Provavelmente “Monjauro” será uma das palavras mais repetidas de 2026. E isso, mais do que tendência, é sintoma. Sintoma de uma sociedade que adoeceu o próprio corpo e agora busca um atalho químico para corrigir décadas de descuido coletivo.
Primeiro mudamos a comida. Substituímos o prato simples por produtos ultraprocessados, doces acessíveis, fast food prático e carboidratos baratos que prometiam saciar a fome e anestesiar a ansiedade. Durante anos nos convenceram de que ovo, feijão e carne vermelha eram vilões. Ao mesmo tempo, passamos a trabalhar sentados, produzir mais, dormir menos, nos mover quase nada. Estressados, acelerados, sempre atrasados. Criamos uma rotina inflamatória física e emocional.
Agora nos vendem a solução. Nunca foi tão “fácil” ser magro. Uma injeção, uma caneta, uma promessa. Diz uma amiga que só não emagrece quem é pobre. Discordo. Também não emagrece quem é consciente. Não se trata de atacar quem precisa de acompanhamento médico ou enfrenta obesidade com riscos reais. Trata-se de questionar a cultura da pressa estética. De olhar para quem quer perder cinco ou dez quilos e decide terceirizar ao medicamento aquilo que poderia ser revisto no prato, no sono, no movimento e na relação com o próprio espelho.
Ignoramos os sinais do corpo, relativizamos alertas sobre efeitos no pâncreas, minimizamos estudos ainda em andamento. O produto vai sair do mercado? Dificilmente. Porque o ciclo é perverso: primeiro nos vendem o estilo de vida que adoece; depois, a cura que lucra bilhões. Alimentação precária, álcool frequente, sedentarismo, dopamina barata em rolagens infinitas, pouca água, muito cortisol. E ainda queremos mérito com a lei do menor esforço.
Enquanto isso, mulheres continuam sendo julgadas pelo corpo que têm ou pelo que deixaram de ter. Paola Oliveira é criticada aos 47 anos por não caber em um padrão que muda conforme o algoritmo. Ontem as curvas eram celebradas nos concursos como o Garota Verão; hoje a régua oscila entre a magreza extrema e a hipervalorização artificial de lábios, cílios e contornos. Democrático seria aceitar a diversidade real. O que vemos, porém, é a padronização disfarçada de liberdade.
Alguém está lucrando com nossa insegurança e não estamos percebendo. A indústria do alimento ultraprocessado cresce. A indústria farmacêutica cresce. A indústria estética cresce. E nós, encolhemos. Encolhemos a autoestima, a tolerância à frustração, a paciência para processos longos. Emagrecer deixou de ser consequência de saúde para virar credencial de aceitação social.
Ser autêntico hoje é um ato quase subversivo. É olhar para o próprio corpo e entender que ele carrega história, fases, hormônios, maternidade, perdas, amadurecimento. Eu não sou mais como aos 20 anos. E quer saber? Ainda bem. Meu objetivo nunca foi congelar o tempo, mas viver com lucidez.
Cada um que escolha seu caminho. Mas que ele seja escolha, não imposição travestida de modernidade. Porque quando a solução vira moda antes de virar reflexão, talvez o problema seja maior do que o espelho mostra.
A pergunta não é onde vamos parar.
É quando vamos acordar.