Fundada em 1969, a entidade atua com segurança alimentar, defesa de direitos e fortalecimento de vínculos no bairro São Roque e região do CRAS I
Por mais de meio século, a Ação Social São Roque se consolida como uma das principais referências em assistência e acolhimento em Bento Gonçalves. Oficialmente constituída em 1º de abril de 1969, a entidade nasce como um trabalho social da Cáritas de Caxias do Sul, auspiciada pela Mitra Diocesana e acolhida pela Igreja Católica do bairro São Roque, sob liderança do padre Francisco Andonini. Desde então, mantém-se como ponte entre doadores e famílias em situação de vulnerabilidade, com a força do voluntariado e apoio do poder público e da comunidade. “A nossa missão é simples e essencial: ser ponte. Recebemos, doamos e, acima de tudo, ajudamos as pessoas a retomarem sua autonomia, seja com alimento, orientação ou oportunidades”, declara a presidente Vânia Kratz Mendes.
Raízes ligadas à família Kratz e à história do bairro

A história da Ação Social São Roque é inseparável da família Kratz. Nilza Covolo Kratz, mãe de Vânia, assume a presidência em 1975, sucedendo o casal Orlando e Dozinda Bergonci, primeiros líderes da instituição. Valter Kratz, pai de Vânia, atua como vice-presidente. “Minha mãe trabalhou na Ação Social até agosto de 2006. Quando ela faleceu, os voluntários e associados me elegeram presidente. Eu já conhecia cada canto desta entidade, pois desde criança acompanhei minha mãe e meu pai, ajudando o bairro”, conta Vânia.
Nos anos 1970, os desafios eram numerosos: bairros como a então Vila Primavera (hoje Aparecida) possuíam casas de chão batido, sem saneamento, e muitos moradores não conseguiam emprego por falta de escolaridade. “A Ação Social São Roque pagava exames médicos, fotos para a carteira de trabalho, consultas e óculos, quando necessário. Até contas em farmácias nós tínhamos para garantir remédios. Sempre nos viramos para não deixar ninguém sem ajuda”, relata.
A entidade começou em uma pequena sala ao lado da Igreja de São Roque, depois funciona em duas salas cedidas no Batalhão Ferroviário, onde Vânia lembra ter nascido. “O batalhão tinha hospital, padaria, açougue, horta e armazém. Nossa família vivia esse cotidiano, e a Ação Social cresceu dentro desse ambiente de comunidade”, recorda.
Nos anos seguintes, a instituição ocupa o Centro Social Urbano, onde hoje estão a UPA e a UBS, e, em setembro de 1986, inaugura a sede atual, construída em terreno cedido pela prefeitura em comodato. “O prédio foi um sonho realizado, mas hoje, quase 40 anos depois, está defasado para a demanda que recebemos”, diz Vânia.
Apoio permanente e articulação com a rede pública
Atualmente, a Ação Social São Roque atende cerca de 160 famílias por mês, alcançando até 200 pessoas com atendimentos eventuais. Parte delas é encaminhada por órgãos como CRAS, CREAS, CAPS AD e Centro Revivi, enquanto outras chegam diretamente à entidade. “Os casos variam. O CRAS, por exemplo, auxilia por três meses com cesta básica. Mas se é uma pessoa idosa acamada ou alguém com deficiência, nós seguimos atendendo enquanto houver necessidade. A regularidade do nosso apoio fortalece o trabalho da rede pública”, explica a presidente.
O atendimento vai além da doação de alimentos e roupas. “Aqui, orientamos sobre direitos, ajudamos a obter documentos, conseguimos vagas em escolas, apoiamos na busca por emprego e damos suporte em situações emergenciais. Muitas vezes, a maior ajuda que alguém encontra é ter alguém que ouça e oriente”, acrescenta.
A cada mês, a entidade distribui cerca de 160 cestas básicas, podendo ser maiores (“rancho grande”) em famílias numerosas, e abre suas portas para doações de roupas, móveis e utensílios. “Ninguém sai de mãos vazias. Se não há cesta, oferecemos um lanche, uma fruta, ou até uma palavra de acolhimento. Às vezes, isso vale mais que qualquer bem material”, afirma Vânia.
Grupos de convivência e oficinas que unem gerações


Um dos destaques da atuação da entidade é o trabalho com a terceira idade. Ao contrário de instituições de longa permanência, a Ação Social São Roque incentiva que os idosos permaneçam com suas famílias e se mantenham ativos. “Muitos são arrimo dos netos e bisnetos. Queremos que convivam, aprendam e se sintam úteis”, declara Vânia.
O grupo Recordar é Viver, coordenado pela vice-presidente Doroti Viana Nunes, reúne mais de 60 participantes, divididos em encontros às terças e quintas à tarde. As atividades incluem palestras sobre prevenção de golpes, como cuidados com caixas eletrônicos, golpes virtuais e visitas suspeitas, além de oficinas criativas e projetos ambientais. “Ensinamos a fazer velas reaproveitando vidros, incentivamos o plantio de ervas e hortaliças e debatemos o impacto do lixo. São aprendizados que unem convivência e consciência”, explica.
Crianças e jovens também têm atenção especial. A entidade está inscrevendo um projeto no Fundo da Criança e do Adolescente para promover atividades aos sábados, focadas em leitura, comunicação e reforço escolar. “Na área do CRAS I, que abrange bairros como Progresso, São João, Zatt, Ouro Verde, Cembranel, Pradel, Nossa Senhora da Saúde, São Valentim e KM 2, identificamos mais de mil crianças até 17 anos. Queremos impactar cada vez mais jovens, ajudando na formação e na cidadania”, afirma Vânia.
Estrutura física e uso do espaço


A sede atual, localizada em terreno cedido em comodato até 2035, abriga uma série de espaços: uma sala de costura (onde voluntários produzem ecobags com retalhos de estofarias para reduzir o uso de sacolas plásticas), uma biblioteca em memória de José Luiz Zatt (dentista e filho de uma das primeiras voluntárias), sala de acolhimento, sala de alimentos, cozinha (ainda não adaptada aos padrões necessários), administração e um salão principal para atividades.
O espaço também abriga reuniões de grupos de autoajuda, como Alcoólicos Anônimos (segundas à noite) e Narcóticos Anônimos (terças e quintas à noite). “Abrimos as portas porque acreditamos que acolher também é oferecer um local seguro para quem busca recomeçar”, comenta Vânia.
Voluntariado e parcerias como força motriz
Com apenas três servidores cedidos pela prefeitura, Vânia, Maria da Silva Rodrigues e João Luiz Covardia, a Ação Social depende fortemente de voluntários: cerca de 20 atuam regularmente e outros tantos colaboram em mutirões e atividades específicas. Durante a pandemia, 40 novos voluntários mobilizados pela Parceiros Voluntários garantiram a triagem de roupas e a continuidade do atendimento. “Até hoje muitos permanecem. Somos um verdadeiro berçário de voluntariado, sempre prontos para receber quem quer doar seu tempo e talento”, afirma a presidente.
Para custear despesas fixas, como água, luz, telefone, seguro e gasolina da Kombi, a entidade realiza um brick mensal e busca recursos por meio de projetos e parcerias. Entre elas, destacam-se contribuições da M. Dias Branco (antiga Isabella), Sicredi, Netfar do Bem (com oficinas de arteterapia), Rotary, Lions e o Conselho da Pessoa Idosa, que viabiliza horas de assistentes sociais e oficineiras como Vanusa Rodrigues Posso e Roberta Pauletto. “Graças a esses projetos, podemos ter também estagiárias de Serviço Social, que aprendem e ajudam no atendimento”, explica.
O sonho de ampliar e servir mais

O prédio, inaugurado em 1986, já não atende às necessidades. Um projeto de ampliação, elaborado com apoio de profissionais voluntários como Filipe Trucolo, Gabriel Baldissera Schuvartz e Rezende (da engenharia, indicado pela ASCON Vinhedos), prevê a construção de um andar funcional com espaços ampliados e uma cozinha adaptada. “Queremos oferecer cursos de alimentação saudável com aproveitamento integral dos alimentos, oficinas de capacitação que gerem renda e, principalmente, servir refeições nutritivas semanalmente a quem mais precisa, inspirados no Lar da Caridade. As voluntárias já estão prontas. Uma delas disse: ‘Se eu não puder descascar a batata em pé, descasco sentada, mas ajudo’”, relata Vânia.
Entre os sonhos está também adquirir um mini caminhão baú para buscar doações e entregar móveis e colchões a quem não tem como pagar o frete. “Quantas vezes temos o colchão aqui, mas a pessoa não tem como levar. Uma condução própria seria um grande avanço”, diz.
Fé, esperança e continuidade
Para Vânia, a longevidade da Ação Social São Roque se explica pela fé e pela solidariedade da comunidade. “Aprendemos com a nossa ‘jovem guarda’ que Deus não enche a prateleira cheia, só a prateleira vazia. A cada mês, quando completamos as cestas básicas, agradecemos por aquele momento e confiamos que o próximo será providenciado”, declara.
Com o comodato garantido até 2035 e apoio contínuo de empresas, entidades e da comunidade, a presidente acredita que a instituição seguirá forte. “Há 56 anos, nos superamos e nos reinventamos. Acreditamos que novas gerações vão assumir esse bastão com novas ideias e energia. A Ação Social São Roque é da comunidade e para a comunidade, e continuará cumprindo esse papel, porque a solidariedade não envelhece”, aponta.
Vânia deixa ainda um convite à população: “Se você tem roupas em bom estado, especialmente masculinas e infantis, cobertores, alimentos não perecíveis, móveis ou utensílios, traga até nossa sede. E venha nos conhecer. Trabalhamos de segunda a segunda, de janeiro a janeiro, sempre de portas abertas. Como diz a música, um mais um é sempre mais que dois. É assim que mantemos viva essa história de solidariedade”, conclui.