Não posso esquecer do ronco da camionete azul D-10 de meu pai, que surgia na esquina como quem acelera forte e troca de marcha.
Quando uma pessoa se vai, a pior parte é a ausência dos pequenos hábitos que viram saudade. No caso do meu pai, além da churrasqueira que esfriou para sempre e da calçada que já não recebe vizinhos e amigos reunidos ao redor de sua presença, há o varal repleto das roupas de futebol, o perfume importado que ele tanto gostava, o cheiro dele no travesseiro. Mas o que mais me aperta o peito é quando vejo, por acaso, uma D-10 azul cruzando a rua com um ronco parecido. Nesse instante, o coração dispara, a memória desperta, e a ausência se torna ainda mais presente.
Descobri que a saudade não é feita de grandes momentos, mas de detalhes que ninguém percebe além de nós. Não é apenas a falta do abraço, mas do gesto de abrir a porta, da risada repetida, do conselho dito de passagem. É o silêncio que fica onde antes havia voz. A D-10 azul se tornou símbolo disso tudo. Era nela que meu pai ia ao trabalho, buscava a família, ajudava os amigos. Um veículo simples, mas que carregava histórias, cheiros, músicas de rádio, conversas interrompidas pelo barulho do motor. O mundo girava dentro daquela camionete. Hoje, cada vez que escuto um ronco semelhante, sinto que ele volta por um segundo, como se estivesse prestes a virar a esquina e descer com o sorriso de sempre.
Vivemos correndo atrás de conquistas, preocupados em acumular bens, status, títulos. Mas quando a vida nos tira alguém, é cruelmente honesta em mostrar que o que realmente importa nunca esteve no tamanho da casa, no saldo do banco ou nas viagens feitas. Importa o cheiro do travesseiro, o ronco da camionete, a sombra na calçada. Importam as marcas invisíveis que ficam em nós.
Mas talvez o pior de perder alguém não seja apenas a saudade do que vivemos, mas o vazio do que não viveremos mais. Os dias ficam ocos sem os planos que traçamos juntos — a viagem que não aconteceu, o churrasco prometido, a conversa adiada para “qualquer dia”. É essa interrupção abrupta que mais dói: perceber que o tempo não nos deu a chance de cumprir o combinado, de realizar o simples que já era suficiente. A ausência não é só do que foi, mas do que deixou de ser.
Meu pai se foi, mas a D-10 azul continua a rodar nas minhas lembranças, como uma trilha sonora de saudade. Talvez seja isso que a vida tenta nos ensinar: que a memória é a forma mais fiel de presença. E que amar é continuar escutando, dentro de nós, o motor que nunca se apaga.