VIDA VIVIDA
Vamos em frente então com os momentos vividos na idade entre 12 e 18 anos. Nas descrições que fiz ficou a descoberto, o que eu fazia depois que o Ir. Alfredo abria o portão, via de regra às 20 horas, não importando se a lua era crescente, decrescente ou cheia, a cheia tinha um atenuante, iluminava o meu caminho. Libertado, eu puxava, solitário, uma reta só, em direção a casa da minha avó, lá no Botafogo. Passava pelo Centro, subia a escadaria que une o Centro à Cidade Alta, na Vinícola Aurora, pelos trilhos, ia em direção a cama que me esperava, onde eu chegava. No trajeto, mentalizando orações e, sem olhar para os lados, eu repetia também “O Senhor é meu Pastor, nada me AFETARÁ”! Ficou pendente também revelar de onde saia o “dinheirinho” para bancar o pagamento dos pastéis, mil folhas, sonhos, torradas, baurus e refrigerantes, com coisinhas agregadas como guaraná, laranjada, tônica, etc.
A “ENXADA” URBANA
Foram duas ações no sentido de ganhar os “faz me rir, “skei”, “soldi”, “money”, interpretem como quiserem. A primeira brotou no Clube Corinthians, departamento de bolão. De assistente noturno das competições de lazer, eu acabei sendo juntador dos pinos e reposição da bola. Todos os dias, das 20 às 24 horas, lá estava eu, disposto e rápido, como os jogadores queriam, assim minhas “qualidades” rendiam um bom dinheiro. Paralelo a isso, não lembro quem era o meu fornecedor, eu vendia radinhos portáteis vindos do Paraguai, um sucesso nas vendas. Cheguei a fazer, por determinado tempo, até “jogo do bicho”. Essas eram minhas “enxadas urbanas” que me faziam sempre ter dinheiro no bolso, ao contrário de meus amigos ricos que, nem trabalhavam e nem tinha “mesada”, só estudavam. No Bar do Quito, não raro, eu pagava a continha da mesa deles e delas. Sendo assim, eu tinha uma militância com o “baixo clero” e com o “alto clero”, eu não, eu e meus chinelos de dedo. Mesmo com eles, quando as lindas namoradas brigavam com os “good boys”, eu as levava pra casa após o “happy hour”, desfilando pela Saldanha Marinho, numa boa, eu, ela e eles, os chinelos, eram uns queridos eles também, pois o dinheirinho no bolso impunha respeito. Mas, quando elas faziam as pazes, desfilávamos só eu e os meus chinelos. Aí prevalecia a lei do mais forte. Vale mais um menino de família tradicional e rica do que um ascendente social? Acho que era por aí, descontando o fato de que eu era tão bonito quanto eles, mas mais simpático, e atencioso, no duplo sentido. Os nomes dos amigos do esquadrão de elite, preservo, pois deles, apenas um ainda vive.
O UPGRADE NO CENÁRIO
Saindo da loja, à esquerda, havia um corredor formado pelo prédio da família Ângelo Zortea e o Posto de Saúde. Avançando pelo corredor, dobrando a esquerda chegava-se à residência da Família Caleffi, mais um pouco se chegava onde eu residia. Indo reto passava-se pela casa de Adriano Stefani, benfeitor da Fervi, passando-se pela casa dele se chegava a um galpão que tinha salão de baile, sede do CTG Laço Velho, e uma cancha de bochas, muito frequentada. Meu pai era muito bom nas bochas, eu torcia por ele e, ao mesmo tempo eu observava os ensaios da Invernada Artística do CTG. Um dia, num ensaio, faltou um dançarino, me convidaram para “tapar o buraco”. Livre e solto lá fui eu, devo ter agradado pois não sai mais do time. O Dr Roberto Vargas Ross, sócio proprietário do laboratório Champagnat, tinha como par a noiva Marisa Cousandier, o Alexandre Machado tinha como par a Dóris Fiametti e eu, tinha como par a Dorli, irmã dela. Ambas, Dorli e Dóris, eram filhas do FIAMETTI TAXISTA, que tinha um lindo e bem cuidado Chevrolet Bel Air, eu gostava muito requisitar seus préstimos, me sentia um rei dentro daquele carro. Ensaiávamos exaustivamente aos sábados a tarde e, nos bailes, nossa apresentação era muito aplaudida. Eu me apresentava com bombachas feitas pelo meu pai, minhas botas eram de “cromo alemão” da loja do meu pai e maiores que meu chinelos, eram adornadas por esporas de prata, presenteadas pelo tio Nelson que me presentou também com um belo cinto e um pala de seda. Leve, bem ilustrado, mesmo sendo o terceiro bailarino, nas apresentações eu flutuava. Cheguei até a ser declamador, quando eu declamava a plateia silenciava, as moscas assumiam protagonismo pois era possível ouvi-las, nem tanto, nem tanto, um exagero de expressão. Vez por outra íamos a bailes de outros CTGS, nos quais nossa invernada artística se apresentava. Deles, lembro de um, o de Gravataí. Quem convidava pagava o ônibus, mesmo que fosse daqueles das torcidas de futebol, se sabe que vai, mas, não se sabe se volta. Fomos. Lá pelas quatro da manhã, hora de vir embora, cadê o ônibus? Não veio, com veemência cobramos uma solução que veio através da nossa hospedagem. Eu, o Oscar Ferrari e o Alexandre Machado, fomos “hospedados num galpão, em meio a feno e vacas ou cavalos não lembro, de uma fazenda”. Em meio ao pasto seco, feito cama, os dois dormiam e eu, com o meu pala de seda, morria de frio. Fiquei três horas caminhando dentro do galpão olhando os dois dormirem, e, pensando no que fazer da vida. De vez em quando eu saia para “ver a luz do luar quando na verdade o que eu via era geada”. Lá pelas 7h vi uma luz lá longe acender fui até lá, era a casa do capataz da fazenda, contei o meu drama, ele me convidou a tomar chimarrão, “vai aquecer”, disse ele, e eu pensei com os meus botões “palavras que consolam”! Uma hora depois apareceram os “dorminhocos”. O que aconteceu depois disso não lembro. Na roda de chimarrão me disseram “o feno aquece do frio”! “Me deu vontade de vender fora as pilchas”. Nos fundos do CTG tinha uma “porta secreta” que dava acesso a cancha de bolão do Clube Corinthians. Por ela eu entrava discretamente me posicionando ao lado dos pinos “torcendo para que o menor número deles fossem derrubados”.
O LAZER NA PERIFERIA
Eu circulava muito pela cidade, após as aulas do APARECIDA. Subia pela Saldanha Marinho até a Fundição Farina, esquina com a rua 13 de maio. De vez em quando via Paulo Caleffi sempre descendo a escada da residência de forma acelerada. Na farmácia Providência eu parava para papos muito legais, no alto morava a família Plauto de Abreu, que foi Deputado, pai de um dos meus amigos o Promotor Daltro de Abreu. Eu subia a rampa da Ramiro Barcellos, em direção a casa do Dr. Antônio Casagrande, do Dr. Péricles Barbosa, do Dr. Amélio Casagrande, lá no alto dobrava a esquina, entrava no correio pelo simples prazer de entrar, e vinha de volta pela praça, retomando a Saldanha Marinho. Na praça Walter Galassi eu andava de bicicleta a noite. Não me perguntem como isso aconteceu, mas eu estava lá. No pátio da casa do Dr. Péricles, pai do Sérgio, do Silvio, e da Sônia, ao ar livre montamos, digo montamos por que eu era coadjuvante, um ringue de boxe, sinalizado por cordas suspensas. As lutas eram programadas pelo Dr. Airton Giovanini, “dono das cordas e das luvas”. Airton e Sérgio eram os lutadores principais e, eu e o Dr. Danilo Baldi, Sparrings, éramos coagidos a perder, caso contrário o Airton levava as luvas embora e, fim de luta! Então, assim, a primeira luta era o Sérgio com o Danilo, classificatória, a segunda era eu e o Airton. Vencedores? Sérgio, que tinha acesso a adega do Dr. Péricles e também era dono do terreno, e o Airton, dono das luvas e das cordas. A final, entre Airton e Sérgio, dava empate, empate declarado “pelo lutador dono das luvas”. Após as lutas, o Sérgio convencia a irmã Sônia a ceder a chave da adega e lá íamos nós beber um vinho do Dr. Péricles e debater os lances do torneio. Teve mais um “lance de lazer”. O Airton, nos convidou para ir a casa dele, ainda está lá na Barão do Rio Branco, onde, no porão, tinha uma mesa de pingue-pongue. Esclarecendo que o dono da casa, o dono da mesa, o dono das raquetes, e o dono das bolinhas, era o Airton, vocês vão me perguntar quem ganhava o torneio? Ele não dividia delicados com ninguém! Quando, um dia, sentados na entrada do Clube Aliança, resolvi, com os amigos presentes, formar um time de futebol de salão, só tinha um em Porto Alegre, eu comprei a bola, era cara pois era rara, as camisas, os calções e as meias. O time? Era eu e mais quatro. Um dia os Michelin, Fausto e Renato, brigaram feio num treino. Recolhi a bola e decretei o fim do treino. A Vera Michelin, irmã do Renato veio intervir com o apelo “Henrique, devolve a bola, continuem jogando, é briga de família, amanhã estão de bem”. Resposta minha “não Vera, esporte é para lazer e união, não é guerra”, e me fui embora prá casa, dei uma de Airton e deu certo, nunca mais brigaram, “eu era o dono da bola, o dono do time, e o goleador”, mesmo sendo o pior jogador. Nunca mais houve brigas, só alegria.
TÃO BONITINHO MAS…
Já que eu falei dos meus fiéis companheiros, os “chinelos de dedo”, vou contar mais um episódio de minha vida que os envolveu. Meu pai sempre quis o melhor para os filhos. A escola de Datilografia do Colégio Medianeira se não era a melhor do Estado, estava entre as 3 melhores. Lá fui eu, nos meus 16 anos, fazer o curso que durava 6 meses, frequência de 1 vez por semana, no horário das 13h às 14h. No curso eu apanhei muito da irmã, a régua dela era mortal e o lema apavorante: “espiou no teclado, apanhou”! Tinha que olhar só no manual, que era bem grosso. Tudo isso suportável, sem sacrifício ninguém chega a lugar nenhum, não fosse por um detalhe, às 13h30 as alunas entravam na aula a escada passava pela sala onde eu e minha máquina remington estávamos trabalhando. Umas 20 meninas paravam na escada e em jogral diziam em voz alta: “coitadinho, tão bonitinho e de chinelo de dedo”! No primeiro dia eu pedi pra morrer, mas Deus mandou recado “não é tua hora, aguenta”. Na semana seguinte, de novo e eu recitava “Deus é meu pastor, nada me afetará”, enquanto o jogral “condenava” os meus abençoados chinelos de dedo havaiana, hoje disputados e bem cheirosos. Ao visitar, não faz muito, o MEDIANEIRA, vi que a sala e a “escada maligna” ainda estão lá mas as escolas de datilografia cederam lugar aos computadores.