Em um mundo marcado pela aceleração do tempo e pela sobreposição de demandas, ser multitarefa deixou de ser exceção para se tornar rotina. No trabalho, em casa ou nas relações pessoais, a habilidade, ou a exigência, de realizar várias atividades ao mesmo tempo passou a ser vista como sinônimo de eficiência e produtividade. No entanto, estudos e especialistas têm questionado até que ponto essa prática é realmente benéfica, alertando para impactos na concentração, na qualidade das tarefas e na saúde mental. A discussão ganha espaço ao colocar em pauta os limites entre desempenho, pressão cotidiana e bem-estar.
De acordo com a psicóloga Larissa Santos Bohm, essa ideia de ser multitarefa pode estar ligada à forma como aprendemos a nos relacionar com o desempenho. “Muitas pessoas cresceram ouvindo que precisam estar sempre produzindo para terem valor, para ‘pertencere’ a alguma coisa com propósito, ou seja, se sentir parte de algo produtivo, que traz reconhecimento para sua existência. Isso tudo pode criar uma sensação interna de urgência e levar a um comportamento de estar o tempo todo ocupado, mesmo quando o corpo e a mente já estão cansados, pois só assim se alcança um propósito de ‘utilidade’”, explica.

Larissa Santos Bohm, psicóloga

Impactos
Ela conta que, apesar de parecer benéfico, fazer muitas coisas ao mesmo tempo exige que o cérebro mude o foco constantemente. “Isso aumenta o esforço mental, diminui a qualidade da atenção e, no fim, pode gerar mais cansaço e até mais erros. A sensação de produtividade nem sempre reflete o que realmente está sendo produzido, ao mesmo tempo em que o indivíduo pode iniciar várias tarefas e não conseguir completar nenhuma, justamente por não focar sua atenção de uma forma mais plena e consciente”, determina a psicóloga.
A longo prazo, isso pode afetar não só a rotina, mas também o psicológico de alguns. “Esse padrão pode aumentar a ansiedade, a irritabilidade e a sensação de sobrecarga. Muitas pessoas relatam dificuldade de concentração, cansaço mental constante e a sensação de que nunca fazem o suficiente, mesmo se esforçando muito. Muitas delas só conseguem reduzir esses impactos por meio da psicoterapia e do uso de medicação controlada, prescrita por médico psiquiatra”, salienta Larissa.
Segundo a psicóloga, a exigência de produzir o tempo todo é humanamente inviável e resulta em sobrecarga emocional. Ela explica que, para muitos, manter-se constantemente ocupadas pode funcionar como uma estratégia de evitação, uma forma de fugir de pensamentos e emoções difíceis. “Para algumas pessoas, estar sempre ocupado pode funcionar como uma forma de evitar pensamentos e emoções difíceis, uma fuga para não lidar com seus problemas. Mas, infelizmente, esse funcionamento mantém o corpo em estado de alerta na maior parte do tempo, o que aumenta a ansiedade e o estresse, ao invés de aliviar”, observa.

Cultura
A cultura de não poder descansar tem se consolidado como um traço marcante da sociedade contemporânea, na qual a produtividade constante é frequentemente associada a valor pessoal, sucesso e comprometimento. “Essas ideias vão sendo internalizadas e, mesmo quando a pessoa sabe que precisa parar, ela sente culpa ou desconforto, pois aprendeu, em sua cultura, que isso é sinal de descaso ou perda de tempo”, destaca.
Esse cenário é impulsionado por cobranças sociais, metas cada vez mais agressivas e pelo uso contínuo da tecnologia, que mantém as pessoas permanentemente disponíveis.

Sinais de sobrecarga
Larissa descreve alguns indícios de esgotamento emocional, sendo eles:

  • Cansaço constante;
  • Dificuldade de concentração;
  • Irritabilidade;
  • Esquecimento;
  • Dificuldade de relaxar;
  • Sentimento frequente de culpa ao tentar descansar.
    Jovens
    A psicóloga esclarece que crianças e adolescentes estão sendo expostos cada vez mais cedo a esse tipo de estímulo. “Isso pode dificultar o desenvolvimento da atenção e da regulação emocional, resultando em mais ansiedade, inquietação e dificuldade de foco”, frisa a profissional.

Lidar com os sentimentos
Larissa explica que o primeiro passo é desenvolver consciência sobre os pensamentos que surgem nesses momentos e passar a questioná-los de forma crítica. “Será que de fato são verdadeiros ou apenas aprendidos ao longo da vida? Será que a ideia de que descansar é realmente perder tempo ou preguiça?”, orienta.
Outra estratégia, segundo a especialista, é ressignificar o descanso. “Ele não é um prêmio depois do esgotamento, mas uma necessidade básica para o bom funcionamento mental e emocional. Muitas pessoas só se permitem parar quando estão exaustas, o que reforça um ciclo de sobrecarga. Aos poucos, é importante se permitir fazer pausas e observar que, na maioria das vezes, elas melhoram o bem-estar e até o desempenho”, pontua.

Como reduzir a sobrecarga
Ela orienta que é fundamental desacelerar e se dedicar a uma tarefa por vez, adotando práticas mais conscientes na rotina. “Criar pausas intencionais, reduzir o excesso de estímulos digitais e organizar prioridades ajudam bastante. Pequenas mudanças no dia a dia fazem uma grande diferença na saúde mental”, sugere.
Outra estratégia, conforme explica a psicóloga, é começar com pausas pequenas e intencionais, observando os efeitos positivos que elas trazem. “Essa experiência prática ajuda a reduzir a culpa, pois a pessoa percebe que descansar não atrapalha a produtividade; pelo contrário, melhora, trazendo mais clareza mental, menos irritabilidade e melhor concentração”, destaca.
A psicóloga ressalta ainda a importância de adotar um olhar mais gentil consigo mesmo e reduzir a rigidez das cobranças internas. “Acredito que trabalhar a autocompaixão e flexibilizar a cobrança interna é essencial. Descansar não diminui o valor de ninguém; cuidar da própria energia é uma forma de responsabilidade consigo mesmo”, afirma.
Para a psicóloga, a cobrança por desempenho permanente precisa ser questionada a partir de sua origem: a ideia de que o valor pessoal está condicionado à produtividade. Segundo ela, esse pensamento costuma ser construído ao longo da vida e raramente é fruto de uma opção racional. “Muitas vezes, ela não nasce de uma escolha consciente, mas de expectativas sociais e cobranças que internalizamos ao longo da vida. Viver nesse ritmo constante de fazer e entregar pode até gerar resultados no curto prazo, mas costuma ter um custo alto para a saúde mental”, observa.
Ela finaliza esclarecendo que o descanso deve ser compreendido como parte do cuidado e não como sinal de falha. “Descansar não é desistir, não é fracassar e nem perder tempo. É uma forma de sustentar o equilíbrio emocional e construir uma vida mais coerente, consciente, com presença”, finaliza.