A moda é muito mais do que apenas roupa. É um reflexo dinâmico da nossa história, da nossa cultura e das nossas ambições. O que vestimos hoje é o resultado de séculos de transformações, revoluções e reinvenções. A cada estação, novas tendências surgem e antigas ressurgem, mostrando que a moda está em constante movimento, refletindo as mudanças sociais, tecnológicas e políticas do nosso tempo.
A moda de hoje é um paradoxo fascinante. Em uma era de tendências que surgem e desaparecem na velocidade das redes sociais, a quantidade de estilos disponíveis para expressar a individualidade nunca foi tão vasta. Longe da uniformidade de décadas passadas, onde um ou dois estilos dominavam as passarelas e as ruas, a moda atual celebra a diversidade.
Essa mudança reflete transformações sociais e tecnológicas profundas. Com o acesso global à informação, a influência não vem mais apenas de Paris ou Milão, mas de criadores independentes, influenciadores digitais e comunidades online que popularizam nichos de estilo. O streetwear (moda casual com raízes nas culturas urbanas), o minimalismo escandinavo, o estilo Y2K (dos anos 2000) e a estética “cottagecore” (estilo de vida e estético que celebra a vida rural simples) por exemplo, convivem e se cruzam, permitindo que cada pessoa construa uma identidade visual única.
De acordo com o professor e coordenador do curso de Moda da UCS, Renan Isoton, o consumo tem se intensificado diante da constante renovação de tendências, impulsionada especialmente pelas redes de fast fashion. “Como consequência, há uma produção cada vez maior de roupas com baixa qualidade, voltadas a serem extremamente competitivas e a entregar a chamada ‘moda do momento’”, explica.
No entanto, segundo Isoton, essa ampla variedade de opções permite que cada indivíduo possa expressar sua identidade de forma única por meio da moda. “Dessa forma, a melhor maneira de consumir moda e se expressar é focar em roupas atemporais, produzidas com responsabilidade socioambiental. Uma boa alternativa são os brechós, que há tempos deixaram de ser sinônimo de roupas sem estilo e de qualidade duvidosa”, conta.

Responsabilidade e estilo
Muitas pessoas acham que, para ser estiloso, é necessário ter um guarda-roupa cheio de peças, mas essa não é a verdade. “É possível ter estilo e ser responsável ao mesmo tempo. Há algum tempo, é possível observar que roupas de acervo, vintage ou até mesmo o upcycling (prática sustentável que consiste em transformar itens descartados ou resíduos em produtos novos), vêm ganhando espaço entre os jovens, bem como diversas celebridades”, explica o professor. Portanto, ele destaca que o segredo para ter peças que se encaixam na sua estética é conhecer o seu estilo pessoal, possibilitando, assim, melhores combinações.
O que saber antes de adquirir uma peça de roupa?
Isoton explica que, ao comprar uma nova peça, é importante saber da necessidade real dela. ‘“O que deve ser feito é buscar roupas que proporcionem qualidade e durabilidade, bem como informações sobre a origem”, tendo como questionamentos: ‘Quem fez?’, ‘A empresa possui bons antecedentes?”, explica.
É fundamental, também, pensar no pós-consumo. Como bem destaca Isoton, o ciclo de vida da roupa não pode terminar no lixo: “Quando a peça não serve mais, a possibilidade de reciclar, revender ou doar é um fator decisivo”. Além disso, é de extrema importância o apoio ao comércio local, dando preferência a marcas e empresas da região. “Isso faz com que elas se desenvolvam economicamente e o varejo local seja fortalecido”, expressa o professor.
Como manter um guarda-roupa diversificado
Isoton recomenda que, antes de qualquer compra, o ideal é conhecer bem o próprio guarda-roupa. “É importante saber quais peças se combinam entre si e estão alinhadas ao seu estilo pessoal. Afinal, estilo está diretamente ligado à personalidade”, destaca.
Para quem busca versatilidade sem precisar renovar todo o acervo de roupas, pequenos detalhes podem fazer toda a diferença. “Uma dica bem bacana é apostar nos acessórios e em diferentes combinações de peças para formar looks que vão do mais formal ao casual”, sugere Isoton.
Acessibilidade x responsabilidade
Para que essa versatilidade seja possível, é fundamental apostar na moda circular, como destaca o especialista. “É importante entender que as roupas não precisam ser descartadas quando deixam de nos interessar. Elas podem ser revendidas em brechós ou passar por processos de upcycling, permitindo que a mesma peça continue gerando valor, renda e estilo”, ressalta Isoton.
Como evitar as compras por impulso?
O professor reforça a necessidade de conhecer o estilo pessoal, com isso podem ser escolhidos tecidos, cores e modelagens que melhor valorizam o corpo. “É possível fazer escolhas mais conscientes e certeiras”, frisa.
Algumas estratégias simples podem influenciar na melhor escolha, como:
- Faça uma lista antes de ir às compras;
- Espere 24 horas antes de comprar;
- Evite comprar em momentos de emoção;
- Estabeleça um orçamento;
- Reflita sobre o motivo da compra.
Brechós, aluguel de roupas e customizações
Esse tipo de consumo, conhecido como “moda circular”, tem como objetivo eliminar o desperdício e manter os recursos em uso pelo maior tempo possível, como explica o docente. “Em vez de descartar, prioriza-se reutilizar, reparar, reciclar e regenerar materiais e produtos. Seu objetivo é criar sistemas produtivos mais sustentáveis, restaurativos e eficientes. Sendo assim, a prática de brechós e aluguel de roupas está alinhada com a economia circular, uma vez que não é necessário fazer uma roupa, já que ela já existe. Isso preserva os recursos naturais ao mesmo tempo que fomenta o varejo e a economia local”, esclarece.
Como consumir moda da maneira correta
Consumir moda de forma consciente vai muito além de seguir tendências. Isso envolve adotar práticas sustentáveis, priorizando a qualidade, a durabilidade e o menor impacto ambiental possível. Esse cuidado começa na escolha das peças, se estendendo ao modo como são usadas e mantidas, e inclui também o descarte adequado, evitando o desperdício e incentivando o reaproveitamento. “Moda não diz respeito apenas à estética, beleza ou consumo. Ela é um reflexo da sociedade e envolve diversas etapas. Quando compreendemos esses processos, conseguimos fazer escolhas mais conscientes e desenvolver um olhar mais crítico”, destaca o professor. Ele ainda ressalta que, apesar dos desafios que o setor enfrenta, não se pode ignorar a relevância da moda para o desenvolvimento econômico local e regional. “Por isso, é fundamental valorizar os pequenos negócios e iniciativas locais, que movimentam a economia e contribuem para uma cadeia mais justa e sustentável”, finaliza.