçonhentos, o trabalho envolve identificação e orientação. “A vigilância ambiental faz a orientação aos munícipes sobre como evitar na sua residência ou arredores as condições favoráveis para procriação ou alojamento de animais peçonhentos”, afirma o coordenador.

Vacinação e reforço na vigilância

Sobre vacinação antirrábica, Salvador lembra que não há campanhas públicas em massa no Estado há décadas. “Desde 1996, pois o Estado é considerado livre de raiva canina e felina. Porém, os munícipes são orientados a realizarem a vacinação anualmente”, diz.

Mesmo com a expressiva demanda anual, a prefeitura não relaciona o problema a falta de estrutura, mas ao comportamento humano. “A grande maioria dos acidentes com cães e gatos acontece com animais conhecidos, na própria residência ou arredores, o que indica que há um manejo inadequado dos animais”, afirma Salvador. Para enfrentar esse cenário, o município prepara reforços. “Fiscalização de animais soltos ajudam na diminuição de agravos. Há a previsão de contratação de mais fiscais sanitários e de pessoal para implementar os trabalhos de educação e sensibilização da população para o ano que vem”, confirma.

Capacitações também têm sido frequentes. “Recentemente, no mês de outubro, ocorreu um treinamento dos agentes de endemias sobre animais peçonhentos, onde eles aprenderam a identificar várias espécies e também aprenderam sobre seus ciclos de vida. O treinamento foi realizado pelo CIT e Centro Estadual de Vigilância em Saúde. As ações permitem uma vigilância adequada para levar a uma menor incidência de zoonoses”, relata.