Dores na face, estalos na mandíbula ou dificuldade para mastigar podem ser sintomas de um problema que atinge milhares de pessoas
A má oclusão, popularmente conhecida como mordida errada, vai muito além de uma questão estética. O desalinhamento dos dentes pode desencadear uma série de problemas funcionais e de saúde, afetando a qualidade de vida dos pacientes. A médica Graziela Moro, especialista em odontologia integrada, esclarece que a condição pode ser identificada por meio de sintomas visuais e em exames. “Alguns sinais comuns são dentes desalinhados, dificuldade para mastigar, desgastes irregulares, dores musculares na face e até estalos na articulação. Muitas vezes o próprio paciente percebe algo ‘estranho’ no encaixe dos dentes, mas o diagnóstico completo só é possível com avaliação clínica e exames de imagem”, aponta.
Tipos de mordida

O diagnóstico preciso exige uma avaliação clínica detalhada e exames de imagem, que permitem ao profissional classificar a má oclusão. “Os tipos mais comuns incluem a mordida aberta, quando os dentes da frente não se tocam; a mordida cruzada, em que os dentes superiores se encaixam por dentro dos inferiores; a mordida profunda, com os dentes de cima cobrindo excessivamente os de baixo; e o prognatismo ou retrognatismo, caracterizados pelo avanço ou recuo da arcada dentária”, esclarece Graziela.
O problema pode surgir em qualquer faixa etária, mas as causas variam. “A má oclusão pode ser diagnosticada já na infância, principalmente quando relacionada a hábitos como chupeta, sucção digital ou respiração bucal. Na adolescência, costuma ser a fase mais indicada para iniciar tratamentos ortodônticos, porque o crescimento ósseo ainda está em andamento. Em adultos, os problemas geralmente estão ligados a fatores genéticos, perdas dentárias ou desgastes ao longo dos anos”, cita como exemplos.
Ela salienta ainda que adiar o tratamento pode trazer consequências como perda de dentes, retrações gengivais, dores crônicas, problemas na articulação temporomandibular (ATM) e até comprometimento estético e da autoestima. Ela reforça que, quanto mais precoce o diagnóstico, mais simples tende a ser o processo de correção.
As consequências da má oclusão não se restringem à boca. Graziela explica que a condição pode causar dores de cabeça, de ouvido e tensão muscular. Um dos impactos mais graves é a sobrecarga da articulação temporomandibular, que pode resultar em disfunção da ATM. “A mordida errada é um dos fatores que pode desencadear ou agravar a disfunção da ATM, já que o encaixe inadequado sobrecarrega a articulação”, afirma a especialista. Em alguns casos, a má oclusão é a causa da disfunção, enquanto em outros, a disfunção preexistente na ATM pode alterar a posição da mordida. Por isso, a avaliação precisa ser abrangente, buscando a origem do problema.
Solução para o problema
Os tratamentos para corrigir a mordida errada são diversos e dependem da gravidade do caso. “Em crianças, usamos aparelhos ortopédicos para estimular o crescimento correto dos ossos. Já em adolescentes e adultos, aparelhos fixos ou alinhadores transparentes são as opções mais indicadas. Quando há envolvimento da ATM, associamos placas estabilizadoras, fisioterapia orofacial, laserterapia e até controle de hábitos musculares. As novidades estão justamente em tratamentos mais personalizados, com tecnologia digital para planejamento e acompanhamento, garantindo maior precisão e conforto”, orienta.
Em situações extremas, quando a correção com aparelhos não é suficiente, a cirurgia ortognática é a única solução. “Ela é indicada quando a má oclusão não pode ser resolvida apenas com aparelhos. O procedimento reposiciona a mandíbula e/ou a maxila, restabelecendo o equilíbrio entre estética, função mastigatória e saúde da articulação. Geralmente é realizado em conjunto com o tratamento ortodôntico, garantindo resultados completos”, explica Graziela.
O tratamento de casos complexos, que envolvem a disfunção da ATM, exige paciência. Segundo a médica o maior desafio é equilibrar a resposta dos diferentes tecidos. Enquanto dentes e músculos podem responder rapidamente, a articulação precisa de mais tempo e cuidado. A procura por um especialista ATM deve ocorrer assim que o paciente notar os primeiros sintomas. “Quando além do desalinhamento dos dentes, o paciente sente dores faciais, estalos, travamentos, zumbido ou dores de cabeça frequentes, é hora de buscar um especialista em ATM. O ortodontista corrige a posição dentária, mas quem atua diretamente sobre a articulação tem um olhar mais específico para evitar sobrecargas e aliviar sintomas. Muitas vezes, o ideal é o trabalho conjunto”, orienta.
Para os leitores, a especialista deixa uma mensagem final: “Cuidar da mordida não é apenas uma questão estética, mas sim de saúde e qualidade de vida. Uma boa oclusão garante conforto ao mastigar, protege as articulações, melhora a postura e até a respiração”. Ela orienta que, ao notar sinais como dor, estalos ou desgastes, o paciente procure um especialista para transformar sua saúde bucal e geral.