Minhas férias ideais sempre seguiram o mesmo roteiro: sol nascendo no horizonte, pé na areia, sal no corpo e o tempo passando sem pressa. Nunca fui fã de férias com programação cronometrada nem de hotéis-fazenda — praia, pra mim, é liberdade. Mas o que antes era um prazer simples de família virou quase uma prova de resistência financeira.
Veranear no Sul, especialmente nas praias gaúchas e catarinenses, deixou de ser um programa democrático. Não é mais como antigamente, quando a gente chegava de Santana ou no Gol quadrado 1.0 dos anos 90, com a família inteira espremida e a certeza de que o maior gasto seria a gasolina. Hoje, o cenário é outro: a paisagem continua linda, mas o preço para apreciá-la beira perigosamente o surreal.
O problema não é pagar por conforto ou boa comida — isso faz parte da experiência. O problema é o superfaturamento escancarado do básico. Um milho verde, símbolo máximo da simplicidade praiana, virou artigo de luxo: vinte reais a espiga, e olhe lá se a manteiga não vier cobrada à parte. Batata frita? Cinquenta reais. Um suco natural ou uma caipira média? Trinta e cinco. E então surge o cardápio que viraliza nas redes sociais: pratos com camarão beirando os quinhentos reais e um honesto à la minuta custando cento e cinquenta — algo que, em praias menos badaladas, ainda alimenta duas pessoas e sobra.
A lógica parece simples: quanto mais bonita a praia, mais caro o prato. Só esqueceram de avisar que o mar continua sendo o mesmo para todos — gratuito, salgado e democrático.
Como boa filha de gringo, adaptei o plano de sobrevivência: limões na mala, Velho Barreiro estrategicamente acomodado, fardo de água comprado no mercado e milho levado de casa. A beira-mar segue maravilhosa; só mudou o cardápio. Picolé virou evento raro, porção só depois de muita reflexão e fome escancarada à beira do mar. Afinal, já há gastos com combustível, hospedagem e refeições fora — pagar preço de restaurante cinco estrelas por uma espiga de milho não combina com chinelo e canga.
Há oito anos, sonhávamos em casar na pacata Praia do Rosa. Hoje, o romantismo segue intacto, mas o orçamento não acompanhou. Tudo encareceu, é verdade, mas a comida à beira-mar resolveu exagerar na dose.
E quando achamos que o Sul exagerou, o Nordeste aparece para competir: relatos de agressões a turistas, faixas de areia pública tratadas como privadas, abuso nos valores de cadeiras e guarda-sóis. A natureza continua generosa; a conta, nem tanto.
Talvez o maior aprendizado seja esse: o valor do dinheiro também se mede naquilo que não vale a pena pagar. O mar segue sendo refúgio, mas o bolso anda pedindo um plano B para as próximas férias. Quem sabe uma praia menos instagramável, porém mais honesta. Afinal, sol e sal não deveriam custar tanto.