Com a chegada da temporada de verão e o aumento do fluxo de pessoas em praias, piscinas, clubes e balneários, cresce também a circulação de viroses típicas desta época do ano. O período, marcado por altas temperaturas, aglomerações e maior contato com água compartilhada, favorece a transmissão de vírus que afetam principalmente o sistema gastrointestinal, causando sintomas como diarreia, vômitos, febre e mal-estar. Entre mergulhos no mar, banhos de piscina e refeições fora de casa, pequenos descuidos com higiene e conservação dos alimentos acabam se tornando portas de entrada para infecções que lotam unidades de saúde e interrompem o descanso de muitas famílias.
De acordo com Nicole Golin, infectologista e diretora técnica do Tacchini Bento Gonçalves, as viroses de verão costumam ser gastrointestinais e respiratórias leves. “Favorecidas por calor, aglomerações, água e alimentos mal conservados. Elas aumentam no verão por causa de ambientes cheios (praias, piscinas, viagens), altas temperaturas que facilitam a sobrevivência de microrganismos e piora da conservação de água e comida”, comenta.

Dra. Nicole Golin, infectologista e diretora técnica do Tacchini Bento Gonçalves

Características
As chamadas viroses de verão costumam ter evolução rápida, mas chamam atenção pelo alto poder de transmissão e pelo impacto na rotina de quem é infectado. Segundo a infectologista Nicole, esses quadros exigem atenção, especialmente durante períodos de maior circulação de pessoas e exposição a ambientes compartilhados. “Em geral são infecções agudas, autolimitadas (duram poucos dias) e altamente contagiosas, sobretudo por via fecal-oral (mãos, água, alimentos) e respiratória. Predominam quadros de gastroenterite (náuseas, vômitos, diarreia, cólicas, febre baixa) e também resfriados e viroses de vias aéreas superiores. Calor, viagens, superlotação de praias e maior consumo de comida fora de casa aumentam o contato entre pessoas e a chance de ingestão de água/alimentos contaminados”, menciona.

Locais
Segundo Nicole, a água do mar também pode se tornar um meio de transmissão de vírus quando há contágio por esgoto, levando patógenos até áreas utilizadas para banho. Em piscinas, o risco está associado à falta de tratamento adequado: ambientes mal conservados podem veicular vírus, como hepatite A e norovírus, além de parasitas e bactérias, mesmo na presença de cloro, especialmente quando a manutenção é insuficiente ou há grande carga de fezes e vômitos na água. “O risco é maior em locais superlotados, com limpeza deficiente, presença de crianças pequenas usando fralda na água e após chuvas intensas que sobrecarregam a rede de esgoto”, frisa.

Sintomas
Embora os sinais gastrointestinais sejam comuns durante a temporada de verão, é importante distinguir as viroses das intoxicações alimentares, já que a evolução e a forma de contágio são diferentes. A identificação correta ajuda a orientar cuidados, evitar a disseminação e definir quando buscar atendimento médico. “Virose gastrointestinal: quadro mais arrastado (dois a cinco dias), com febre baixa, mal-estar, dores musculares, náuseas, diarreia aquosa, às vezes coriza ou dor de garganta associadas”, explica.
Já a intoxicação alimentar clássica costuma ter início rápido, geralmente poucas horas após o consumo de um alimento contaminado, e apresenta características específicas que ajudam no diagnóstico. “Intoxicação alimentar clássica: início súbito (1–12 horas após alimento de risco), vômitos intensos predominando, podendo ter diarreia, nem sempre com febre, geralmente ligada a um alimento específico consumido por várias pessoas que também adoecem”, esclarece a infectologista.
Independentemente da causa, alguns sintomas indicam maior gravidade e não devem ser ignorados, exigindo avaliação médica o quanto antes. “Sinais de alarme em ambos: sangue nas fezes, febre alta persistente, dor abdominal intensa localizada, diarreia muito volumosa ou sinais de desidratação exigem avaliação médica”, pontua.

Vulneráveis
Alguns grupos da população exigem atenção redobrada quando o assunto são viroses, especialmente durante o verão. “Crianças e idosos desidratam mais rápido por terem reservas hídricas menores e menor capacidade de compensar perdas, além de sistema imune mais vulnerável”, menciona.
No caso das gestantes, as alterações próprias da gravidez podem agravar o impacto das infecções virais e da desidratação, trazendo riscos adicionais. “Elas têm alterações imunológicas e fisiológicas que podem tornar quadros infecciosos e desidratação mais perigosos para mãe e bebê”, observa Nicole.
Por isso, nesses grupos, a evolução da doença tende a ser mais rápida e exige acompanhamento mais atento desde os primeiros sintomas. “Nesses grupos, uma virose ‘simples’ pode evoluir mais rapidamente para desidratação, queda da pressão e piora de doenças pré-existentes”, esclarece.

Atendimento médico
A especialista destaca a necessidade de procurar avaliação médica nos seguintes casos:

  • Vômitos em jato ou impossibilidade de ingerir líquidos por mais de 6 a 8 horas;
  • Diarreia muito frequente (mais de seis evacuações líquidas ao dia) ou com sangue/muco;
  • Febre alta (acima de 38,5 °C) por mais de 48 horas, dor abdominal forte ou muito localizada, sonolência excessiva, confusão mental e sinais de desidratação (boca seca, pouca urina, tontura, queda de pressão);
  • Em crianças pequenas, idosos e gestantes, o limiar para procurar atendimento deve ser mais baixo, mesmo em sintomas moderados.

Prevenção
Ela destaca também que há cuidados essenciais para a precaução, sendo eles:

  • Higiene das mãos com água e sabão ou álcool em gel antes de comer e após usar banheiros, praias ou piscinas;
    • Verificar se a praia está própria para banho e se a piscina tem manutenção adequada (água clara, registro de cloro/filtração, limpeza visível);
  • Evitar engolir água de piscina ou do mar; não entrar na água com diarreia e não deixar crianças com diarreia na piscina;
    • Cuidar da alimentação: preferir locais confiáveis, alimentos bem cozidos, evitar maioneses, frutos do mar crus e comidas expostas ao sol;
  • Manter o esquema vacinal em dia (incluindo hepatite A para crianças, conforme calendário, e influenza/Covid de acordo com recomendações vigentes).

Cuidados
A hidratação adequada é um dos principais fatores para evitar complicações associadas às viroses, especialmente durante o verão. A falta de líquidos pode agravar o quadro clínico e acelerar a evolução da doença, aumentando a necessidade de atendimento médico. “Desidratação piora quadros virais porque concentra toxinas, facilita queda de pressão, insuficiência renal aguda e aumenta o risco de internação, sobretudo em viroses intestinais”, recomenda.
Durante os dias mais quentes, a atenção à ingestão de líquidos deve ser contínua, mesmo na ausência de sede, como forma de prevenção e cuidado com a saúde. “No verão, é importante ingerir líquidos ao longo do dia: água, soro de reidratação oral, água de coco e soluções caseiras indicadas por profissionais de saúde”, orienta Nicole.
Alguns sinais simples podem ajudar a identificar se o corpo está bem hidratado, especialmente entre os grupos mais vulneráveis. “Orienta-se urina clara e em boa quantidade como sinal indireto de hidratação; oferecer líquidos com frequência a crianças e idosos, mesmo sem sede”, sugere a médica.

Mitos
Nicole esclarece algumas das principais crenças falsas que circulam sobre as infecções virais:

  • “É só uma virose, sempre passa sozinha”: muitas são leves, mas algumas podem evoluir com desidratação grave ou complicações, exigindo atenção e, às vezes, internação;
  • “Quem toma cloro da piscina não pega nada”: vários agentes são relativamente resistentes ao cloro ou sobrevivem quando a piscina está superlotada ou mal mantida;
  • “Água do mar sempre é limpa”: em períodos de chuva e em áreas com saneamento precário, o mar pode estar contaminado por esgoto e causar surtos de gastroenterite.

Orientação
Para reduzir os riscos de contaminação durante a temporada de verão, a médica reforça a importância de atenção redobrada na escolha dos locais de lazer. “Escolher locais com boa reputação sanitária: observar limpeza dos banheiros, qualidade da água, presença de lixeiras e informação sobre balneabilidade”, destaca.
Além disso, cuidados simples no dia a dia ajudam a minimizar a exposição a vírus e bactérias, especialmente em ambientes com grande circulação de pessoas. “Levar kit básico: álcool em gel, garrafa de água, soro de reidratação, chapéu/boné e protetor solar; em crianças, roupas UV e fraldas específicas para água, trocando-as com frequência”, orienta.
A alimentação também merece atenção especial durante passeios e viagens, já que alimentos mal conservados são uma das principais fontes de contaminação. “Comer com critério e evitar alimentos muito perecíveis vendidos em temperaturas inadequadas e não compartilhar utensílios e copos com muitas pessoas”, determina.
Por fim, a médica orienta que sinais iniciais da doença não devem ser ignorados, sobretudo entre os grupos mais vulneráveis. “Em caso de sintomas, suspender a ida à praia/piscina, priorizar hidratação, repouso e buscar atendimento se houver sinais de gravidade, especialmente em grupos de risco”, finaliza.