VIDA VIVIDA – O ENQUADRAMENTO
Eu estava solto, de um lado convivia com amigos do “baixo clero”, de outro, com a elite social. Todos amigos entre os meus 16-18 anos. Tudo isso era coroado com o fato de eu ter deixado, por minha iniciativa e bancado com os meus trambiques, um apartamento no Edifício Menegotto, com cama e duas janelas; a cama era de solteiro, uma das janelas dava vista para a Prefeitura, a outra para a rua Saldanha Marinho. Quer dizer, era de “esquina”. O banheiro? Era coletivo, que eu dividia com outros 15 hóspedes daquele andar. Bolei um plano de ação, quando todo mundo estava dormindo e quando todo mundo ainda não tinha acordado, lá ia eu pro banheiro que, na verdade, era um “banheirão”. Minha morada ali, cerca de 3 anos, era “top secret”, em razão da elite social não considerar o local não muito recomendável para “fins de alquimia social”. Mas foi um período feliz, era “autônomo” e morava num “AP”, só meu.
O ENQUADRAMENTO
Meu pai, comerciante, deve ter visto que, na minha atividade econômica e residência própria, me “enquadrou”, decretando: “tu vem ajudar na alfaiataria e ser balconista da loja”, estudos à parte. Minha atividade na alfaiataria se concentrava na limpeza, eu estava sempre com vassoura na mão, hábito que conservo até hoje, não vivo sem uma vassoura na mão. Como segunda tarefa era alimentar o ferro com brasas trocando o carvão e, num estágio superior, passar a ferro os paletós. O acabamento, ombros, gola e mangas, meu pai fazia. O atendimento da loja, com as duas vitrines expositoras, era um “saco”. Vocês já entraram numa loja que vende chapéus? O cliente quer aquele chapéu que tu não sabe se tem e quer aquele número que se o cabelo ta comprido é menor e se o cabelo tá curto o número é maior. E o cliente fica decidindo ali, no balcão, se vai cortar o cabelo ou se vai deixar ele curto. Mais um agravante: quando eu ia tirar as caixas lá do alto da prateleira, vez por outra, despencavam todas; quando eu ia colocá-las de volta, me lembrava do meu avô, com o “me fá mal la esquena”. Eu gostava de manter a loja organizada e limpa, a calçada eu limpava a da loja, a dos vizinhos, mas, antes da varrida eu olhava para cima e para baixo para ver se alguém da “elite social” não estaria observando. “Não pegava bem”, eu “tinha que me preservar, era do jogo”. Hoje eu e minhas vassouras coloniais, varremos a calçada da residência abanando para o “buzinaço”. Na praia, dou vassouradas no pátio, na calçada da minha casa e dos vizinhos, tô nem aí, meu lema não é o “minha casa, minha vida” é o “minha vassoura, minha vida”. O Prefeito Diogo, “perseguidor implacável dos sugismundos”, deveria me dar uma medalha de “honra ao mérito”. A alfaiataria era uma “festa”, meu pai era considerado um “excelente alfaiate, caprichoso, competente e exigente”, como deve ser um profissional do ramo. Tinha inúmeros clientes, a loja vendia produtos de grife, chapéus Prada, camisas Tannhauser, calçados de couro alemão, meias Lupo, gravatas de seda, isso tudo está voltando com força no mercado. Essa plenitude toda meu pai compartilhava com seus amigos, da turma da bocha, da turma dos caçadores, dos vendedores entre os quais tinha amigos e os jogadores do Esportivo, tudo isso dava um clima fraterno e festivo ao ambiente, eu gostava disso, tava sempre ali, ouvindo histórias, até caçador eu me tornei, fracassado, como ser bom caçador se tu tem pena dos bichos?
O ESPORTIVO
Eu tenho uma foto, vou tentar encontrá-la do meu pai assistindo jogo do Esportivo no pavilhão social, todos engravatados como se fossem ingleses. Ele vinha de mula do Barracão para ver os jogos e a “estacionava” na frente da Prefeitura onde era o “MULÓDROMO”. O estádio ficava no terreno da Família Salton, onde está localizado o super Caitá. Quando eu era guri, o Esportivo disputava competição regional enfrentando Santa Cruz – Lajeadense – Encantado – Fortes e Livres de Muçum, não lembro se o Roca Sales disputava. Se o Esportivo ganhava do Fortes e Livres, cada jogador ganhava uma meia; se ganhasse do Lajeadense ou Santa Cruz, ganhava uma camisa ou uma gravata. Na segunda-feira, após o jogo, os jogadores vinham até a loja apanhar seu prêmio. Lembro de meus ídolos: o goleiro uruguaio Aritzábal, o centro médio Casquinha e a dupla de ataque Glênio e Julinho. Dificilmente nós ganhávamos do Santa Cruz e, do Lajeadense, de vez em quando!
OS JOGOS MEMORÁVEIS
Nos jogos do estádio da Montanha eu dava uma de repórter fotográfico, em razão de ser filho do benfeitor Almir Caprara, meu pai, me deixavam entrar no campo e eu, com a minha kodakezinha me postava sempre atrás do goleiro do adversário. O lajeadense tinha o goleiro ASSIS que pegava tudo, mas tinha um zagueiro chamado Edvi que era um “carniceiro”. Num jogo ele bateu muito no Julinho de raiva eu entrei pequena área quando fizemos 2×1 atirei na cabeça dele a minha Kodak só que errei o alvo e acertei no ASSIS. O juiz interrompeu o jogo chamou a Brigada para me tirar do campo, dois brigadianos me suspenderam pelos braços e eu sacudia as pernas e gritava “me larga, me larga”. E os brigadianos me largaram, “na calçada, fora do campo”. No dia seguinte, levaram o Julinho, eu estava lá, no fotografo Pavoni, que ficava onde é o Shopping Bento. Durante 1 hora encheram o Julinho, cabeça, braços, pernas de esparadrapo branco parecia um fantasma. Foto tirada, foto enviada para os jornais da Capital. A ZERO HORA publicou, foi um escândalo, Edvi arrebentou o Julinho, mas “não tanto assim”. Num outro jogo, contra o Santa Cruz, Bento inteira foi a Porto Alegre numa quarta-feira a tarde para assistir, acho que eu não erro em dizer que Bento tinha 40 a 50 mil habitantes e no mínimo, 1500 pessoas estavam lá no então estádio do Cruzeiro, hoje transformado em cemitério. Perdemos o jogo por 2×1 e, por consequência a classificação. Todas essas evidências me tornaram ferrenho torcedor do ESPORTIVO e do INTER, pois quando um ou outro perdia meu pai chorava e, para não ver ele chorar eu torcia para o INTER. Aos 20 anos eu fui eleito Vice-presidente de administração do Esportivo. O Presidente era Vitale Camilo, o Vice de Futebol, Roberto Ross, e o Diretor de Futebol, Soly Pompermayer. O técnico era o Enio Andrade. Com a renúncia de Vitale o Roberto assumiu a Presidência. O Clube não estava bem e para piorar Enio Andrade foi contratado pelo Grêmio. Nos reunimos no restaurante do Anápio Jacques, que ficava ali no Borgo, onde é hoje a Hyundai. Chegamos às 17 horas com o Enio dizendo “não posso, não posso indicar jogador para o Grêmio”. Quando chegou às 3 horas da manhã, o Enio disse “vou pensar”, festejamos porque quando Enio dizia “vou pensar” a resposta era “sim”. Talvez na oratória do convencimento, o fato de duas vezes por semana eu ser parceiro do Enio nas sessões de sauna do Dall’Onder, tenha ajudado. Quem acompanhou esse desenrolar sabe que o valor da venda dos dois foi “duzentos mil”, não sei o valor de hoje. Com a venda o Esportivo “respirou”, Neca brilhou no Grêmio e foi parar no Palmeiras. Julinho fez muito sucesso como centroavante ágil e técnico, não lembro da trajetória profissional dele. Anos, muitos anos depois, assumi a Presidência do Esportivo, uma bela história de vida. Conto mais adiante.
COLORADO, COLORADO!
Eu sempre fui chorão. Chorava por apanhar, chorava ao ver meu pai chorar, chorei com as vitórias consagradoras do Esportivo quando Presidente, chorei muito na inauguração e na reinauguração do Beira Rio. Eu e meu pai; meus irmãos eram gremistas, fizemos parte desta história. Um dia meu pai chegou e disse “apanha o carro, põe 2 sacos de cimento no porta malas, aqui está o cheque para pagar 100 tijolos vai a Porto Alegre e entrega a contribuição da campanha para a construção do novo estádio. Fui, chegando lá, tinha uma casinha de madeira, de dentro dela saiu um senhor que me ajudou a descarregar os 2 sacos de cimento e recebeu o cheque que era nominal. Aí eu perguntei “onde vai ser construído o estádio”? Ele se virou e apontou para o GUAÍBA e me disse “tu está vendo aquela bóia vermelha lá”? “Sim” eu falei e ele “lá vai ser o estádio”. Chegando em casa eu entrei de sola e disse “pai, nunca esse estádio vai ser construído” e expliquei porque “vai ficar 500 metros dentro do rio, como vai ser possível”? Ele chorou por 3 dias e eu também com pena dele. E o gigante surgiu, estive em todos os jogos inaugurais, cansei de ser campeão pelo INTER, fui a festa de reinauguração, uma festa apoteótica, comandada por Fernandão, chorei o tempo todo inclusive por meu pai não estar ali, já tinha partido, mas, no estádio, num daqueles tijolinhos que tem no seu entorno, tem o nome dele. Pausa para chorar!