Em Bento Gonçalves e na região da Serra Gaúcha, a arte sacra não é apenas ornamentação religiosa, é memória viva da fé que moldou a história local, acompanha gerações e continua inspirando devoção. Nos templos, nos capitéis à beira das estradas e até nas casas das famílias, o sagrado permanece como expressão cultural profunda. A reportagem ouviu o padre Miguel Mosena, do Santuário Santo Antônio, e a artista sacra e empresária Priscila Marjori Zat, para entender como esta tradição se renova e se preserva.

Uma herança italiana que continua viva

Quando os imigrantes italianos chegaram à região no final do século XIX, trouxeram muito mais do que ferramentas e sonhos, vieram com a fé. Para o padre Miguel Mosena, essa herança espiritual é um dos principais alicerces do município. “A fé Católica é um dos pilares que edificaram (e ainda hoje o faz) a cidade de Bento Gonçalves. Quando os primeiros imigrantes italianos chegaram, carregavam consigo a fé em Cristo, o quadro de Santo Antônio que há mais de um século de sua intercessão ajuda nosso município e suas famílias a crescerem e se desenvolverem em todos os âmbitos da vida. Por isso, foi a Igreja que deu sentido de comunidade às famílias, pois se há algo que os trouxe até aqui foi a esperança de vencer, assim como Cristo venceu a morte na Ressurreição”, afirma.

Arte local tem ganhado público fiel

Essa devoção atravessou gerações, preservando festas de padroeiros, celebrações comunitárias e tradições que se tornaram marca cultural da cidade. Hoje, segundo o último Censo, 74% da população de Bento identifica-se como católica.

Festas, templos e a força da organização comunitária

As quatro paróquias que abrangem Bento Gonçalves mobilizam centenas de voluntários ao longo do ano. As festas de padroeiro, algumas preparadas com meses de antecedência, seguem movimentando a vida social e espiritual da cidade. “A organização das comunidades e a vida espiritual, social e cultural segue em torno disso. Evidente que ao longo dos anos outras manifestações religiosas chegaram em nossa cidade e, por isso, respeitamos muito cada uma delas que aqui existe. Graças ao bom Deus e a generosidade do povo de Bento Gonçalves, nossos templos e toda a arte e beleza que eles contêm estão em bom estado de conservação. De um modo geral, quando se organiza uma campanha para conservação e manutenção, a comunidade responde de forma muito rápida com doações e auxílios. Isso têm muito haver ainda com o sentimento de pertença à comunidade. Saber que as nossas igrejas não são do padre, mas de todas as famílias e que, com o passar do tempo, é casa de Deus e, portanto, lugar onde os irmãos e irmãs se reúnem para o devido louvor e adoração à Cristo”, explica Mosena.

José, Maria e Jesus pelas mãos da artista sacra Priscila

A Diocese também mantém uma Comissão de Arquitetura e Arte Sacra, responsável por orientar restauros e garantir que o patrimônio religioso, muitas vezes centenário, seja preservado com respeito às tradições.

Entre os elementos que o padre destaca, estão os capitéis. “Eles contam histórias de como Deus agiu na vida de tantas famílias, através da intercessão dos santos. E que bom que temos um trabalho muito bonito de conservação deles e de resgate histórico, seja com obras bibliográficas escritas sobre eles e a recente Rota dos Capitéis que ajudarão os peregrinos a fazerem uma experiência de espiritualidade e de vida comunitária com eles”, pondera.

Turismo religioso: um potencial que começa a ser explorado

Com dezenas de capelas históricas, templos preservados e manifestações de fé enraizadas, Bento Gonçalves possui, segundo o padre, um enorme potencial para o turismo religioso. “Temos muito caminho pela frente, mas manter as igrejas abertas e iniciar a Rota dos Capitéis já são passos importantes. Somos peregrinos, nosso dever é caminhar”, ressalta.

Para ele, é impossível falar da identidade de Bento sem mencionar a Festa de Santo Antônio, celebrada desde os primeiros imigrantes e ainda hoje um dos principais eventos do município.

O renascimento da arte sacra no cotidiano

Paralelamente ao movimento comunitário, cresce na região a busca por peças religiosas e restaurações. Na loja administrada por Priscila Marjori Zat, o fluxo de pessoas de diferentes idades e perfis é constante. “Elas tem a fé como algo em comum, pessoas de idades variadas, de ambos gêneros, pessoas que conhecem o Santo Terço, mas também pessoas que recentemente tem conhecido a Santa Igreja Católica por meio de Nossa Senhora, e tem buscado se aproximar da Santa Igreja, da conversão devido esse momento de tribulação que estamos vivendo. E as pessoas recebem esse chamado de Deus pela intercessão da Virgem Santíssima, e muitas já tem alcançado grandes Graças, a maioria pede imagem. A busca aumentou devido esse momento, onde as pessoas reconhecem serem pequenas demais para viverem afastadas de Deus. É como se Ele permitisse algo acontecer para que as pessoas se convertam. Se arrependam dos pecados cometidos para viver em harmonia com Deus”, conta.

Priscila Marjori Zat, empresária

Entre os itens mais pedidos estão imagens de Nossa Senhora Aparecida, Caravaggio, Fátima e das Graças, além de novos santos muito populares, como São Carlo Acutis, e os tradicionais São Bento e São Miguel Arcanjo, além de adornos para porta do Espírito Santo.

A artista é responsável tanto por pinturas quanto por restauros especializados, utilizando técnicas tradicionais, como policromia, carnação colonial, e também tendências contemporâneas, como efeitos de madeira e mármore. “Somos muito cuidadosos para aquisição dos nossos materiais, por pensar que a conservação da imagem é algo importante, é algo histórico onde se encaixa a Arte Religiosa, um dia as peças de nossos clientes talvez estarão em museus, não pensamos como algo descartável. Defino Arte Sacra como Arte viva, ela é inspiradora, enquanto realizamos as imagens para nossos clientes, rezamos enquanto utilizamos desse dom do Espírito Santo. Ele nos empresta para fazermos algo bonito por aqui, não para adorar a imagem, mas como símbolo de devoção, isto é, fé, oração, confissão, penitência, caridade, algumas das caraterísticas da riqueza da nossa Santa Igreja Católica”, diz.

Entre tradição e desafio

Para Priscila, o maior desafio atual é o sincretismo religioso, que, segundo ela, pode confundir fronteiras entre práticas distintas. “Eu trabalho apenas com arte sacra católica. Há muita mistura hoje no mercado, mas a tradição é importante”, revela.

Outro ponto sensível é a falta de formação técnica local. Ela defende a criação de cursos profissionalizantes na região, rica em acervos históricos, mas ainda sem centros especializados de capacitação.

Parte interna da Paróquia São Francisco de Assis, em Monte Belo do Sul

Histórias de fé que moldam a arte

A artista coleciona relatos emocionantes de clientes que procuram imagens para agradecer graças alcançadas. Ela própria viveu uma experiência que marcou sua trajetória: a gestação de seu filho, Vicenzo Miguel. “Foi o maior milagre da minha vida. Fiz a oração das 90 Salve-Rainhas diante de uma imagem de Nossa Senhora de Fátima que eu mesma havia pintado. Quando ele nasceu, os médicos ficaram impressionados. A arte sacra e a fé caminham juntas na minha história”, conta.

Essa vivência, diz ela, transformou sua relação com o trabalho e reforçou sua missão de evangelização através da arte.

O futuro da fé

Apesar dos desafios de modernidade e dispersão, o padre Mosena observa com esperança o aumento da participação juvenil. “É um fato que a participação dos jovens vem aumentando em nossas comunidades muito discretamente, mas observamos sua participação nas celebrações dominicais e a busca pela Catequese para os Sacramentos da Iniciação Cristã (Eucaristia e Crisma) que por um tempo abandonaram, mas que agora estão buscando novamente. Nesse ano em nossas paróquias de Bento, mas de 50 adultos pediram a Eucaristia e a Crisma que não tinham. É um bom sinal!”, evidencia.

Manifestações religiosas dentro da Igreja são destaque

Para ele, o futuro da arte sacra e da religiosidade local é promissor, desde que a comunidade continue cultivando sua identidade. “Sou um grande entusiasta da nossa fé católica e, portanto, temos um caminho muito belo e vivaz pela frente. Claro que problemas, provações sempre teremos. É a nossa cruz de cada dia, mas quem não tem uma para carregar não é mesmo? Meu santo de devoção, São Felipe Néri, dizia já no século XVI: ‘Quem se impacienta com uma cruz, logo acha outra mais pesada para carregar’. E outra frase dele que gostaria de transmitir: ‘Não é hora de dormir, porque o Paraíso não é para ociosos!’ Avante Bento, ao Paraíso!”, destaca.

O sagrado como parte da identidade regional

A arte sacra em Bento Gonçalves e região permanece como ponte entre passado e presente, fé e cultura, história e comunidade. Seja na conservação das igrejas centenárias, na devoção aos capitéis, na renovação das festas religiosas ou na produção artesanal contemporânea, o sagrado segue inspirando e guiando gerações.

Afinal, como resume Priscila: “A fé é o que mantém viva a arte sacra. Conservamos o sagrado para inspirar o presente”, reitera fazendo um convite final. “Também rezamos o Santo Terço nas sextas-feiras em grupo às 15h30min aqui na loja, na Rua Giácomo Bacin, nº 245, bairro Aparecida, próximo ao mercado Grepar”, finaliza.