O Arquivo Histórico de Bento Gonçalves (AHBG) é um meio de pesquisa que orienta os caminhos oficiais da evolução de Bento Gonçalves, para compreender os seus fatos e marcos. O espaço abre diálogos contínuos sobre o passado, sempre revisitado, de forma contínua, pelos pesquisadores. “A catalogação permite encontrar assuntos de forma mais fácil e rápida e a digitalização possibilita que itens possam ser copiados ou enviados aos pesquisadores, em meio eletrônico, sem a necessidade de manusear os exemplares originais, contribuindo para a conservação do acervo. Outro aspecto da digitalização é a possibilidade de termos itens de texto em formato PDF pesquisável, o que agiliza as buscas enormemente”, destaca o historiador e coordenador do AHBG, Vagner Boni.

Sua abrangência pauta diversas áreas do conhecimento humano, como a Geografia, a Sociologia, a Arquitetura, e a própria História, exercidas em diversos estudos e trabalhos de nível escolar, acadêmico ou até mesmo na busca pessoal das raízes, de forma sazonal. “Embora a gente não possua registros de nascimento, casamento e óbito, temos outros dados que podem contribuir com a pesquisa sobre raízes familiares. Um aspecto que chama atenção é a curiosidade em visitar o local onde os antepassados viviam, na área rural do município. Assim, com o número do lote e nome da linha, conseguimos, através dos mapas que temos no arquivo e em conjunto com outras ferramentas, indicar o local aproximado. Muitos vão até esse local e retornam ao AHBG para agradecer, impressionados com a experiência, imaginando as dificuldades passadas pelos antepassados”, salienta.

Atualmente há 11.192 itens ou conjuntos de itens

Há livros que são coletâneas de legislação, de editais, termos, contratos, além de registros de correspondência, tributos, entre outros. Ainda, o espaço tem fotografias, folders, selos, mapas, plantas, projetos, histórico de todas as edições da Fenavinho, hemeroteca e videoteca; sendo que alguns destes grupos, como fotografias (mais de 7.000) e folders (mais de 400), estão totalmente digitalizados. “O processo iniciou em 2021, sucedendo, as também iniciadas no mesmo ano, reorganização e catalogação do acervo. O desafio inicial era ter o equipamento próprio, que permitiria realizar a digitalização nas dependências do AHBG, o que permitiria digitalizar a maior parte do acervo, mantendo o controle do mesmo e com custos reduzidos. Adquirido o equipamento, iniciou-se de imediato este processo. Como impacto imediato aos pesquisadores temos a facilidade de acesso e, principalmente, de busca. A preservação de documentos é fundamental, pois minimiza a manipulação dos itens do acervo, diminuindo o desgaste”, frisa Boni.

Tecnologia fortalece difusão da história

O processo de digitalização de todos os documentos físicos está em mais de 80%. “Este é um processo fundamental, pois contribui para a preservação dos itens do acervo, uma vez que diminui a manipulação, ao mesmo tempo que possui cópias de segurança em caso de sinistro, além de facilitar a difusão do material”, enfatiza.

Diversos tipos de documento são encontrados

Outro aspecto importante da versão eletrônica é a facilidade de pesquisa e busca, que, em conjunto com a catalogação, acelera o processo de pesquisa, otimizando o trabalho para preservar a informação gerada na sua originalidade, seja ela em carta, relatório, lei, códice, entre outros, da transição da Colônia Dona Isabel para a modernidade. Esses documentos são chamados de fontes primárias, que são os dados originais sobre o passado. Já as fontes secundárias são publicações, como compiladas em livro, realizadas pelo historiador com interpretações de fatos e vestígios à luz das ferramentas conceituais desenvolvidas para as leituras da História.

Conectando passado e presente

Assim, o Arquivo é ponto de partida e referência ao mesmo tempo, tendo recebido inúmeras solicitações de informações de diversas partes do país. Exemplo são turistas que vêm pesquisar sobre os seus antepassados que moravam em Bento, como de São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Amazonas, Mato Grosso, e até vão visitar o local onde esses antepassados moravam no interior. Os documentos mais antigos são de 1890, ano da criação do município.

Estudantes com um instrutor perto do Museu e Hotel Planalto na década de 1920. Reprodução de original/ Acervo: Museu do Imigrante.

Como ações de circulação e difusão de seus bens e conteúdos, o coordenador ressalta a existência da página na internet do AHBG, em que pode ser encontrado o Plano Arquivístico, onde são abordadas a missão, objetivos, explicações sobre arquivística e o sistema municipal de arquivos, arcabouço legal e, principalmente, como é composto o acervo e todo o tratamento que é dado aos itens que o compõem, bem como, o plano de catalogação e sua organização. Além disso, nesta página também é possível acessar o catálogo do acervo e textos que abordam aspectos históricos, no formato de artigo científico.

Pesquisas

A produção de artigos ocorre utilizando como base as próprias fontes da instituição, tendo sido publicados quatro até o momento, que podem ser acessados por meio do link https://www.bentogoncalves.rs.gov.br/arquivo-historico/.

São fatos, curiosidades e aspectos que falam diretamente de cunho político, social, econômico, sanitário, entre outros, como os trajetos que percorriam a Estrada Geral e a Buarque de Macedo; o histórico do Complexo Municipal de Saúde (conhecido como Hospital Galassi); e o desenvolvimento urbano do bairro Cidade Alta dentro do recorte temporal de 1919-1999. “A produção de artigos visa facilitar o entendimento da história do município. Muitas informações estão distribuídas em fontes primárias distintas, como códices, fotografias, mapas e correspondências. Assim, o trabalho do historiador, de buscar, compilar e interpretar as fontes é colocado em prática, elaborando um produto mais conciso e didático, com a citação de todas as fontes analisadas e feito ‘sob medida’ para Bento Gonçalves. Muitas vezes, para a contextualização, utilizamos fontes externas, proporcionando um trabalho mais completo. Naturalmente, este trabalho já posiciona o AHBG como um espaço de produção de conhecimento histórico, de forma direta, mas também, fazemos referência a inúmeros pesquisadores que recorreram às fontes do Arquivo na produção de conhecimento histórico”, pondera o historiador.

Foto tirada em 1930 do Anexo do Hotel de Veraneio Planalto (hoje Museu). O almoço antecedeu o Baile de Carnaval. Reprodução de original/ Acervo: Museu do Imigrante.

Além disso, estão sendo trabalhados outros assuntos, cujos artigos devem ser lançados em breve, como um abordando o histórico da evolução territorial de Bento Gonçalves e outro sobre a história da ferrovia no município. “Algumas pesquisas podem surpreender o público, tanto pelo aspecto de esclarecimento detalhado dos acontecimentos, como por novas informações que surgiram durante a pesquisa, inclusive com a correção de dados até então divulgados. A pesquisa é complexa e para obter esclarecimento completo tivemos que buscar informações junto ao Arquivo Histórico do RS, em Porto Alegre, do qual ainda estamos aguardando algumas informações, uma vez que aquele arquivo esteve fechado para reforma”, detalha.

Segundo o coordenador, todo o conhecimento histórico tem importância para entender o presente da cidade, e esses dois temas contarão detalhes que esclarecem, por exemplo, porque Bento Gonçalves possui uma área territorial tão reduzida, ou mesmo, como a cidade se tornou um importante polo ferroviário e hoje está com a maior parte da malha ferroviária desmantelada. “Este trabalho é fundamental para as novas gerações, que não vivenciaram aspectos da história do município, entenderem melhor como as coisas aconteceram. Atrelado a isso, os artigos são disponibilizados na internet, proporcionando acessibilidade e ampla difusão”, reitera.

De acordo com ele, estes textos são importantes pois reúnem dados históricos das fontes primárias do AHBG, que estão distribuídos em vários itens do acervo, relacionando com conteúdos de fontes secundárias (bibliografia). Desta forma, consegue-se compilar os assuntos de um mesmo tema, que é disponibilizado na internet, através da página do Arquivo, ficando ao alcance de todos. “Um aspecto importante é que todos os textos são elaborados dentro da metodologia científica, com a descrição detalhada das fontes, citações e notas de rodapé, sendo a primeira vez que o Arquivo Histórico produz algo com esta qualidade”, ressalta.

Organização do acervo

O AHBG permanece como participante do projeto Caminhos dos Arquivos, do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul (APERS), que compila dados de dezenas de instituições de preservação da memória no Estado.

Além disso, o Plano Arquivístico do município mais atual foi lançado em setembro do ano passado. “A revisão periódica é algo natural e também fundamental para aperfeiçoar os métodos utilizados, ampliar esclarecimentos e atualizar dados e conceitos. Neste aspecto, as principais atualizações ocorreram na ampliação dos esclarecimentos sobre a catalogação. Atualmente temos 11.192 itens ou conjuntos de itens, que, se desdobrados todos os conjuntos, poderiam, facilmente, multiplicar esse número por 50, no mínimo. Este processo foi concluído em 2022. De lá para cá, ocorreram algumas poucas agregações de itens, ou desdobramento de alguns conjuntos. Saliento que essa contabilização pode tratar de um item isolado, como um códice (livro), com mais de 300 folhas; ou de um conjunto, como um bloco de jornais, que, embora contabilizado com um único número, pode conter jornais de um semestre inteiro, chegando a mais de 40 edições”, conclui Boni.

Há mais de sete mil fotografias no acervo. Reprodução de original/ Acervo: Museu do Imigrante.

Localização e sistema

O AHBG está situado na Travessa Cuiabá, 66, Sala Térrea, no bairro Botafogo e atente para agendamentos de pesquisadores através do e-mail arquivohistoricobg@gmail.com. Telefone: (54) 3055 7138.
As ações de comunicação são gerenciadas pela Secretaria Municipal de Cultura e não há até o momento redes sociais. Tampouco são produzidos folders ou encartes.

O AHBG é apenas uma parte do Sistema Municipal de Arquivo Público e Histórico. O Sistema Integrado de Gestão Administrativa Documental (SIGA-DOC) também faz parte, focado na gestão eletrônica de documentos da Prefeitura, ambos com o objetivo de organizar e dar acesso à memória e à administração da cidade.

Objetivos do AHBG:

a) Selecionar, catalogar, guardar, preservar e disponibilizar documentos públicos que proporcionem uma visão histórica do município.
b) Assegurar o acesso de pesquisadores a todos os itens de seu acervo.
c) Gerar conteúdo na forma de resenhas ou artigos científicos que venham a atender solicitações dos Poderes Executivo e Legislativo do município, bem como, que venham resgatar informações de eventos históricos relevantes, utilizando, para tal, a metodologia científica adequada na coleta de dados e citação de fontes, disponibilizando os resultados ao público.
d) Estabelecer canais de troca de dados com outras instituições arquivísticas do Estado, de forma a estabelecer uma interconexão entre os conteúdos de seus acervos.
e) Tornar-se referência institucional na organização, guarda, preservação e disponibilização de itens do seu acervo arquivístico.