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Recentemente a Sociedade Brasileira tomou conhecimento pelos diversos meios de comunicação de massa sobre o resultado do exame ENAMED. Uma das várias avaliações feitas sobre a qualidade do ensino médico em nosso país.
Quando confrontamos questões que nos atingem enquanto cidadãos que usam os diversos serviços de saúde pelo Brasil afora, nos perguntamos com total legitimidade: Qual a competência técnica daquele profissional médico que irá me atender? Qual sua formação? Cada vez mais estas questões vêm à nossa consciência, sobretudo pelo grande aumento de cursos de medicina e formação de médicos nos últimos anos. Sabidamente abertas em excesso e sem a proporção correta com as demandas de saúde. Esse aumento de formação de médicos não vem necessariamente acompanhada de melhoria na qualidade deles. Boa parte dos médicos não terá oportunidade de fazer especialização formal (Residência Médica), por um motivo simples: não há vagas disponíveis para a maioria dos médicos formados atualmente e esta proporção tende a piorar nos próximos anos.
Junte-se a isso a banalização da informação distribuída pelas mídias sociais em que todos são especialistas de tudo, opinam sobre tudo e detém a verdade mais absoluta e a certeza da cura e da juventude eterna. Muito cuidado com promessas fáceis, soluções aparentemente engenhosas, explicações para tudo. Usar um suplemento ou uma fórmula ou um conjunto de medicamentos e suplementos e retardar o envelhecimento. Tristemente soa aos ouvidos de quem busca a juventude eterna a chave para a eternidade jovem. Puro mito e fantasia.
Na condição de professor da Universidade Federal de Ciências da Saúde, cujo curso de Medicina completa 65 anos de existência neste ano, fico naturalmente feliz pelo resultado de nosso desempenho no Enamed, produto de experiência, zelo, tradição e esforço adaptativo às novas demandas da formação médica. Parabenizo a UFCSPA, A PUCRS, notas máximas no Rio Grande do Sul, assim como UCS e UFRGS, muito bem posicionadas, entre outras gaúchas. Não obstante ficamos e estamos profundamente preocupados com este diagnóstico apresentado na divulgação da avaliação. O Brasil registrou cerca de 575.930 médicos ativos no início de 2024, com previsão de estarmos em 635.706 neste mês de março de 2026. Em 2025, a proporção é de quase 3 médicos por 1.000 habitantes, uma das maiores da história do país. O número de médicos tem crescido a uma média de 5% ao ano desde 1990, ultrapassando o ritmo de crescimento populacional vigente. Cerca de 76% da população brasileira depende do SUS (Sistema Único de Saúde). Um bom médico é fundamental no atendimento ao paciente não apenas pelo conhecimento técnico, mas pela capacidade de oferecer um cuidado humanizado, acolhedor e seguro. Sua importância se reflete diretamente na eficácia do tratamento, na confiança do paciente e na qualidade de vida.
Os principais aspectos que destacam a importância de um bom médico incluem valores e capacidades tais como Humanização, Empatia, Acolhimento na Vulnerabilidade, Diagnóstico Preciso e Rápido, Confiança e Adesão ao Tratamento e Tratamento Personalizado além da Prevenção de Doenças. Tais condições necessitam tempo e dedicação dos alunos e mestres e estrutura de apoio para essa formação. Isto tudo não se conquista por decreto, é importante salientar, e não se mede por provas de conhecimento. Na mesma linha de raciocínio observar desempenhos tão insuficientes, nos retrata um diagnóstico pungente. E nos lança na grande questão: que profissionais queremos para nossa sociedade e que profissionais de fato estamos obtendo? Lembrar que o ponto de corte é 60% de acertos de uma avaliação teórica que sequer leva em conta competências como atuar em contextos desfavoráveis, poucos recursos diagnósticos, pressão por resultados sempre favoráveis, exigências técnicas que se modificam muito rapidamente. Este é o panorama. E estão considerados aptos os que atingiram 60% das questões.
Confiança no exercício da medicina é quase uma palavra mágica. Se presente auxilia, conforta, assegura. Se ausente permite abrir o Vaso de Pandora de onde emerge desconfiança, medo, insegurança, entre outros. Isto compromete o resultado final: a saúde e o bem estar da população. Aumentar cursos de medicina exige entender primeiro as razões que determinam este movimento: Precisamos? Queremos? Podemos? Ou uma outra pergunta mais simples e derradeira: quem realmente tem a ganhar com este aumento indiscriminado de cursos de medicina em nosso Brasil? Fica para o leitor possíveis respostas. Lembrando que uma mensalidade de curso de medicina pode girar entre 7 e 15 mil reais por mês, em turmas de 100 alunos. A conta é interessante. Sim. É um bom negócio para alguns. Mas nosso povo acabará por pagar esta conta e de forma bem cara. Profissionais pouco preparados, sem campos de prática e com ensino simplificado e multiplicado ao desvario, são jogados no mercado de trabalho em busca de sucesso profissional.
A grande maioria não trilhará para Residência Médica, simplesmente porque não há vagas para tantos candidatos. Especializações com residência médica demandam tempo, professores, estruturas de ensino e custo. Boa parte ficará à mercê de intermediários de serviços de saúde, explorando o trabalho médico em troca de estipêndios desumanos. O ciclo da precarização avança. O brasileiro-cidadão-paciente mais uma vez será prejudicado. Precisamos refletir sobre estas questões. Já estabelecemos o diagnóstico. E precisamos também nos mobilizar como sociedade para estancar essa sangria. Estabilizar a condição clínica dessa paciente muito doente chamada MEDICINA e propor um tratamento. Seja cirúrgico ou clínico. Controlar criação de novos cursos, avaliar e melhorar os que já temos. Se precisar descontinuar os que não são viáveis. Provas de proficiência e competência a exemplo do que se aplica a Ordem dos Advogados do Brasil, precisam ser consideradas. E como medida preventiva rastrear e redistribuir a densidade demográfica médica brasileira, que embora em surpreendente crescimento de natalidade, segue e seguirá se concentrando em capitais e grandes centros em detrimento ao interior e zonas mais necessitadas. Melhorar a saúde não é aumentar número de médicos.