
A presença científica do Brasil no interior do continente Antártico, coordenada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) da Criosfera, consolida o protagonismo do país em discussões geopolíticas e climáticas globais. Através dos módulos Criosfera I e II, localizados a milhares de quilômetros da Estação Antártica Comandante Ferraz, pesquisadores brasileiros monitoram variações ambientais que impactam diretamente o regime de chuvas e as massas de ar frio que atingem o Rio Grande do Sul. O professor titular de Glaciologia e Geografia Polar da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Jefferson Cardia Simões, um dos principais nomes da ciência polar no país e pioneiro da área no Brasil, detalha o funcionamento e a importância dos módulos Criosfera I e Criosfera II, estruturas automatizadas mantidas pelo Programa Antártico Brasileiro no interior do continente gelado.
Segundo Simões, os dois módulos representam não apenas os principais projetos da glaciologia nacional, mas, na prática, “as principais e únicas atividades do país dentro do continente Antártico”. O isolamento é extremo e faz parte da proposta científica. O Criosfera I está localizado a cerca de dois mil quilômetros ao sul da Estação Antártica Comandante Ferraz, enquanto o Criosfera II encontra-se ainda mais distante, a aproximadamente 2,5 mil quilômetros. “Evidentemente, a logística é bastante complexa, tanto para chegar lá quanto para a coleta dos dados”, afirma o pesquisador.
Logística em um dos ambientes mais extremos do planeta
O deslocamento das equipes ocorre durante o verão antártico, período em que as condições climáticas permitem o acesso ao interior do continente. Os pesquisadores partem de Punta Arenas, no Chile, em voos diretos até uma pista de gelo situada a 80 graus de latitude sul, na geleira Union. A partir desse ponto, o trajeto até os módulos ainda exige dias de deslocamento. “De lá é uma viagem de trator polar de cinco dias ou, de avião com esquis, cerca de uma hora e meia até o Criosfera II”, relata Simões. O Criosfera I, por sua vez, fica a cerca de 90 quilômetros da pista, o que facilita a manutenção.
Mesmo assim, o acesso anual não elimina os desafios. Durante o inverno antártico, equipamentos podem quebrar devido às temperaturas extremas, exigindo revisões constantes. Por isso, equipes passam de três a quatro semanas no local, geralmente entre o final de novembro e dezembro, realizando manutenção, troca de baterias, coleta de dados armazenados e complementação de pesquisas de campo.

Estações que funcionam o ano inteiro sem emitir carbono
Os módulos Criosfera operam de forma totalmente automatizada, 365 dias por ano, 24 horas por dia. A energia que mantém computadores e sensores em funcionamento vem exclusivamente de fontes renováveis, como energia solar e eólica. “Não usamos nenhuma fonte que produza subprodutos, como dióxido de carbono”, ressalta Simões.
Os dados coletados são transmitidos via satélite, principalmente por meio do sistema Argos, com atualização em tempo quase real. Em breve, parte dessa transmissão deverá migrar para tecnologias como o Starlink, mais baratas e eficientes. “Hoje, no caso do Criosfera I, os dados já vão direto para sites e ficam disponíveis a todos os pesquisadores”, explica. Segundo ele, a divulgação ampla das informações é uma obrigação do Programa Antártico Brasileiro e uma exigência do Tratado da Antártica, ainda que alguns dados tenham um período inicial de carência para a produção científica.
Entender o passado para prever o futuro do clima
Do ponto de vista científico, os módulos são considerados laboratórios únicos para o Brasil no interior da Antártica. A partir deles, pesquisadores coletam dados essenciais para modelar as variações do clima e compreender como as mudanças climáticas afetam a maior massa de gelo do planeta, responsável por cerca de 90% do gelo da Terra.
Um dos pilares dessas pesquisas é a análise dos chamados testemunhos de gelo, cilindros retirados do interior das camadas glaciais que preservam registros da atmosfera do passado. “Os testemunhos de gelo são hoje a técnica mais avançada para reconstruir a história da química da atmosfera e das variações climáticas anteriores aos registros meteorológicos”, afirma Simões. Por meio dessas amostras, é possível analisar concentrações de gases de efeito estufa, como dióxido de carbono, metano e óxido nitroso, além de identificar erupções vulcânicas, variações da atividade solar e até sinais de poluição antiga.
Segundo o glaciologista, foi justamente esse tipo de pesquisa que comprovou a origem antrópica do aumento recente dos gases de efeito estufa. “Os testemunhos de gelo deram as evidências de que o aumento dos gases estufa desde a Revolução Industrial é criado artificialmente”, afirma.
Ele cita como exemplo a detecção de chumbo na Groenlândia associada à cunhagem de moedas no Império Romano e, em pesquisas brasileiras recentes, o aumento de arsênio e urânio no gelo antártico decorrente da mineração no Chile e na Austrália no último século.

Antártica e Brasil: um sistema climático interligado
Simões também chama atenção para uma percepção equivocada bastante comum no Brasil: a ideia de que o país, por ser tropical, estaria isolado dos processos polares. “As regiões polares são tão importantes quanto a Amazônia para o clima do Brasil”, destaca. Segundo ele, as frentes frias que atingem o Sul do país, incluindo o Rio Grande do Sul, têm origem no Oceano Antártico e podem avançar até regiões como o Acre.
Um dos pontos centrais da pesquisa é o monitoramento do carbono negro, subproduto da queima de biomassa e combustíveis fósseis. Segundo Simões, evidências indicam que a fumaça proveniente de queimadas na América do Sul e na África atinge o interior do continente gelado, demonstrando a interconexão ambiental entre as regiões.
Esses processos influenciam diretamente o regime de chuvas e a ocorrência de eventos extremos. “Estamos vendo complexos convectivos de grande porte e eventos extremos associados a fenômenos antárticos”, afirma. Para regiões como a Serra Gaúcha, onde Bento Gonçalves está inserida, esse conhecimento é fundamental para compreender impactos climáticos sobre a agricultura, a vitivinicultura e a segurança da população.
Gelo, nível do mar e cenários preocupantes
Outro foco central das pesquisas é o monitoramento do volume das geleiras e suas consequências para o nível do mar. Embora a Antártica ainda não seja a principal responsável pelo aumento atual, Simões alerta que isso pode mudar nas próximas décadas. “Se conseguirmos limitar o aquecimento global a 2 graus, o nível médio do mar deve subir no máximo um metro até 2100”, explica. Em cenários mais pessimistas, com aumento de 3 ou 4 graus, a elevação pode chegar a vários metros nos próximos séculos, com impactos globais severos. O monitoramento do permafrost, o solo permanentemente congelado, nos Andes também revela sinais de mudanças climáticas que já afetam países vizinhos como Bolívia e Peru.

Ciência, geopolítica e os desafios do financiamento
Além da relevância científica, a atuação no interior da Antártica tem forte peso geopolítico. Manter pesquisas ativas garante ao Brasil maior protagonismo no sistema do Tratado da Antártica, que regula cerca de 8% da superfície do planeta. “É uma forma de aumentar o protagonismo do Brasil e mostrar liderança científica”, afirma Simões.
Apesar disso, o pesquisador aponta dificuldades crescentes, especialmente relacionadas ao financiamento irregular da ciência. “O problema muitas vezes não é nem a falta de recursos, mas a irregularidade”, diz. A manutenção dos dois módulos custa cerca de 300 mil dólares por ano, enquanto todo o Programa Antártico Brasileiro consome aproximadamente 70 milhões de reais anuais, valores considerados modestos diante da importância estratégica.
Outro fator preocupante é a fuga de cérebros. “Já perdi quatro doutores para outros países. O salário baixo e a falta de perspectivas afastam jovens pesquisadores”, lamenta.
A Antártica como símbolo de cooperação internacional
Ao final da entrevista, Jefferson Simões destaca a importância do trabalho conjunto entre as nações.
Em sua análise final, Simões reforça que o sucesso da cooperação internacional na Antártica, que perdura por 66 anos, é um exemplo necessário para um cenário global de instabilidade política. Ele enfatiza que o sistema do tratado equilibra relações entre diferentes nações sem aceitar soberanias nacionais, priorizando a preservação ambiental e a paz. Para o glaciologista, a integridade do sistema climático é indivisível e a falha na proteção da Antártica comprometeria a esperança de estabilidade em outras regiões do mundo. “Se nós falharmos na preservação ambiental e no cenário político do Tratado da Antártica, nós não temos esperança para outros lugares do mundo”, conclui.