A adoção é, muitas vezes, um ato silencioso de coragem e amor. Na Serra Gaúcha, histórias como a de Carine Roman Casagrande, de seus pais adotivos e de pessoas como Patrícia da Silva, que aguardam ansiosamente por um filho do coração, mostram que vínculos familiares não nascem apenas do sangue, mas da escolha consciente de amar.
Uma filha do coração
Carine, hoje com 26 anos, foi adotada com apenas um dia de vida por um casal de Bento Gonçalves: Dalva Cecília Roman Casagrande e João Casagrande. Desde cedo, soube de sua origem. Para ela, a adoção nunca foi tabu, mas sim uma base sólida sobre a qual cresceu. “A memória mais linda que guardo é o amor que eles tiveram na minha infância a dedicação, lembro que minha mãe sempre me dizia que eu ‘era a filha do coração’ e isso sempre me tocou muito, e que meu pai ‘sempre afirmava que eu era filha dele’, então sempre me senti em casa, o amor é o detalhe da lembrança, das viagens que tivemos, das festas em família, e principalmente da convicção e certeza do que eles queriam”, relembra com emoção.
Para ela, seus pais são os alicerces. “Sempre me deram muito amor, carinho e suporte. Tivemos e temos muitos momentos bons”, reforça.
Na adolescência, surgiu a curiosidade sobre a origem biológica, mas Carine escolheu seguir outro caminho: “Conheço um pouco sobre a minha história, como ocorreu, quem intermediou a situação e as condições de vida da minha mãe biologia. Atualmente não conheço ninguém, apenas busquei meu processo de adoção junto ao Fórum para entender melhor. No início foi muito difícil entender o que era a adoção ou os motivos que levavam a isso”, revela.

Toda criança adotada já possui uma perda dentro de si, confusões e perguntas. Muitas delas acabam tendo dificuldades para entender, então tudo é colocado à prova, os sentimentos de valorização, abandono, insegurança, os primeiros amores, tudo se torna diferente, pois perguntas sempre existirão, como destaca Carine. “Com muita terapia e perseverança, aprendi a abrir mão de algumas perguntas que não tem resposta para poder seguir adiante”, frisa.
Sobre preconceitos é difícil afirmar que não houve, como ressalta ela. “Até porque tem muitas piadinhas que circulam de ‘você é adotado’, precarizando o intelecto. Passar por algo mais grave até hoje não me aconteceu, mas, já presenciei situações onde as opiniões incitavam a busca por essas informações e frases como ‘se eu fosse você gostaria de conhecer meus pais’. Hoje lido super bem com estas decisões, não busco saber mais quem me gerou, acredito muito na evolução das pessoas e que se houve algum motivo por mais ruim que seja para ter colocado uma criança na adoção, esta ainda foi a melhor das decisões”, afirma.
Para outras crianças e jovens adotados, Carine deixa um recado potente. “Se amem acima de tudo, que o problema que aconteceu antes não é a sua responsabilidade, muito menos algum senso de urgência. Dúvidas e curiosidades podem ser sanadas se você se sentir bem e confortável. Mas acima de tudo diria para todas estas crianças e jovens acreditarem no seu futuro, que uma família é onde a gente se sente bem e cuidado, que pai e mãe vários vão querer ser e sempre existirá alguém em algum futuro que irá ser seu lar”, conclui.

Os pais adotivos de Carine, hoje com mais de 70 anos, lembram com emoção o momento em que pegaram a filha nos braços. “Parecia que tinha nascido da gente. Desde o primeiro dia eu dizia que ela era filha do coração da mãe. Foi uma alegria muito grande. Me senti realizada”, conta a mãe, emocionada.
O casal enfrentou medos no início do processo. “Rezávamos muito para que ninguém viesse nos tirar ela. Nós sempre queríamos ter um filho, mas aí optamos por adotar. Fiquei nove meses com a Carine antes do juiz dar o resultado de rejeição da mãe biológica e ter a certeza de que poderia ficar com ela”, lembra, referindo-se ao período de guarda provisória. Com o tempo e o apoio familiar, o medo deu lugar a um vínculo forte e amoroso. “Criamos ela com carinho, do nosso jeito, com muito suporte. Sempre fizemos o possível para dar o melhor dentro das nossas possibilidades”, conta.
Segundo ela, o casal recebeu apoio familiar. “A família e os amigos ajudaram. Minha mãe e avó foram as que mais me incentivaram”, salienta.
Sobre o preconceito, Dalva garante: nunca sentiram. “Quem quisesse pensar o contrário, que pensasse. O importante é que eu tinha adotado a Carine”, diz.

Dalva reforça para que mais pessoas adotem. “Quem não tem, adote. Tem muita criança passando fome e quando nos apegamos, parece que nascem da gente mesmo. Pais são aqueles que criam. A responsabilidade deles é ensinar e dar suporte”, afirma.
Hoje, os pais de Carine sentem muito orgulho da filha. “Ela trata bem as pessoas, se dá com todos. Nunca foi rebelde e sempre procura ajudar os que precisam”, finaliza Dalva.
À espera de um filho do coração
Patrícia da Silva, professora de 42 anos, também de Bento Gonçalves, está no aguardo de uma criança. Casada há 22 anos e mãe biológica de um adolescente de 15 anos, ela e o marido decidiram aumentar a família por meio da adoção. “É o desejo de amar e cuidar de uma criança que precisa de um lar e de uma família. Já temos um filho, mas queremos aumentar a família. Meu marido tem outras duas filhas do primeiro casamento também”, afirma.
O casal já está inscrito no Cadastro Nacional de Adoção e passou por avaliações sociais e psicológicas. Apesar de reconhecer que o processo pode ser burocrático, Patrícia acredita que tudo é válido para garantir a segurança da criança. “Foi necessário reunir e apresentar documentação específica, como certidão de casamento e comprovante de residência. Passamos por uma avaliação psicológica e social para entender melhor nossas motivações e capacidade para adotar”, afirma.
Ela busca uma criança entre zero e cinco anos, preferencialmente sem irmãos e com saúde estável. “Queremos proporcionar um lar com vínculo forte e muito amor. A adoção é um dos atos mais lindos que pode haver. Alguém escolher resgatar uma vida rejeitada, é puro amor”, revela.

Sobre as expectativas em relação à chegada da criança esperada, Patrícia pontua que espera proporcionar um lar seguro. “Sabemos que haverá desafios, mas também estamos preparados para aproveitar as oportunidades de crescimento e aprendizado. Buscamos informações sobre adoção para entender melhor os preconceitos que podemos enfrentar, mas não quero ficar me preocupando com isso, creio que o amor e a dedicação que ofereceremos à criança será a chave para superar qualquer coisa”, destaca.
Ela passa uma mensagem final para outras pessoas que também desejam adotar: “Se você está pensando em adotar, abra seu coração e considere a possibilidade de proporcionar um lar amoroso e estável para uma criança. Acredite no poder do amor e na capacidade de criar uma família unida e feliz, independentemente da forma como ela é formada. A adoção é um ato de amor e generosidade que pode mudar a vida de uma criança para sempre. Filhos do coração, é no coração onde geramos, durante à espera e a expectativa pela adoção. Deus nos deu essa capacidade de amar aqueles que não geramos, mas escolhemos”, conclui, ressaltando que sua sogra também adotou e se tornou mais realizada.
Realidade e desafios na Serra Gaúcha
O processo de adoção, no Brasil e na Serra Gaúcha, ainda é permeado por desafios. Segundo dados disponíveis publicamente no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), que é gerido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), há 32.805 pretendentes habilitados para adoção no país e 5.339 crianças e adolescentes para adoção. No Rio Grande do Sul há 3.188 pretendentes ativos e 589 crianças e adolescentes disponíveis para adoção. No Estado, 3.985 crianças e adolescentes foram acolhidos e no país 34.408.
A maioria dos pretendentes procura perfis muito específicos, como bebês saudáveis e sem irmãos, o que contrasta com o perfil da maioria das crianças acolhidas, muitas vezes mais velhas, com irmãos ou com algum tipo de condição de saúde.
Na região, o tema da adoção tem ganhado novos contornos. Se antes a maioria das famílias interessadas restringia seus desejos a recém-nascidos, hoje cresce o número de adotantes dispostos a acolher crianças mais velhas, grupos de irmãos e adolescentes. A mudança, segundo a psicóloga Rejane Comin, que atua há quase 15 anos com a pauta da adoção na região, está diretamente ligada ao trabalho dos grupos de apoio e à conscientização das famílias sobre o que significa, de fato, adotar. “Percebo que os casais e pessoas que buscam a adoção estão ampliando a compreensão sobre o que significa adotar. Hoje é mais raro ouvirmos alguém sugerir a separação de irmãos, por exemplo. Isso mostra um amadurecimento no olhar”, destaca Rejane.

A profissional também aponta que a região acompanha as tendências nacionais: há muitas crianças acolhidas que não se enquadram no perfil mais desejado, e um descompasso entre quem está disponível para adoção e o que os pretendentes buscam. Mesmo assim, há melhorias. “Acredito que esse avanço se deve, em grande parte, ao trabalho dos grupos de apoio à adoção, que desenvolvem ações contínuas de escuta, acolhimento e orientação. Essa mudança de olhar é um passo fundamental para garantir que mais crianças e adolescentes encontrem uma família com quem possam construir uma nova trajetória de pertencimento e afeto. Outro aspecto importante foi a implementação de políticas públicas para criança e adolescente, bem como o envolvimento do sistema de justiça que tem investido em formações, articulações intersetoriais e no fortalecimento do Cadastro Nacional de Adoção, agora unificado no Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA)”, ressalta.
Grupos de apoio e instituições
A Serra Gaúcha conta com iniciativas fundamentais que ajudam a moldar uma nova cultura de adoção. Rejane cita o Instituto Filhos, de Caxias do Sul, ativo desde 2007, e o Grupo DNA da Alma, fundado por ela e por uma assistente social em Farroupilha, como referências nesse processo. Além disso, a Casa Lar Pe. Oscar Bertholdo, também em Farroupilha, é apontada como uma instituição de acolhimento que oferece estrutura e cuidado enquanto os processos legais seguem seu curso. “Desde sua fundação, o DNA da Alma realiza encontros mensais com pretendentes à adoção, e muitos municípios já utilizam essas reuniões como parte da preparação oficial para a habilitação. Isso mostra a seriedade e a confiança no trabalho realizado”, explica Rejane.
A lentidão dos processos
Apesar dos avanços, a psicóloga alerta para os entraves ainda presentes na realidade da adoção. Um dos mais graves é o tempo prolongado que muitas crianças passam em abrigos. “O número de acolhimentos longos e a dificuldade de destituição do poder familiar em alguns casos são desafios. Estamos falando de uma situação muito mais complexa, que tem início no sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente. Se tivesse que escolher um dos principais entraves dessa realidade, eu apontaria o tempo de permanência nos serviços de acolhimento, atrelado, muitas vezes, as tentativas insistentes e infrutíferas de reintegração familiar, como também a morosidade no processo de destituição do poder familiar”, informa.
Segundo ela, o processo de destituição do poder familiar, etapa necessária para que uma criança possa ser adotada, muitas vezes é lento e sobrecarregado por entraves jurídicos e tentativas infrutíferas de reintegração com a família de origem. “Esse atraso impacta diretamente na vida emocional dessas crianças também. A ausência de vínculos afetivos estáveis e duradouros pode comprometer a formação da autoestima, da confiança e da capacidade de se vincular a outras pessoas. Na maioria das vezes, elas vivenciaram situações de negligência, abandono ou foram submetidas a múltiplas violências, e a institucionalização prolongada pode intensificar sentimentos de insegurança, medo, rejeição e desamparo”, avalia.
O Brasil também garante o direito à adoção para pessoas solteiras e casais homoafetivos. Para Rejane, esse direito tem sido cada vez mais reconhecido. “Casais do mesmo sexo e pessoas solteiras têm adotado com mais frequência. Mas isso não significa que o preconceito tenha desaparecido. Em alguns contextos, ainda há barreiras subjetivas e julgamentos morais. Por isso, os grupos de apoio são essenciais para acolher e fortalecer essas famílias”, reforça.
Vitória Viel Gujel, professora de Direito da Faculdade Cenecista de Bento Gonçalves destaca que o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de 1990, foi um divisor de águas na proteção dos direitos da criança e do adolescente no Brasil, incluindo o direito à convivência familiar. “Ainda, quanto ao processo de adoção, o ECA acabou dando prioridade para a família natural, ou seja, que a colocação do menor em uma família substituta é uma medida excepcional, a ser aplicada somente quando esgotadas as possibilidades de manutenção na família”, informa.

A professora destaca uma forma de adoção ilegal que acontece ainda no país, a chamada adoção “à brasileira”. “É uma prática ilegal que consiste em registrar uma criança como se fosse seu/sua filho (a). Muitas vezes, esse ‘procedimento’ é feito para evitar burocracia, mas o que as pessoas esquecem é que tal prática é considerada crime (art. 242 do Código Penal) e traz diversos riscos para a criança e para a família envolvida”, comenta.
No entanto, atualmente o Tribunal do Estado do Rio Grande do Sul desenvolveu um aplicativo (App Adoção) para dar maior visibilidade para crianças e adolescentes nesta fase de adoção. Já o Ministério Público, segundo a docente, atua como fiscal da lei, zelando pelos direitos da criança e do adolescente. “Ele acompanha todo o processo de adoção, desde a habilitação dos pretendentes até a sentença final, garantindo que todas as exigências legais sejam cumpridas. Já a Vara da Infância e da Juventude, é o próprio órgão do Poder Judiciário responsável por julgar os processos de adoção. O juiz da Vara da Infância analisa o caso, ouve as partes envolvidas, colhe provas e decide sobre a adoção, sempre buscando o melhor interesse da criança”, finaliza Vitória.