A 34ª Feira do Livro Infantil de Bento Gonçalves recebeu este ano uma figura de destaque no cenário da literatura e contação de histórias: Beatriz Myrrha. Conhecida por sua trajetória multifacetada como escritora e contadora de histórias, assumiu a honrosa posição de patrona do evento, trazendo consigo uma vasta experiência e um olhar sensível sobre o papel transformador da literatura na vida das crianças. A escolha, segundo a própria patrona, foi uma alegria incrível e uma surpresa que ela não esperava.
A autora revelou que a notícia veio durante uma reunião online, com a coordenadora do evento. “Foi uma alegria incrível, porque a minha carreira é de contadora de histórias”, afirma Beatriz, destacando que, apesar de suas várias publicações, sempre foi mais reconhecida por sua habilidade em narrar contos. O reconhecimento como escritora e a percepção de que suas obras são lidas pelas crianças e trabalhadas pelas escolas preencheram-na de uma satisfação imensa. Contudo, a alegria veio acompanhada de uma responsabilidade gigante. Beatriz entende que a forma de expressar sua gratidão é “sendo responsável, mais responsável, fazendo o meu máximo”.
Da intuição à palavra escrita

Beatriz descreve o processo de criação de suas obras como algo lúdico e muito intuitivo. Cada livro carrega uma história particular sobre sua gênese. Seu primeiro livro, “Pitulu”, por exemplo, surgiu da sua formação em música e teatro e do desejo de criar uma narrativa sobre a primeira música do mundo para crianças pequenas, partindo de uma experiência em uma escola tradicional. “A obra explora a ideia de uma criança que, ao tentar se comunicar antes da existência das palavras, começa a cantar, dando origem à música”, explica.
Outra obra notável, “A Tartaruga e o Coelho”, foi concebida a partir de uma demanda educacional para um projeto de educação para o trânsito. Beatriz percebeu a necessidade de abordar a conexão das crianças com seus próprios corpos e a humanidade, que, em sua visão, está cada vez mais distanciada. “As pessoas mal veem, muito menos ouvem, muito menos sentem o cheiro das coisas. Nós estamos cada vez mais distanciados da nossa humanidade e do nosso corpo”, pondera. O livro, embora tenha sido desenvolvido com essa premissa, também abriu espaço para interpretações sobre inclusão, com a personagem da tartaruga cega que pede ajuda a um coelho apressado e mal-humorado para uma viagem, transformando-o através da compaixão e solidariedade.
Já “O Baobá” é uma lenda africana que Beatriz adaptou após extensa pesquisa. A autora se apaixonou por duas lendas para contar e, a partir de dados científicos sobre a árvore do Baobá, criou sua própria versão. A publicação do livro veio da sua vontade de produzir um trabalho com temática afrodescendente, como uma homenagem aos povos que, “carregam a África na pele e na alma e em um movimento antirracista pessoal”, afirma. A obra, que ganhou um projeto gráfico e ilustrações ricas, tem lhe trazido muita alegria, muito contentamento.
Beatriz revela que algumas histórias, como “Pitulu” e “A Tartaruga e o Coelho”, surgiram inteiras em sua imaginação. A dificuldade, segundo ela, residiu em traduzi-las para a palavra escrita, considerando sua primazia como contadora de histórias. Um exemplo de dedicação intensa é o livro “Depois do Sol”, que a autora levou anos para escrever. A obra é uma homenagem a um grande amigo, o educador social Tião Rocha, presidente de uma ONG que há 40 anos tem um impacto significativo na vida de milhares de crianças. Incapaz de escrever a história de Tião de forma convencional, Beatriz o transformou em “um fio de voz que nasce da coroa de uma estrela rainha, pelo amor do sol, inspirada na tia rainha de Congado de Tião e sua jornada para se tornar antropólogo”, explica. Esse livro, em particular, foi um trabalho intenso com a linguagem, a poética, a sonoridade e as imagens, demonstrando o cuidado e a profundidade de seu processo criativo.
O papel da literatura infantil na era digital

Questionada sobre o papel da literatura infantil no cenário atual, marcado pelo avanço da tecnologia e o acesso precoce a smartphones, Beatriz defendeu veementemente a importância do livro. Para ela, a literatura permite à criança entrar em contato com o próprio mundo, com o seu próprio interior. Ela observa que muitas crianças não conseguem compreender seus sentimentos ou se situar no mundo. “Na minha infância a literatura me ajudava a entrar em contato comigo mesma, com os meus sentimentos, a expressar aquilo que eu queria viver, o que eu precisava”, afirma.
“Além de ser uma ferramenta de autoconhecimento, a literatura amplia a nossa capacidade imaginativa, amplia a nossa capacidade linguística”, reflete. Ela argumenta que a resolução de problemas depende de uma mente imaginativa e da capacidade de expressão.
A patrona também fez uma crítica contundente à velocidade imposta pelas telas. “A tela não respeita o tempo necessário para que a criança vire a página ou aprecie uma imagem. É tudo muito rápido. O tempo do humano é um tempo de um processo. Nada acontece no botão, num click, numa digital”, pontua, ressaltando que essa pressa leva à perda da capacidade de concentração e de esperar o tempo.
Beatriz também salienta a segurança que um livro oferece em contraste com a internet. “É muito melhor para uma criança ter um livro na mão do que ter uma tela na mão. Já que a internet é terra sem lei”, afirma.
A patrona defende que a criança não deve ter acesso a algo pelo qual não pode ser responsável. Assim como uma criança não pode cozinhar ou mexer com fogo por não ter capacidade de defesa, o mesmo se aplica ao ambiente online, onde as “queimaduras” podem ser permanentes. “A gente precisa pensar mais nas coisas, sair do modismo, sair das ondas do que dizem e do que vendem para ficar mais humano e buscar a simplicidade”, afirma.
Memórias de Bento Gonçalves

Ao final da entrevista, Beatriz compartilhou as memórias que levará de Bento Gonçalves. “O afeto e o carinho que recebi foram algo extraordinário, bem como a beleza da cidade de Bento e a história que essa cidade carrega”, finaliza. A releitura de seus contos por parte das escolas proporcionou-lhe uma nova visão das próprias histórias.
Memórias de Bento Gonçalves
Ao final da entrevista, Beatriz compartilhou as memórias que levará de Bento Gonçalves. “O afeto e o carinho que recebi foram algo extraordinário, bem como a beleza da cidade de Bento e a história que essa cidade carrega”, afirmou. A releitura de seus contos por parte das escolas proporcionou-lhe uma nova visão das próprias histórias.