A busca acelerada por resultados imediatos e corpos idealizados tem levado muitas pessoas a recorrer a medicamentos para emagrecer sem acompanhamento médico

A sociedade contemporânea está profundamente imersa em uma cultura que idolatra a rapidez e o ideal de corpos perfeitos. Essa dinâmica gera uma pressão estética avassaladora, que, por sua vez, impulsiona uma busca cada vez mais intensa e imediata por soluções para o emagrecimento, muitas vezes, com a negligência dos riscos à saúde física e mental. A popularização recente do uso de medicamentos para perda de peso, muitas vezes sem a devida orientação, é um sintoma claro desse fenômeno, conforme analisa a psicóloga do Hospital Tacchini, Andressa Vaccaro.


A especialista aponta que a premissa de que corpos magros são sinônimo de beleza e disciplina cria uma sensação de urgência, não se pode esperar, é preciso emagrecer agora. Essa busca por resultados rápidos, na visão de Andressa, está intrinsecamente ligada a fatores psicológicos, sociais e culturais. “Esse desejo imediato de transformação corporal pode ser uma tentativa de amenizar angústias mais profundas, de controlar aquilo que parece incontrolável, o tempo, o olhar do outro, a própria vulnerabilidade. O corpo torna-se então uma tela onde se projeta ansiedade, medo de rejeição e frustrações, e o remédio surge como promessa de alívio rápido, quase mágico, dessas tensões internas. De qualquer modo, cabe mencionar que existem medicamentos que podem ser indicados por médicos de forma segura, sempre dentro de um contexto de avaliação individual, acompanhamento clínico e monitoramento contínuo. O tratamento médico do emagrecimento não se limita à prescrição de remédios, também envolve orientação nutricional, acompanhamento psicológico e incentivo à prática de atividade física. Esse acompanhamento multidisciplinar possibilita que o emagrecimento seja sustentável”, esclarece.

O impacto da pressão estética


A pressão estética exerce um impacto particularmente acentuado sobre a mulher, gerando uma comparação constante com um ideal inatingível. Andressa ressalta que essa distância entre o que a pessoa é e o que deveria ser afeta diretamente a autoestima. “No caso das mulheres, isso se intensifica, já que o corpo feminino é historicamente mais cobrado e vigiado. O resultado costuma ser insegurança, autocrítica severa e sofrimento emocional”, afirma.
A relação entre o uso de medicamentos para emagrecimento e o surgimento ou intensificação de transtornos como ansiedade, compulsão alimentar ou depressão é um ponto crítico levantado pela psicóloga. Ela destaca que, ao depositar toda a esperança no efeito do fármaco, a pessoa cria um fator de risco psicológico, tornando-se mais vulnerável à frustração caso os resultados não se concretizem. O medicamento passa a ser um controle externo temporário, sem tocar na raiz emocional da relação com o corpo e a comida.
O temido “efeito sanfona”, com o ciclo de uso, interrupção e reganho de peso, reforça a baixa autoestima, a sensação de fracasso e a repetição do mecanismo de restrição-compensação. “Assim, mais do que promover saúde, o medicamento pode cristalizar a alienação do sujeito em relação ao próprio desejo, dificultando a construção de uma relação mais autêntica e menos sintomática com o seu corpo”, explica a médica.

Da busca saudável à obsessão


A linha que separa o desejo de emagrecer por saúde e a obsessão é tênue, mas seus sinais são claros. Andressa explica que o desejo se transforma em obsessão quando passa a dominar a vida: “Além de pensar constantemente no corpo ou no peso, a pessoa organiza a rotina em torno da dieta, a pessoa pode deixar de participar de atividades sociais, recusar convites para encontros ou eventos por medo de ganhar peso, evitar refeições em família ou restaurantes, abandonar hobbies e compromissos que não se encaixem na rotina rígida de exercícios ou restrições alimentares”, alerta
A culpa ou a ansiedade ao quebrar as regras autoimpostas são intensas, e a preocupação com o corpo passa a prejudicar relacionamentos, o desempenho profissional e o bem-estar geral.
Além da obsessão, a especialista alerta para a possibilidade de que a perda de peso seja usado como um mecanismo de compensação para inseguranças ou traumas. Um sinal evidente, segundo Andressa, é quando a pessoa acredita que o emagrecimento resolverá todos os seus problemas, como se a nova aparência pudesse substituir o processo de elaboração dessas experiências. “Existem estratégias que podem ajudar a lidar com a frustração nestes casos, como desenvolver consciência corporal e emocional, identificar e reestruturar pensamentos automáticos de autocrítica ou comparação, reforçar comportamentos adaptativos, valorizando pequenas conquistas ao longo do processo. O suporte social e profissional também é fundamental, pois permite validar experiências, reduzir o isolamento e construir narrativas mais realistas”, sugere a especialista.

A psicoterapia como ferramenta


Diante da frustração gerada pelas expectativas irreais de resultados rápidos, o enfrentamento psicológico é crucial. A pressa em mudar o corpo, explica Andressa, revela um conflito entre a imagem idealizada e a realidade do corpo, que tem seu próprio ritmo. Essa discrepância gera inadequação e ansiedade.
Andressa defende que o acompanhamento psicológico é clinicamente relevante, especialmente em casos de obesidade grave, uso de medicamentos ou procedimentos cirúrgicos, onde a avaliação se torna uma parte necessária do tratamento. O espaço psicológico oferece a oportunidade de compreender o que se move por trás da busca pelo emagrecimento, permitindo um processo mais consciente, menos sofrido e integrado à singularidade de cada pessoa.
A psicoterapia é fundamental para a construção de uma relação mais saudável com a alimentação e o corpo. A profissional explica que ela permite que o indivíduo explore a própria relação com a comida, sem se limitar a regras externas, compreendendo a origem de excessos e restrições ligados a emoções difíceis ou experiências não elaboradas. “O sujeito pode perceber como a comida e o corpo funcionam como mediadores de sentimentos, desejos ou angústias, e aprender a reconhecer os próprios sinais internos de fome, saciedade e prazer”, detalha.
Para quem sofre com compulsão alimentar e efeito sanfona, abordagens terapêuticas estruturadas mostram eficácia. Andressa enfatiza que o foco do tratamento deve ir além da modificação de hábitos, visando compreender o sentido que a comida e o corpo assumem na vida emocional desta pessoa. Muitas vezes, os episódios de compulsão ou as variações de peso refletem tentativas de lidar com angústia e insegurança. O trabalho psicoterapêutico oferece um espaço de escuta e elaboração que possibilita ao paciente construir uma relação mais consciente e sustentável com seu corpo, promovendo uma maior autonomia e bem-estar para viver sua vida.
A aceitação do corpo, mesmo durante o processo de emagrecimento, é vital. Andressa conclui que aceitar o corpo não significa gostar de todos os seus aspectos, como flacidez ou marcas, mas reconhecer que todas as marcas fazem parte da história.