Em uma pequena sala com poucos recursos, mas com um propósito enorme, a Associação dos Surdos de Bento Gonçalves (ASBG) iniciou sua trajetória. Fundada em 20 de outubro de 2006, a Associação, surgiu da batalha de uma mãe pelo cumprimento dos direitos constitucionais da pessoa surda, melhores condições de ensino, atendimento especializado e integração com a sociedade.

O objetivo da associação, que é assistencial e sem fins lucrativos, é atender a população de surdos, suas famílias e cuidadores, a fim de apoiar e promover seu acesso aos direitos que garantem a inclusão da pessoa com deficiência auditiva na sociedade.

A existência da ASBG visa conscientizar que pessoas surdas e deficientes auditivas fazem parte da sociedade, sem distinção, com direitos garantidos e preservados, e que, assim sendo, também podem conquistar sua independência, trabalhar, estudar, fazer uma graduação e se relacionar normalmente com a comunidade.

Associação desenvolve diversas atividades

Para Daniela Flamia, representante da comunidade surda no município e uma das figuras centrais da gestão, o mais importante sempre foi o motivo que a fez voltar à cidade e abraçar a causa: garantir que seu filho, diagnosticado como surdo ainda na infância, tivesse acesso à educação, convivência e dignidade. “Quando descobri que o Leonardo era surdo, fui embora para Porto Alegre, porque sabia que aqui ele não teria o que precisava”, conta Daniela. “Voltei em 2009 ou 2010, e fui chamada pelo então presidente Sebastião, que era motorista da prefeitura. A associação já funcionava, mas com muita limitação: uma mesa, uma cadeira, um telefone, um banheiro e alguns brinquedos”, recorda.

Desde então, muita coisa mudou. A ASBG, apesar de continuar enfrentando desafios estruturais e financeiros, se tornou um espaço essencial para a comunidade surda da Serra Gaúcha. “Hoje, a associação tem um papel fundamental na vida dos surdos. É um lugar onde eles aprendem Libras, fortalecem a identidade e têm espaço para conviver, se informar e se expressar”, afirma Daniela.
Atualmente, a ASBG conta com uma sala de aula, cozinha, dois banheiros, sala de TV e brinquedoteca, além de recepção e depósito.

Educação bilíngue e protagonismo

Segundo Daniela, a principal missão da associação é oferecer atendimento qualificado para pessoas surdas, especialmente no que diz respeito à aprendizagem da Língua Brasileira de Sinais (Libras), base da comunicação e da autonomia desse público. “As crianças surdas precisam aprender Libras primeiro para, depois, conseguir entender o português. O objetivo é esse: ensinar, fortalecer a Libras, garantir esse espaço bilíngue”, explica.

Além das aulas, a entidade também realiza encontros e palestras informativas com intérpretes de Libras, voltadas a temas como saúde da mulher e violência doméstica. “Tem mulheres que não sabiam nada sobre o próprio corpo. Agora, com as palestras, tudo pensado para elas, estão adorando. É uma ação que tem sido um sucesso”, comemora.

Inclusão, esporte e cultura

Atualmente, a associação promove eventos como a Festa Junina, o Dia do Surdo e palestras mensais ou bimestrais. Também desenvolve atividades esportivas, como o time de futsal da ASBG, que lidera o campeonato gaúcho da categoria. “Eles treinam toda semana, têm uniforme, abrigo e técnico que se comunica com eles em Libras. Esse técnico começou como voluntário e agora está incluído em um projeto do Estado”, relata Daniela.

Cursos de libras são realizados pela entidade

Outros talentos também se destacam. “Temos um dos surdos que ficou em segundo lugar num torneio de sinuca. Eles só precisam de oportunidades e acessibilidade, como qualquer pessoa”, diz.
Além disso, tem o projeto Pró-esporte, através de lei de incentivo do Estado.

A única da região

A atuação da ASBG não se limita a Bento Gonçalves. Surdos de cidades como Carlos Barbosa, Garibaldi, Veranópolis e Barão são atendidos pela associação. “Somos a única entidade da região que oferece esse tipo de acolhimento. É um trabalho pouco valorizado, infelizmente”, desabafa Daniela. A falta de inclusão em espaços públicos e privados ainda é um obstáculo. “Um cadeirante, por exemplo, fala e escuta. O surdo, não. A comunicação é a principal barreira”, exemplifica.

A acessibilidade também é um tema sensível na área da saúde. “Tivemos casos graves, como de uma surda que foi entubada com pneumonia por não entender o risco que corria. Em outro caso, o médico receitou remédio errado porque não compreendeu onde era a dor. É inadmissível”, diz.

Segundo ela, cerca de 90% dos surdos da cidade têm dificuldades de leitura e escrita em português, o que reforça a importância do ensino de Libras e da presença de intérpretes. Uma recente vitória nesse sentido foi a presença de tradutores nas sessões da Câmara de Vereadores de Bento Gonçalves, graças a uma articulação da entidade com o legislativo municipal. “Era um pedido de anos. Agora conseguimos”, comemora a representante.

Apoio e sustentabilidade

A associação conta com o apoio do poder público, por meio de projetos do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (Comdica) e da Secretaria de Esportes. Mas os recursos não cobrem todas as necessidades. “Para pagar luz, água, lanche das crianças, compra de equipamentos, fazemos ações”, explica. Entre elas, estão o Pedágio Solidário, o Jantar dos Surdos (realizado anualmente em setembro) e o Evento de Natal, onde busca-se realizar uma apresentação natalina na Língua Brasileira de Sinais para a comunidade, a fim de difundir a Libras como forma de comunicação essencial para a inclusão da comunidade surda e de pessoas com deficiência auditiva.

Entre outras ações voluntárias, destaca o curso de Libras para funcionários de secretarias da Prefeitura com o instrutor Leonardo Flamia. O curso não tem custo e objetiva melhorar o atendimento dos órgãos com a comunidade surda.

Como ajudar

Pessoas interessadas podem colaborar por meio de doações via Mercado Pago, pessoalmente na sede (Rua Augusto Geisel, 311-Juventude) ou via pix pelo CNPJ 08.435.353/0001.26. “Também temos nove voluntários atualmente. É possível contribuir com o trabalho da ASBG de diversas maneiras, seja na sede ou auxiliando em nossas ações e eventos”, afirma.

Ainda é possível para empreendedores colocar a empresa como parceira da entidade.
A contribuição é importante para ajudar a entidade a manter a qualidade dos serviços prestados.
Torne sua empresa parceira da Associação ou seja um voluntário, preenchendo o formulário disponível no site https://www.asurdosbg.com.br/como-ajudar/seja-voluntario

Um espaço de acolhimento

Mais do que um centro de apoio, a Associação dos Surdos de Bento Gonçalves é um espaço de resistência e pertencimento. “A vida social do surdo não é como a dos ouvintes. Eles não se sentem à vontade em bares, festas. Aqui, eles se encontram, se sentem seguros”, afirma Daniela.
A missão da associação é garantir que cada surdo tenha acesso à sua língua, cultura, saúde e dignidade. Para isso, o trabalho segue com luta, amor e dedicação. “O que a gente faz aqui é para o futuro deles”, finaliza.