A prática reúne espiritualidade, ervas e gestos simbólicos e alerta para a importância de preservar conhecimentos tradicionais frente à modernidade

Em meio aos avanços da medicina e às mudanças nos hábitos das novas gerações, uma tradição popular centenária começa a desaparecer silenciosamente em muitas comunidades do interior do Brasil: o benzimento. A prática, transmitida de geração em geração, combina fé, rezas e gestos simbólicos usados para aliviar dores, afastar o “mau-olhado” e tratar males físicos e espirituais. No entanto, com o passar do tempo e a falta de pessoas dispostas a aprender os rituais, o número de benzedeiras e benzedores tem diminuído cada vez mais.
Em Bento Gonçalves, sinais de mudança na tradição do benzimento já podem ser percebidos. Uma enquete realizada no Instagram do Semanário indicou que nenhum participante afirmou conhecer benzedeiros ou benzedeiras ativos na cidade, embora alguns ainda atuem. O levantamento, apesar de informal, evidencia a diminuição da visibilidade dessa prática cultural que durante muito tempo esteve presente em diversas comunidades do interior.
Historicamente comum em áreas rurais e pequenas cidades, o benzimento ocupava um papel importante na cultura popular, especialmente em períodos em que o acesso aos serviços de saúde era limitado. Atualmente, porém, a tradição enfrenta o desafio do tempo: muitos praticantes envelheceram e poucos jovens demonstram interesse em aprender os rituais e orações, que sempre foram transmitidos de forma oral dentro das famílias.

Arruda é uma planta muito utilizada durante os atos

Raízes e influência cultural
De acordo com Jaqueline Barbosa, professora de benzimento, a prática tem raízes muito antigas, anteriores até mesmo ao cristianismo. “Ele nasce das práticas de cura dos povos originários, das benzedeiras europeias medievais, das tradições africanas e indígenas que chegaram ao Brasil e aqui se entrelaçaram”, explica.
A professora ressalta que, no Brasil, o benzimento foi profundamente moldado pelo encontro de diferentes tradições culturais e religiosas. Segundo ela, a influência do catolicismo popular se misturou aos conhecimentos tradicionais de povos originários e às práticas de cura espiritual de matriz africana, formando um saber transmitido ao longo de gerações. “Sobre ervas e as tradições africanas de cura espiritual. O benzimento é um saber ancestral que carrega a memória de muitos povos”, destaca.

Transmissão de geração em geração
Ao longo de décadas, o benzimento foi preservado principalmente pela transmissão oral dentro das famílias e comunidades. O conhecimento das rezas, gestos e do uso de ervas medicinais era repassado de geração em geração, geralmente de pessoas mais velhas para os mais jovens, mantendo viva uma tradição profundamente ligada à fé e à cultura popular. “Foi transmitido de forma oral e vivencial. Não era algo aprendido em livros, mas no convívio, observando a avó, a madrinha, a vizinha da comunidade”, explica a professora. Além disso, ela menciona a transmissão pelo “chamado”. “Muitas benzedeiras relatam terem aprendido após um sonho, uma experiência espiritual ou por orientação de alguém mais velha que “passava” a oração. Era um saber guardado, respeitado e passado no tempo certo”, salienta.

O que caracteriza um benzimento
Jaqueline frisa que o ato forma uma triangulação sagrada entre três elementos. “Quem benze, a espiritualidade e quem recebe. O benzedeiro atua como canal da energia, sendo essencial a sua intenção e fé. A espiritualidade é a fonte dessa força, que não pertence ao praticante, mas flui através dele; e a pessoa benzida representa o terceiro vértice, cuja abertura e receptividade potencializam o processo”, ressalta a professora.
Segundo especialistas, o benzimento envolve uma combinação de elementos que vão além do ritual em si. A prática reúne oração, intenção e fé, formando uma espécie de tríade simbólica que, para muitos praticantes, cria um ambiente propício à cura e à transformação espiritual. Nesse contexto, a fé é vista como central, enquanto a mudança e o bem-estar também dependem da abertura e da disposição interior de quem recebe o benzimento. “Apesar de ser um ritual de cura que utiliza rezas, gestos, ervas e objetos para abençoar pessoas, lugares ou situações, não existe uma forma única de se fazer ou elementos indispensáveis. É um ato de bondade e caridade. É a expressão do desejo sincero de ajudar o próximo, sem restrições de tempo ou lugar”, afirma.

Plantas e a conexão com a natureza
Ela explica que as ervas acompanham a humanidade desde os primórdios, inicialmente como alimento e, ao longo do tempo, também como recurso medicinal e espiritual. Seu alcance é amplo: sustentam a vida, promovem a saúde, equilibram o meio ambiente, influenciam o bem-estar emocional e carregam profundo valor cultural e sagrado.“Além dos benefícios físicos, as plantas possuem força energética e atuam nos processos de limpeza e cura quando utilizadas com responsabilidade e consciência. No entanto, não basta escolher a erva adequada à sua função energética, é a intenção e o estado interior de quem a manipula que despertam sua verdadeira potência”, relata Jaqueline.
Compreender e integrar os elementos da natureza é fundamental na prática, já que é a conexão consciente entre o benzedor, as plantas e o propósito que garante a eficácia do atendimento. No seu trabalho, ela também ensina a classificação das ervas, mostrando como esse conhecimento influencia diretamente na forma correta de utilizá-las, potencializando seus efeitos medicinais e espirituais.

O que é fundamental para a prática
A professora frisa que, para se tornar um benzedor ou benzedeira, é necessário cultivar intenção pura, fé sincera e compromisso com o bem. “O benzimento não é apenas um ritual, mas um ato de amor e reconexão com a própria essência, com o outro e com o divino. Mais do que repetir palavras ou gestos, é preciso desenvolver consciência espiritual, respeito pela tradição e responsabilidade ao lidar com a energia e a vida das pessoas”, orienta.
A especialista ressalta que, para a prática ser eficaz, é fundamental fortalecer a própria espiritualidade e realizá-la de forma genuína, a partir do coração. A simplicidade, a humildade e o desejo sincero de ajudar são pilares dessa tradição, já que a força não reside apenas nos gestos ou nas rezas, mas na fé e na sinceridade que acompanham cada oração.
Jaqueline destaca também orientações essenciais para a prática. “Não substitui acompanhamento médico ou psicológico. Ele não compete com os tratamentos convencionais, ao contrário, atua como complemento, como um bálsamo que a natureza e a espiritualidade oferecem na jornada de bem-estar”, esclarece.
Ela enfatiza que é fundamental nunca suspender tratamentos médicos, evitar prometer cura e não criar dependência espiritual. Também é essencial que o benzedor reconheça seus próprios limites e encaminhe a pessoa para outros profissionais quando necessário. Segundo ela, a espiritualidade madura anda lado a lado com a responsabilidade: cuidar significa respeitar a ciência, os processos individuais e os limites da própria prática.

Demandas mais comuns
A especialista frisa que as necessidades mais comuns de quem procura o benzimento estão diretamente ligadas ao sofrimento emocional e ao desgaste da vida moderna. “Muitas pessoas chegam relatando ansiedade, cansaço energético, sensação de peso ou bloqueio, como se algo estivesse desalinhado em suas vidas”, revela.