Estudo nacional aponta baixos índices em participação política feminina e alta taxa de feminicídios
Bento Gonçalves foi classificada como uma das piores cidades do Brasil para ser mulher, segundo o estudo “Piores Cidades Para Ser Mulher”, desenvolvido pela consultoria socioambiental Tewá 225. O levantamento analisou 319 municípios com base nos dados do Índice de Desenvolvimento Sustentável das Cidades (IDSC), avaliando o cumprimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), com ênfase no item “Igualdade de Gênero”.
Com nota 37,63, Bento ficou na 220ª posição do ranking, refletindo um cenário de grandes desafios para a equidade de gênero no município. Apenas um dos cinco indicadores analisados obteve nota considerada “muito alta”: o número de mulheres entre 15 e 24 anos que não estudam nem trabalham. Os demais, presença de vereadoras na Câmara Municipal, desigualdade salarial entre homens e mulheres, diferença percentual entre jovens que não estudam nem trabalham, e taxa de feminicídio, variaram entre os níveis “muito baixo”, “baixo” e “médio”, posicionando a cidade como de desempenho “muito baixo” na média geral.
Em 2024, quando o estudo foi realizado, Bento Gonçalves não contava com nenhuma mulher entre os 17 vereadores da Câmara Municipal. Atualmente, apenas duas mulheres ocupam cadeiras no Legislativo.
Para a advogada e professora Melissa Demari, é essencial entender os critérios avaliados para compreender o lugar ocupado por Bento no ranking:
“Dentre esses indicadores, Bento aparece como um bom patamar no tocante a mulheres jovens de 15 a 24 anos de idade que não estudam nem trabalham. E aparece, na média, com a questão da desigualdade de salário por sexo e também diferença de percentual entre jovens, mulheres e homens que não estudam nem trabalham. Mas Bento ficou muito mal avaliado em dois critérios que são presença de vereadoras na Câmara Municipal e taxa de feminicídio”, aponta.
A presença reduzida de mulheres no Legislativo, segundo Melissa, está diretamente ligada à sobrecarga enfrentada pelas mulheres, que acumulam funções no trabalho e nos cuidados com a casa e a família.
“As mulheres basicamente são designadas socialmente para cuidar da casa, cuidar das crianças, cuidar dos idosos, e cuidar de toda a estrutura que faz a vida seguir e a economia girar. […] Hoje, elas acumulam essa função, junto com a necessidade de contribuir para o sustento familiar. Quando elas fazem isso, elas não se liberam para estudar mais, elas não conseguem se liberar para cuidar da carreira […] e elas não conseguem construir uma espécie de trajetória social”, explica.
Melissa também destaca a insuficiência de políticas públicas voltadas à participação feminina na política:
“Em que pese a legislação hoje, prever que os partidos políticos tenham que ter pelo menos 30% de candidatas mulheres nos pleitos eleitorais, isso, na verdade, é uma coisa para inglês ver, né? Porque não há investimento efetivo dos partidos em torno da candidatura dessas mulheres.”
Outro dado preocupante para o município é a taxa de feminicídio. Em 2024, Bento Gonçalves registrou dois casos, e até agosto de 2025, o número já se repete, somando dois novos feminicídios no ano. Melissa reforça que o assassinato de mulheres é expressão de uma cultura machista estrutural.
“Quando um homem mata uma mulher, não é só um homem matando uma mulher. Isso é a expressão, na prática, de uma sociedade que vê as mulheres numa posição de subalternidade. […] Ela tem que estar sujeita aos desejos do homem, às políticas masculinas, às intervenções masculinas, aos comandos masculinos”, afirma.
Ela também ressalta a vulnerabilidade enfrentada por mulheres em situação de violência doméstica, especialmente aquelas em maior situação de pobreza:
“Uma mulher de classe média, branca, por exemplo, que sofre violência doméstica, ela tem condições materiais de sair daquele cenário. […] Entretanto, uma mulher pobre e negra não tem condições sequer materiais de fazer isso, porque ela tem uma dependência financeira.”
Para Melissa, tanto a baixa presença de mulheres na política quanto a violência de gênero estão diretamente relacionadas à educação.
“Quanto mais as mulheres estudam, mais elas têm condições de ascender na sua carreira, se capacitar e ganhar liberdade financeira, que depois, lá em relação ao feminicídio, por exemplo, vai contribuir para que elas possam sair desse universo de violência.”
Ela também observa a ausência de uma política pública ampla no município voltada à igualdade de gênero:
“Me parece que nós temos algumas iniciativas isoladas, porém, não enquanto política pública generalizada. […] Falta realmente algo mais efetivo e mais direcionado e politizado, no sentido de que isso seja uma política pública que parte do município.”