O aumento do uso de medicações e “canetas” para emagrecimento trouxe à tona uma preocupação que vai além da perda de peso na balança: a qualidade do peso que está sendo perdido. Nesse contexto, a sarcopenia, caracterizada pela redução progressiva da massa e da força muscular, passou a ganhar destaque entre profissionais de saúde. Embora tradicionalmente associada ao envelhecimento, a condição pode ser acelerada por emagrecimentos rápidos, dietas muito restritivas e pela falta de estímulos adequados de proteína e exercício físico. A perda de músculo, e não apenas de gordura, compromete o metabolismo, a disposição, o equilíbrio e a autonomia funcional, aumentando o risco de lesões e doenças crônicas. Diante da popularização de tratamentos que promovem grande redução de peso em pouco tempo, especialistas alertam para a necessidade de estratégias que preservem a musculatura e garantam um emagrecimento realmente saudável.
De acordo com Laura Tizatto, médica endocrinologista do Hospital Tacchini, a diminuição de massa muscular é um processo esperado com o envelhecimento. “Mas quando essa perda é mais acentuada e afeta a força muscular ou as funções do dia a dia, como dificuldade para levantar-se de uma cadeira ou subir escadas, chamamos de sarcopenia”, pontua.
A especialista explica que o quadro vai além de uma alteração natural do corpo e pode comprometer a autonomia, a mobilidade e a qualidade de vida, exigindo atenção para diagnóstico e acompanhamento adequados.

Emagrecimento
A endocrinologista alerta que o risco não está restrito a um único método de emagrecimento. “Todo emagrecimento, principalmente quando rápido, predispõe também à perda de massa magra. Seja com dieta, tratamento medicamentoso ou cirurgia bariátrica. Não é um efeito exclusivo das medicações injetáveis. O risco de sarcopenia nesses casos é maior em pacientes idosos, sedentários e com baixa ingestão de proteína na alimentação”, explica.

Laura Tizatto, médica endocrinologista do Hospital Tacchini


Segundo Laura, um dos principais objetivos no tratamento do sobrepeso e da obesidade deve ser a preservação da massa muscular, e não apenas a redução do número na balança. “Para isso é fundamental manter consumo adequado de proteínas, realizar exercícios de força (como musculação) e manter acompanhamento multidisciplinar (médico, nutricionista, educador físico)”, destaca.
A endocrinologista reforça que o emagrecimento saudável precisa ser planejado, com estratégias que garantam a perda de gordura sem comprometer a estrutura muscular e a funcionalidade do organismo.
Laura frisa que a alimentação não deve ser excessivamente restritiva e precisa garantir uma quantidade adequada de proteínas para a preservação da massa muscular. “Por isso o acompanhamento do nutricionista também é importante”, aconselha.

Alterações hormonais
A médica explica que o desenvolvimento da perda de massa muscular está diretamente relacionado às transformações fisiológicas próprias da longevidade. “A sarcopenia está ligada a mudanças hormonais que ocorrem com o envelhecimento, como a queda de estrogênio nas mulheres que ocorre na menopausa. A deficiência de testosterona nos homens também predispõe a perda de massa muscular. Além disso, há uma redução dos hormônios relacionados ao crescimento muscular e uma pior resposta do músculo à insulina. Essas alterações dificultam a manutenção da massa e da força muscular, favorecendo o desenvolvimento da sarcopenia”, frisa.
De acordo com a especialista, esse cenário ajuda a explicar por que muitas pessoas, mesmo sem mudanças expressivas na rotina, passam a sentir mais fraqueza e dificuldade para realizar atividades que antes eram simples. A perda muscular progressiva pode comprometer o equilíbrio, a postura e a mobilidade, aumentando o risco de quedas, fraturas e internações, especialmente na população idosa.
Diagnóstico
A endocrinologista destaca que o diagnóstico da sarcopenia depende de uma avaliação clínica cuidadosa e de métodos objetivos de análise. “Devemos avaliar a força muscular e o desempenho físico do paciente, utilizando alguns testes que podem ser aplicados em consultório, além de avaliação da composição corporal por meio de exames como ressonância, densitometria ou bioimpedância”, explica.

Impactos
A doença pode ter vários efeitos na vida de quem a possui. De acordo com Laura, os principais são:

  • Aumenta o risco de quedas e fraturas;
  • Perda de autonomia nas atividades diárias;
  • Aumenta o risco de mortalidade.

Tratamento
A médica lembra que, apesar dos avanços nas pesquisas, o procedimento ainda se baseia em medidas não farmacológicas. “Atualmente não existe nenhuma medicação aprovada para controle da sarcopenia, mas existem estudos em andamento. Dessa forma, o foco deve ser na alimentação e no exercício físico. Medidas para evitar quedas, como retirada de tapetes e instalação de corrimão, podem ser realizadas”, menciona.
A especialista ressalta que o prognóstico está diretamente relacionado ao momento do diagnóstico. “Quanto antes for identificada, maior é a chance de recuperar a massa muscular e a força”, pontua. Segundo Laura, a identificação precoce permite intervenções mais eficazes, com programas de exercício e adequação nutricional capazes de reverter parte das perdas e evitar complicações futuras. O acompanhamento contínuo é apontado como essencial para que o paciente mantenha funcionalidade, independência e melhor qualidade de vida ao longo dos anos.
Quando procurar um médico
A endocrinologista orienta que alguns sinais do dia a dia devem servir de alerta para buscar ajuda profissional. “Procure avaliação se houver dificuldade para subir escada, caminhar ou levantar-se da cadeira, quedas frequentes, emagrecimento rápido ou desejo de perda de peso. Jamais faça uso de medicamentos por conta, sem acompanhamento médico”, finaliza.

Dados
Baseado no estudo publicado na Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences (BJIHS, 2024), a prevalência da condição na população geral varia entre 10% e 16%, mas esse número dispara para mais de 60% em grupos que já convivem com outras doenças crônicas. No Brasil, essa oscilação é gritante: dependendo do perfil do paciente e dos critérios médicos utilizados, a presença da doença varia de 4,8% a 62%.
Os dados mais recentes reforçam que a doença não é apenas uma preocupação de consultório, mas um problema crítico de saúde pública. Segundo o estudo de Carvalho et al. (2025), a relação entre a fraqueza muscular e os acidentes domésticos é direta e alarmante: em idosos internados após sofrerem quedas, observou-se que mais de 50% já apresentavam risco de sarcopenia. O quadro se torna ainda mais grave quando olhamos para a nutrição desses pacientes: mais de 70% deles apresentavam riscos de desnutrição.