A infância e a adolescência deveriam ser tempos de descoberta e alegria, mas, para um número crescente de jovens, elas têm sido marcadas por uma dor profunda e silenciosa. O aumento dos casos de autoagressão, o ato de se ferir intencionalmente, mas sem a intenção de tirar a própria vida, como cortes ou queimaduras, liga o sinal de alerta de que algo não vai bem.

Situação em Bento Gonçalves
De acordo com a secretária municipal de Educação, Andrezza Peruzzo, a rede municipal de ensino dispõe de um processo formal para o registro desses casos. “Sempre que há uma situação de autoagressão identificada na escola, o caso é registrado por meio de um Comunicado de Violência e encaminhado para diferentes órgãos de proteção e apoio: a CORES (Central de Orientação Restaurativa Escolar), a DEAM (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) e o Conselho Tutelar”, explica.
Ela destaca que há pessoas específicas nas escolas preparadas para lidar com essas situações, que recebem cursos e treinamentos constantes, principalmente nos últimos anos. “É importante ressaltar que toda a rede de apoio está atenta e realiza procedimentos conforme o tipo de violência que ocorre dentro e fora das escolas, dependendo também da faixa etária do aluno”, acrescenta.
Segundo a secretária, “a escola é responsável pelo primeiro acolhimento, pela observação de sinais comportamentais e pela comunicação imediata aos órgãos de apoio. Essa sistematização permite uma resposta mais ágil e integrada diante de situações de risco”.
Nos últimos meses, o município intensificou as formações para gestores e professores. “Neste ano, iniciamos em agosto palestras no formato escola de pais, disponibilizando profissionais especializados para todas as escolas da rede municipal. Nessas ações, conversamos com as famílias sobre bullying, cyberbullying e outros assuntos ligados à saúde emocional das nossas crianças e adolescentes”, relata Andrezza.
Ainda em agosto, por meio de uma parceria entre as secretarias de Educação, Assistência Social e Segurança, foram iniciadas formações sobre autoagressão e agressor ativo, destinadas a todos os gestores e professores da rede municipal e também das escolas particulares credenciadas. “Para 2026, o trabalho continuará com maior intensidade, porque entendemos que a formação contínua dos profissionais da educação é fundamental para identificar precocemente os sinais de sofrimento e saber lidar com eles de forma adequada, respeitosa e acolhedora”, afirma.
Outro ponto enfatizado pela secretária é o trabalho em rede. “Contamos com parceiros que realizam, de forma voluntária, conversas de acolhimento junto aos alunos, fortalecendo o cuidado e o apoio dentro das escolas”, completa.
O envolvimento da família também é apontado como etapa essencial do processo de acolhimento de estudantes com comportamentos autoagressivos. “O sucesso dessa aproximação varia conforme a receptividade e o nível de compreensão da família sobre o problema. Em alguns casos, os responsáveis demonstram resistência ou desconhecimento em relação à gravidade da autolesão, o que pode dificultar o processo de ajuda”, observa Andrezza.
A secretária reforça que a parceria entre escola, família e rede de proteção é determinante para o acompanhamento adequado. “Em nossas ações, buscamos fortalecer essa articulação, pois ela é crucial para garantir um atendimento efetivo e contínuo aos estudantes que apresentam sinais de sofrimento”, destaca.
Por meio do Programa Saúde na Escola, Bento Gonçalves também promove ações de prevenção desde a educação infantil. “A inclusão de temas como autocuidado, empatia, resolução de conflitos e bem-estar emocional fazem parte das ações escolares, sendo uma estratégia que pode fortalecer a cultura do cuidado e da prevenção”, explica.
Atualmente, são registrados de um a dois casos de autoagressão por semana na rede municipal. “Percebe-se, inclusive, um aumento significativo desses casos nos últimos anos, especialmente no período pós-pandemia, indicando que os impactos emocionais da crise sanitária ainda repercutem fortemente entre os estudantes”, relata a secretária.
Segundo ela, adolescentes a partir dos 11 anos tendem a apresentar maior incidência de comportamentos autoagressivos. “Essa faixa etária corresponde, em geral, ao início do Ensino Fundamental II, período marcado por intensas mudanças físicas, emocionais e sociais. É nessa fase que muitos jovens começam a enfrentar conflitos internos mais profundos, frequentemente associados a sentimentos de ansiedade, tristeza, frustração e insegurança. Esse cenário acompanha uma tendência nacional, na qual adolescentes entre 12 e 19 anos registram os maiores índices de autolesão e sofrimento emocional”, finaliza.

Para além dos números
Longe de ser apenas um “chamado por atenção” ou uma atitude superficial, a autoagressão é uma forma desesperada que crianças e adolescentes encontram para tentar lidar com sentimentos avassaladores de ansiedade, angústia, vazio ou depressão, para os quais ainda não possuem recursos emocionais ou palavras.
De acordo com a psicóloga e mestre em Psicologia, Isadora Deamici da Silveira, esse comportamento é mais comum do que se imagina. “Os fatores vão ser vários, não apenas um só, mas entre os principais podemos pensar em: sofrimento emocional intenso, dificuldade de lidar com sentimentos e a necessidade de aliviar ou expressar angústias emocionais”, comenta.
Ela esclarece que, embora não causem a autoagressão diretamente, certas condições funcionam como fatores de risco, aumentando a chance do comportamento ocorrer. Entre eles estão:

  • Problemas familiares: conflitos constantes ou negligência emocional no ambiente doméstico;
  • Violência social: bullying presencial ou virtual, que isola e fragiliza o jovem;
  • Transtornos de saúde mental: como depressão e ansiedade, ou outros distúrbios psicológicos;
  • Pressão externa: cobrança por desempenho escolar ou social que gera estresse crônico;
  • Experiências traumáticas: histórico de abusos físicos, emocionais ou sexuais.

Sinais de atenção
Para pais e professores, é fundamental observar mudanças de comportamento em crianças e adolescentes. Entre os principais sinais de alerta estão:

  • Isolamento social;
  • Baixa autoestima ou falas autodepreciativas;
  • Irritabilidade ou mudanças de humor intensas;
  • Presença de cortes, arranhões e hematomas frequentes sem explicação convincente.

Autoagressão nem sempre é visível
Isadora alerta que existem formas diferentes de autoagressão, que vão além de cortes e queimaduras. “Pode ocorrer em comportamentos como se beliscar, coçar até machucar, se privar de comer ou dormir, deixar de participar ou até sabotar relações e atividades prazerosas como forma de punição a si mesmo. Ou seja, nem toda dor deixa marca visível. Por isso, o olhar atento e acolhedor é tão importante”, explica.

Pedido de ajuda x busca por atenção
A psicóloga reforça que, mesmo quando parece haver uma busca por atenção, a autoagressão não deve ser minimizada. “É preciso, às vezes, se perguntar o que está acontecendo para que esse jovem sinta que precisa recorrer a essa medida extrema para ter a atenção de que necessita. O foco não deve ser o julgamento, mas sim oferecer suporte adequado”, aconselha.
Ela também desmistifica a ideia de que a busca por atenção é negativa. “Muitas vezes, a autoagressão é sim um pedido de ajuda, silencioso e desesperado, que deve ser levado a sério”, completa.

Impacto na comunidade escolar
A autoagressão não afeta apenas o indivíduo. Segundo Isadora, o episódio pode gerar sentimentos de preocupação, medo e até culpa entre colegas e professores, porém, a escola pode se tornar um espaço de proteção. “Quando a instituição acolhe e orienta de forma adequada, transforma-se em um ambiente de recuperação para todos os envolvidos”, sublinha.
Nesse sentido, a psicóloga enfatiza a necessidade de colaboração entre família e escola. “Esses dois ambientes são os principais pilares para crianças e adolescentes. Quando estão alinhados, trazem mais segurança e estabilidade”, ressalta.

Orientação para os pais
Diante do diagnóstico de autoagressão, muitos pais enfrentam sentimentos de culpa, negação ou desorientação. Isadora reconhece que não há “fórmula mágica” na criação dos filhos, mas oferece um conselho essencial: “Se pudesse dizer apenas uma coisa, seria para escutarem e estarem presentes para os seus filhos”, sugere.
Ela reforça a importância de exercitar a parentalidade acolhedora, evitando julgamentos ou punições e criando um ambiente seguro para o diálogo em casa. “Não deixem de procurar ajuda profissional. Esse apoio pode ser fundamental para compreender o que está por trás do comportamento e orientar como lidar com ele”, reforça.

Fortalecimento da autoestima
Para prevenir comportamentos autoagressivos, Isadora recomenda estratégias que fortaleçam a autoestima dos jovens:

  • Educação emocional: promover conversas abertas e regulares sobre sentimentos nas escolas;
  • Espaços de escuta: criar rodas de conversa e ambientes onde o jovem se sinta validado;
  • Práticas de expressão: incentivar atividades como arte, música e esportes;
  • Reforço positivo: valorizar conquistas individuais além do desempenho acadêmico;
  • Inclusão: combater o bullying e valorizar a diversidade.
    Segundo a psicóloga, a autoestima se constrói a partir da validação, do pertencimento e do reconhecimento.

Quando procurar ajuda profissional?
A busca por atendimento deve acontecer sempre que houver sofrimento emocional significativo que comprometa a rotina. Isadora destaca que, em alguns casos, o tratamento exige acompanhamento multidisciplinar: “Alguns jovens podem precisar do trabalho conjunto entre psicólogo e psiquiatra, cada um oferecendo suporte em sua área”, finaliza.