Aprovado de forma provisória após mais de vinte anos de negociações diplomáticas, a resolução volta a ocupar espaço central no debate econômico brasileiro

Tratado por autoridades federais como um passo decisivo para ampliar o acesso do país a mercados internacionais e fortalecer relações comerciais estratégicas, o acordo que cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo, envolvendo cerca de 700 milhões de consumidores e economias que representam parcela relevante do PIB global, no entanto, desperta reações distintas quando analisado a partir das realidades regionais. Em Bento Gonçalves e na Serra Gaúcha, território marcado pela força da agricultura familiar, da vitivinicultura e da indústria metalmecânica, o tratado expõe preocupações profundas, especialmente quanto à competitividade e à sobrevivência de setores tradicionais da economia local.
Denominado Acordo de Parceria União Europeia-Mercosul, o pacto está estruturado em três eixos — diálogo político, cooperação e comércio — e prevê a eliminação gradual de tarifas de importação para a maior parte dos bens negociados entre os blocos. O Mercosul deverá zerar impostos sobre 91% dos produtos europeus em até 15 anos, enquanto a União Europeia se compromete a eliminar tarifas sobre 95% dos bens sul-americanos em um prazo de 12 anos. Setores industriais e o agronegócio brasileiro figuram entre os principais beneficiados, com destaque para café, frutas, carnes e produtos industrializados, embora itens sensíveis, como carne bovina, frango, açúcar e etanol, estejam sujeitos a cotas para evitar impactos abruptos no mercado europeu.
O avanço do acordo ocorre apesar da resistência de países como a França, que mantém oposição sob o argumento de proteção aos agricultores locais. Ainda assim, a ausência de uma minoria de bloqueio no Conselho Europeu permitiu a continuidade do processo, com apoio de economias exportadoras como Alemanha e Espanha. No Brasil, o governo avalia que o tratado pode impulsionar exportações, atrair investimentos e ampliar a previsibilidade comercial, ao mesmo tempo em que monitora mecanismos de salvaguarda para proteger setores sensíveis da economia nacional.
Embora o acordo represente novas oportunidades para exportações brasileiras, lideranças locais alertam que seus efeitos não serão homogêneos.


Preocupação no campo e nas cooperativas

Créditos: Nathielly Paz


A apreensão do setor vitivinícola é expressa de forma clara pelo presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares de Bento Gonçalves, Monte Belo do Sul, Pinto Bandeira e Santa Tereza, Cedenir Postal. Para ele, embora o acordo possa favorecer alguns setores da economia nacional, os impactos sobre a produção de uvas, vinhos e derivados tendem a ser negativos. “O acordo Mercosul–União Europeia vai beneficiar vários setores da economia, mas o nosso setor da vitivinicultura vai ser muito afetado negativamente”, afirma.
Segundo Postal, a principal preocupação está relacionada à entrada massiva de vinhos europeus no mercado brasileiro, especialmente vinhos de mesa e espumantes, com preços significativamente inferiores aos praticados pelos produtores nacionais. A diferença, ressalta, não está apenas na escala de produção ou na tradição dos países europeus, mas nas condições estruturais que moldam o custo final do produto. “Os nossos vinhos não são competitivos devido à alta tarifa tributária que nós temos aqui no Brasil. O nosso custo do País é muito alto, enquanto os produtos europeus têm subsídios muito grandes por parte dos governos”, explica.
Para o dirigente sindical, essa combinação cria uma competição desigual, que penaliza diretamente o agricultor familiar. Ele lembra que a vitivinicultura brasileira, especialmente na Serra Gaúcha, é sustentada majoritariamente por pequenas propriedades, onde a renda da uva garante a permanência das famílias no campo e movimenta economias locais inteiras.

Subsídios europeus e carga tributária brasileira
A assimetria entre Brasil e União Europeia aparece como o ponto central das críticas ao acordo. Enquanto países como Itália, Espanha e Portugal mantêm políticas de incentivo à produção vitivinícola, com subsídios diretos, seguros agrícolas acessíveis e reconhecimento do vinho como alimento ou patrimônio cultural, o Brasil impõe ao produto uma das cargas tributárias mais elevadas do mundo.
Postal destaca que, além da tributação, os produtores enfrentam custos elevados com insumos, maquinário e financiamento. “Não temos incentivos, os maquinários são caros, os insumos são caros, e competimos com produtos que chegam aqui de forma desigual”, afirma. Ele também lembra que o setor sofreu recentemente com o corte na subvenção do seguro agrícola, o que aumentou ainda mais a vulnerabilidade dos produtores frente a perdas climáticas.
Esse cenário, segundo o sindicalista, pode se agravar com a ampliação das importações. “A gente vê com muita preocupação este acordo”, resume. Para ele, sem políticas compensatórias claras, o tratado pode provocar redução da produção nacional, fechamento de pequenas propriedades e êxodo rural.

O suco de uva fora do acordo


Outro ponto considerado crítico pelo setor é a exclusão do suco de uva do acordo Mercosul–União Europeia. O produto é estratégico para a Serra Gaúcha, absorvendo cerca de 50% da produção de uvas da região. Para muitos agricultores familiares, o suco representa uma alternativa fundamental de comercialização, especialmente em anos de menor demanda por vinhos. “O suco de uva é o principal produto da nossa produção e não entrou no acordo. Isso foi mal negociado por parte do governo”, afirma Postal. Segundo ele, a ausência do produto no tratado compromete toda a cadeia produtiva, uma vez que reduz as possibilidades de valorização da uva e limita a diversificação de mercados.
Na avaliação do dirigente, a exclusão revela falta de sensibilidade do Governo Federal em relação à realidade da agricultura familiar. “Isso impacta todo o setor”, reforça, ao defender que o suco de uva deveria ser tratado como produto estratégico, tanto do ponto de vista econômico quanto nutricional.

A visão institucional do setor vitivinícola
Preocupação semelhante é manifestada por Luciano Rebellatto, presidente do Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS). Para ele, o acordo precisa ser analisado de forma equilibrada, reconhecendo seus méritos, mas também seus riscos. “Para o Brasil como um todo se abrem muitas portas, muitas possibilidades de negócios. Porém, para alguns setores ele é bem prejudicial, principalmente no caso do vinho”, afirma.
Rebellatto destaca que o acordo prevê um período de transição, estimado entre oito e dez anos, até a eliminação total das tarifas de importação. No entanto, alerta que esse prazo precisa ser utilizado de forma estratégica. “Nesse período, a gente acredita, e vai trabalhar, para que a gente tenha igualdade de condições, principalmente na questão tributária”, diz.
Segundo ele, o problema central não é o acordo em si, mas a forma como o vinho é tratado no Brasil. “Nos países da Europa, o vinho é tratado como alimento, como produto cultural. Aqui, ele é praticamente criminalizado na questão dos tributos. Também precisamos pensar em custos de produção, então reduzindo os custos através de subsídios à produção, por exemplo, o simples seguro agrícola, que a gente, como produtores, acabou perdendo nesses dias e teve que pagar 100%. Subsídios quanto a impostos sobre máquinas, juros baratos para financiamentos, para custeios, enfim, esse agora vai ser o nosso trabalho, fazer com que o vinho brasileiro tenha as mesmas condições de competir com o vinho europeu que agora passa a entrar aqui no Brasil”, afirma.

Concorrência direta com vinhos populares nacionais


Além dos vinhos finos, Rebellatto chama atenção para o impacto que os produtos europeus podem ter sobre os vinhos de mesa brasileiros, tradicionalmente consumidos pelas camadas populares. “Esses vinhos vão chegar com uma faixa de preços tão baixa que vão acabar competindo com os nossos vinhos de mesa, como Isabel, Bordô, Lorena”, afirma.
Essa concorrência direta preocupa o setor, pois os vinhos de mesa são fundamentais para a sustentação econômica de muitas vinícolas e cooperativas. A perda desse mercado pode comprometer toda a cadeia produtiva, afetando agricultores, trabalhadores industriais, transportadores e o próprio enoturismo, atividade que gera emprego e renda na região.

Nota oficial reforça necessidade de políticas públicas
Em posicionamento oficial, o Consevitis-RS reforça que não há oposição institucional ao acordo, reconhecendo sua relevância estratégica para o país. No entanto, a entidade alerta que o avanço do tratado sem medidas internas de equilíbrio pode aprofundar desvantagens competitivas já existentes.
A nota destaca a necessidade de políticas públicas estruturantes, como revisão da carga tributária, implementação efetiva de seguros agrícolas e vinícolas, incentivos à produção e valorização do suco de uva. O documento também ressalta que a vitivinicultura brasileira é fortemente baseada na agricultura familiar e que qualquer impacto negativo atinge diretamente milhares de famílias e regiões inteiras.

Indústria metalmecânica vê oportunidades com cautela


Se no campo predomina a apreensão, na indústria metalmecânica de Bento Gonçalves o acordo é visto com uma combinação de cautela e expectativa. O presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico (SIMMME), Bruno Dal Fré, avalia que o tratado pode gerar oportunidades indiretas para o setor. “O acordo entre União Europeia e Mercosul amplia o acesso a mercados, especialmente com foco no aumento das exportações de alimentos e produtos agroindustriais, o que gera impactos diretos sobre a indústria metalmecânica, responsável pelo fornecimento de máquinas, equipamentos e soluções industriais. Para que esses benefícios se materializem, será fundamental termos uma indústria mais eficiente, produtiva e menos burocrática, o que passa pelo avanço da reforma tributária, por investimentos em infraestrutura e também pela aceleração da formação de mão de obra técnica qualificada, capaz de sustentar esse novo ciclo de crescimento”, afirma.

Reflexos diretos em Bento Gonçalves
A economia da cidade é fortemente marcada pela integração entre os setores metalmecânico, agroindustrial, alimentício e moveleiro. Nesse contexto, a expectativa de crescimento das exportações de alimentos pode gerar efeitos diretos sobre as empresas locais. “Com a expectativa de crescimento das exportações de alimentos, haverá uma tendência de expansão das agroindústrias locais e regionais, demandando novas plantas, ampliação de linhas produtivas e investimentos em tecnologia”, explica Dal Fré.
Esse cenário cria oportunidades concretas para metalúrgicas, fundições e fabricantes de máquinas e equipamentos instalados no município. No entanto, o dirigente alerta que a capacidade de aproveitar esse movimento dependerá da qualificação da mão de obra e da adaptação às exigências do mercado internacional.

Competitividade internacional e concorrência europeia


Questionado sobre a possibilidade de fortalecimento da competitividade internacional das indústrias da região, Dal Fré avalia que o acordo pode representar um avanço importante para empresas dispostas a adotar uma postura mais global. “Há uma possibilidade concreta de aumento da competitividade internacional, especialmente para empresas que passarem a adotar uma visão mais global do seu negócio, olhando não apenas para o mercado interno, mas também para oportunidades externas”, afirma.
O risco da concorrência europeia, segundo ele, não deve ser subestimado, mas pode ser enfrentado com ganhos de eficiência, especialização e inovação. “Empresas que investirem em gestão, processos e equipes preparadas terão melhores condições de competir e se posicionar internacionalmente”, acrescenta.

Entraves técnicos e regulatórios
Apesar das oportunidades, ainda existem barreiras significativas a serem superadas. Além das exigências técnicas, ambientais e de segurança impostas pelo mercado europeu, o Brasil enfrenta entraves internos históricos. Dal Fré cita a complexidade tributária, o excesso de burocracia e os gargalos logísticos como fatores que reduzem a competitividade da indústria nacional. Para que o setor metalmecânico consiga aproveitar plenamente os desdobramentos do acordo, Dal Fré defende uma agenda contínua de investimentos. Entre as prioridades estão automação industrial, digitalização, melhoria de processos, engenharia de produto e eficiência energética.
Paralelamente, ele enfatiza a necessidade de investir em capital humano. “É essencial investir em pessoas, acelerar programas de formação técnica, capacitação profissional e desenvolvimento de competências voltadas à indústria 4.0, à agroindústria e ao comércio internacional”, afirma. Segundo ele, esse conjunto de investimentos permitirá maior agregação de valor local e a abertura de novos mercados.
Papel do poder público e das entidades de classe
Na avaliação do presidente do SIMMME, o sucesso da indústria metalmecânica diante do novo cenário internacional dependerá também da atuação do poder público e das entidades representativas. Ao Estado, cabe avançar na implementação da reforma tributária, reduzir a burocracia, investir em infraestrutura e fortalecer a educação profissional e técnica, em parceria com o setor produtivo. Já as entidades de classe têm o papel de articular o setor, promover capacitação, disseminar boas práticas e incentivar uma mentalidade mais global nas empresas. “Prepará-las para competir em um ambiente internacional cada vez mais exigente é fundamental”, destaca Dal Fré.
Segundo ele, para competir com produtos europeus será necessário ser mais eficiente, menos burocrático e mais produtivo, o que exige reformas estruturais e investimentos consistentes. “As empresas de Bento Gonçalves têm tradição, competência técnica e capacidade empreendedora. Ao adotarem uma visão mais global e investirem em pessoas, processos e tecnologia, estarão mais preparadas para ampliar sua participação no mercado local e conquistar novos mercados”, conclui.