Sinistros registrados em Bento Gonçalves vem crescendo e preocupa o Corpo de Bombeiros Militar. Entre 1º de janeiro e 30 de setembro de 2025, foram 214 registros para 181 ocorrências, contra 186 para 154 no mesmo período de 2024, um aumento de aproximadamente 18%, segundo dados do sistema E193, plataforma oficial da corporação. Os registros são maiores pela contagem de veículos deslocados, em contraste com as ocorrências. “Observa-se que a média de ocorrências na região permanece elevada em comparação a outros municípios de porte semelhante”, afirma o 2º Sargento, Pablo Moreira, do Corpo de Bombeiros Militar de Bento Gonçalves.
Segundo ele, os incêndios envolvem desde residências e empresas até vegetação e lixo urbano. “Reforçamos o princípio de que o incêndio acontece onde a prevenção falha. Muitos dos sinistros de maior proporção poderiam ter sido evitados com medidas simples”, destaca.
Crescimento nas áreas urbanas
De acordo com o Sargento, a maior parte dos incêndios tem caráter urbano, envolvendo residências, edificações comerciais e containers de lixo. “Em áreas industriais e rurais ocorrem em menor escala, mas também exigem atenção constante”, pontua.

Os registros, segundo ele, estão distribuídos de forma uniforme pelos bairros do município, sem concentração em uma região específica. As variações dependem, sobretudo, das condições climáticas e comportamentais de cada período.
Fatores humanos ainda predominam
Embora as altas temperaturas, a baixa umidade e os ventos intensos contribuam, a ação humana segue sendo a principal causa dos incêndios urbanos e florestais. “Muitos deles decorrem de negligência, imprudência ou até intencionalidade”, alerta Moreira.
Ele cita as queimadas ilegais para limpeza de terrenos, o descarte incorreto de bitucas de cigarro, fogueiras e churrascos em locais inadequados, queima de lixo a céu aberto, falta de manutenção em redes elétricas e o uso indevido de fogos de artifício ou balões entre as causas mais comuns. “Em resumo, a maior parte dos incêndios resulta da ação humana direta ou indireta. A prevenção e a educação ambiental são fundamentais para reduzir estes números”, reforça o sargento.

Prevenção e conscientização
O Corpo de Bombeiros tem intensificado as ações educativas junto à comunidade. “Desenvolvemos palestras, visitas técnicas, programas comunitários e campanhas preventivas. Nosso objetivo é aproximar a população e transmitir conhecimentos sobre segurança contra incêndios, acidentes domésticos e demais situações de risco”, explica.
Para evitar incêndios, ele orienta: “Evitem o uso de fogo em limpezas de terrenos, mantenham instalações elétricas revisadas e adotem hábitos seguros no dia a dia”.
Segundo Moreira, a população exerce papel fundamental no apoio às operações. “Algumas atitudes positivas incluem: fornecer informações claras e precisas ao acionar o número 193; facilitar o acesso das viaturas e colaborar na sinalização do local; respeitar o isolamento e as orientações das equipes; e, caso queira auxiliar, perguntar ao comandante da operação qual a forma mais segura de fazê-lo, sem interferir na estratégia de combate. Nosso objetivo é comum: resolver o problema da forma mais rápida e segura possível”, salienta.
O combate a incêndios exige preparo técnico, físico e emocional constante. “Nossa tropa realiza treinamentos regulares e busca aprimoramento contínuo em técnicas de combate, salvamento e gestão de emergências. Também buscamos ampliar o efetivo para oferecer um atendimento cada vez mais eficiente. Cada segundo faz diferença, e nosso compromisso é com a vida, o patrimônio e o meio ambiente”, pontua.
“O aumento é multifatorial”, diz comandante Kist
O Comandante da 3ª Companhia Especial de Bombeiros Militar de Bento Gonçalves, Gustavo Kist, também chama a atenção para o aumento nas ocorrências. Ele reforça que a ausência de manutenção está entre as causas. “A gente percebe que há falta de cuidados básicos, como o uso de churrasqueiras e lareiras próximas de materiais combustíveis, como sofás e poltronas. Uma fagulha pode virar uma tragédia”, afirma.

Kist também mencionou um caso emblemático que aconteceu recentemente: o primeiro incêndio envolvendo um veículo elétrico na região Sul do Brasil, registrado em Santa Maria. “Ocorreu uma instalação irregular. Há uma norma técnica, a NBR 1710, que regula o carregamento desses veículos. No caso, o cidadão deixou essa base dentro do carro, o que causou superaquecimento e ignição”, alerta.
Novos materiais, novos riscos
O Comandante destaca que o perfil dos incêndios mudou nos últimos dez anos. “Cada vez mais utilizamos materiais derivados de petróleo, como espumas e isolantes térmicos. Esses produtos têm ignição muito rápida quando expostos ao calor”, revela, reforçando ainda os cuidados básicos com equipamentos domésticos. “Uma fritadeira esquecida ligada, panela, tudo isso pode causar incêndios. Às vezes a pessoa, ao ver o fogo, tenta apagar com água e acaba se queimando ou espalhando as chamas, piorando a situação”, diz.
Segundo Kist, o Corpo de Bombeiros já conseguiu evitar sinistros após moradores ligarem avisando que haviam esquecido algo ligado em casa. “Conseguimos agir a tempo em muitos casos. Mas é fundamental que as pessoas fiquem atentas”, evidencia.
Estrutura
Apesar do aumento das ocorrências, a estrutura local segue preparada. “O Corpo de Bombeiros de Bento Gonçalves dispõe de efetivo treinado e equipamentos adequados para o atendimento eficiente das ocorrências em toda a área de responsabilidade. Mantemos uma rotina constante de manutenção, inspeção e treinamento operacional, garantindo pronta resposta a qualquer tipo de sinistro”, conclui Moreira.