Os esportes eletrônicos deixaram de ser apenas entretenimento para ocupar espaço definitivo na economia criativa e no cenário esportivo global. Campeonatos internacionais, transmissões milionárias e atletas com contratos profissionais já fazem parte da realidade dos e-sports. Na avaliação de Marcelo Luis Fardo, coordenador dos cursos de Criação Digital e Jogos Digitais da Universidade de Caxias do Sul (UCS), o crescimento acelerado do setor é resultado de uma combinação de fatores estruturais e culturais.
Segundo Fardo, a expansão da internet de alta velocidade, o acesso facilitado a computadores, consoles e, principalmente, smartphones, além da popularização das plataformas de streaming, criaram as condições ideais para o fortalecimento do cenário competitivo. “O Brasil sempre teve uma cultura forte de consumo e engajamento com jogos digitais”, destaca.
Região em amadurecimento
Na Serra Gaúcha, o avanço dos e-sports acompanha o fortalecimento de um ecossistema criativo local. Cursos superiores ligados à indústria digital, eventos voltados à cultura gamer, estúdios independentes surgindo e um público jovem conectado contribuem para a consolidação desse mercado. “Essa convergência entre formação técnica, mercado criativo e comunidade, constrói um ambiente propício para o crescimento dos esportes eletrônicos”, explica Fardo.
Embora a Serra ainda não sedie eventos de grande porte como o Campeonato Mundial de League of Legends (Worlds), competições locais organizadas por comunidades e empresas vêm ganhando espaço. Para o coordenador, esses torneios são fundamentais para formar público, revelar talentos e estruturar a base da pirâmide competitiva.

Profissionalização muda percepção sobre jogos
A transformação mais significativa dos últimos anos, segundo Fardo, está na qualificação do setor. Equipes multidisciplinares, contratos formais, preparação física e psicológica, análise de desempenho e gestão estratégica aproximaram os e-sports do modelo de alto rendimento já consolidado nos esportes tradicionais.
Esse movimento também impactou a visão da sociedade. “A cobertura da mídia e os investimentos de patrocinadores ajudaram a deslocar a percepção dos jogos como ‘mera diversão’ para uma atividade que envolve técnica, disciplina, trabalho em equipe e geração de receita”, afirma. O mesmo ocorre com a indústria de desenvolvimento de jogos, hoje considerada setor econômico relevante.
Apesar dos avanços, ele ressalta que o processo de amadurecimento ainda é mais consolidado em países desenvolvidos e segue em construção no contexto regional.
Impacto econômico e comparação com esportes tradicionais
Em termos de organização e reflexo financeiro, grandes ligas internacionais de e-sports já operam com calendários oficiais, franquias, direitos de transmissão e patrocínios robustos. Em audiência digital e engajamento, muitas modalidades eletrônicas rivalizam com esportes clássicos.
Ainda assim, Fardo pondera que os esportes tradicionais contam com décadas de estrutura institucional, enquanto os e-sports são mais dinâmicos, com mudanças frequentes de jogos e formatos competitivos.
Universidade como protagonista
Para o coordenador da UCS, as instituições educacionais têm papel estratégico no fortalecimento do setor em três frentes: formação, pesquisa e extensão. Na graduação, cursos como Jogos Digitais, Criação Digital, Design, Tecnologia da Informação, Marketing e Produção Audiovisual preparam profissionais para diferentes áreas da cadeia produtiva.

Na pesquisa, há espaço para estudos sobre game design, experiência do usuário, psicologia do desempenho e modelos de negócios. Já na extensão, campeonatos universitários, incubação de startups e criação de laboratórios de inovação podem impulsionar o ecossistema regional.
Mercado vai além dos atletas
O crescimento dos jogos eletrônicos e campeonatos não se restringe aos jogadores profissionais. O setor abre oportunidades para desenvolvedores, game designers, programadores, artistas 2D e 3D, especialistas em UX/UI, produtores de eventos, narradores (casters), analistas de desempenho, profissionais de marketing digital, gestores de comunidades e técnicos. “Trata-se de uma cadeia produtiva ampla, que dialoga diretamente com a economia criativa e com a indústria de tecnologia”, reforça Fardo.
Desafios e tendências
Ingressar nesse universo exige preparo. A alta competitividade, o nível técnico elevado e a necessidade de disciplina, preparo físico e mental e planejamento de carreira são desafios semelhantes aos enfrentados em esportes tradicionais. Para quem atua na organização ou no desenvolvimento de jogos, a atualização tecnológica constante e o trabalho em equipes multidisciplinares são indispensáveis.
O Brasil, por sua vez, destaca-se internacionalmente pelo tamanho do mercado, cultura competitiva e engajamento da comunidade gamer. Resultados expressivos de equipes nacionais reforçam a legitimidade do cenário e inspiram novas gerações.
Para o futuro, Fardo aponta tendências como maior integração com a mídia tradicional, crescimento das ligas universitárias, uso intensivo de análise de dados e inteligência artificial para performance, ampliação da presença feminina e maior diversidade no setor, além da incorporação de tecnologias imersivas. “Esse cenário tende a se consolidar como parte da economia criativa e da indústria do entretenimento digital, com impacto cada vez mais relevante também em polos regionais como a Serra Gaúcha, gerando renda e oportunidades profissionais para as novas gerações”, conclui.