Estava eu na academia, conversando com o professor Amauri — leitor assíduo dos meus textos — sobre qual seria o próximo tema, já que eu estava sem ideias. Eis que ele, com a sutileza de quem conhece minhas implicâncias, me diz:
— “Olha essas duas moças ali, falando de receitas de Airfryer. Eu odeio Airfryer. Tu podia falar disso, Suelen!”
Como pensamos parecido, resolvi escrever.
Se tem algo que me deixa possessa é seguir modinha e gastar dinheiro com o que todo mundo jura ser maravilhoso… e você descobre que não serve pra nada. Já comprei muitas besteiras na vida, mas poucas me arrependi tanto quanto da Airfryer — que, de tão “boa”, nem nome em português tem. Imagine minha mãe indo comprar: sem saber pronunciar e, se fosse explicar ao vendedor, diria algo assim:
— “Moço, eu queria aquele negócio que frita sem óleo, assa mas não é forno, que abre e enche de coisa… tipo batata!”
Eu sou professora de inglês, mas vivemos no Brasil e sou contra estrangeirismos desnecessários. Devia ter um nome aportuguesado. Mas, mesmo com um nome bonito, continuaria achando de utilidade duvidosa. Quem me conhece sabe que sou raiz: gosto de cozinhar no fogão a lenha, no fogão a gás, usar espeto ou forno. Não me venha com essa história de Airfryer.
Tem gosto de quê isso aí?
De nada. Gosto de modismo disfarçado de saúde. A comida sai dali com textura de isopor e aroma de queimado. É aquele tipo de compra feita na ilusão de “agora vai!” — você tira do plástico já se sentindo um chef fitness. Só que não vai. Faz uma batata congelada e pensa: “Cadê o gosto de fritura? Cadê a crocância prometida?”.
A Airfryer é o símbolo da modernidade sem alma. É o cúmulo do “fast e fake”: não basta comer rápido, tem que parecer saudável. Só que o problema nunca foi a gordura e sim o vazio existencial de fingir que está tudo certo enquanto se come uma coxinha sem graça nenhuma.
E o tamanho? Ocupa metade do balcão da cozinha. É um trambolho com cara de espaçonave, cuja principal função é me lembrar da frustração consumista.
Quanto aos livros de receita… uma piada. “Faça pão de queijo na Airfryer em 7 minutos!”. Você segue tudo direitinho e, ao tirar, encontra pães que parecem bolinhas de gude deprimidas: não cresceram, não douraram… só ficaram ali, mornos e medianos.
No fim, a minha Airfryer virou objeto decorativo. Serve pra guardar pão dormido, apoiar pano de prato e, de vez em quando, esconder sacola plástica. E eu me pergunto: se minha avó fazia comida deliciosa sem isso, será que eu preciso? Resposta: não.
E não é só comigo e com o Amauri. Conheço gente que guarda a Airfryer na lavanderia. Sabe o que isso significa? Que a modernidade tem data de validade. O ciclo natural dos eletrodomésticos é sempre o mesmo: nasce no desejo, vive na bancada e morre no armário — às vezes soterrado por potes de sorvete vazios.
Então, se você pretende me convidar pra comer batata frita, por favor, não venha com receita de Airfryer. Pode até ser mais saudável, mas o cheiro e o gosto de comida caseira, que são a alma de qualquer jantar… isso, meu amigo, ela não tem.